A aconchegante jornada de “Lady Bird”


Depois de encantar o público com sua personagem em “Frances Ha“, a atriz Greta Gerwig assume pela primeira vez o papel de diretora em seu primeiro longa “Lady Bird“. A  narrativa de uma estudante insatisfeita com sua vida na cidade de Sacramento é uma pequena fatia do grande cenário que a diretora nos apresenta em sua película. Uma história sobre adolescência, família e principalmente sobre autoconhecimento.

Saoirse Ronan e Greta Gerwig nos bastidores de “Lady Bird”

A jornada de Christine , interpretada pela atriz Saoirse Ronan, recria toda a granulosa inquietação de uma adolescente cheia de propósitos – indo desde ao desejo de ser atriz à sair da cidade onde cresceu. Anseios onde a familia da matriarca Marion McPherson interpretada brilhantemente por Laurie Metcalf, são compreendidos como sonhos e falsas ilusões de que ao conquistar tudo que pretende, a protagonista por fim idealizará o cenário da vida perfeita. “Lady Bird” como se autodenomina Christine, sabe chamar atenção como ninguém, tentando a todo momento se imortalizar em cada nova ação que lhe é destinada no longa. São situações que satirizam de maneira inteligente os passos tomados pela adolescente, dando vida a um humor engenhoso e cheio de espontaneidade.

Retratando a juventude de uma maneira mais leve, Greta Gerwig ainda consegue emocionar seu público com momentos delicados, desenhando não só o desabrochar de Lady Bird e sim de todos que a circulam. Pontos como amizade e o primeiro relacionamento são apresentados em densidade paralela ao que todos já vivenciaram em algum momento da vida. É bonita a interação que o filme tece com seu público, agindo quase como uma máquina do tempo de lembranças. Em todo seu aspecto o longa é espirituoso e consegue atingir seu ápice nos momentos onde a protagonista se vê frente a frente com as dificuldades encontradas ao percorrer do caminho.

A relação entre Marion (mãe) e Christine (filha) é o ponto alto do filme. Por muitas vezes nos pegamos rindo ou nos compadecendo com as divergências das duas protagonistas. É fascinante ver essa majestosa epifania de descobertas que as duas atingem até os minutos finais. Consolidando a jornada de Lady Bird à um contexto onde a personagem aceita e abraça o mundo como ele é.

Nota 10 para a bem-humorada trilha sonora que vai desde o sucesso dos anos 90 “Crash Into Me” da banda Dave Matthews Band á “Cry Me A River” de Justin Timberlake, habilmente aplicadas em cenas pra lá de pitorescas. Jon Brion que ficou responsável pelas composições originais, legitima notavelmente a excitação da adolescência. O compositor já fez trilhas para filmes como “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” e “Magnólia“.

Lady Bird” desenrola-se quase como uma auto biografia de Gerwig, cidadã Californiana e com uma história muito similar a de Christine. Talvez seja por isso que o longa em nenhum segundo perca o tato com a realidade e seja tão verdadeiro ao assimilar as difíceis transições agridoces que a levam até o amadurecimento de sua personagem. Uma genuína representação de que a promissora carreira da diretora está só começando e tem muito a render.

Lady Bird – A Hora de Voar” não é só mais um filme sobre crescer e descobrir seu lugar no mundo, e sim uma verdadeira carta escrita a mão sobre amor e dar atenção aqueles que lhe rodeiam. Afinal, não é disso que a vida se trata?

Flávia Denise

Jornalista & Music nerd. ;)