A discussão social presente em “Tungstênio”

Incisivo e agressivo ao pôr na mesa a realidade de seu povo. Talvez o cinema brasileiro seja um dos poucos a produzir um conteúdo tão singular em sua fórmula – identificando as regionalidades e as dificuldades de um público único em suas narrativas. “Tungstênio“, dirigido pelo pernambucano Heitor Dhalia, apresenta tudo isso e um pouco mais. Um filme cem porcento baiano onde vemos essas diversas características da região em uma perspectiva cheia de submundos.

A trama de “Tungstênio” é voltada em torno de quatro personagens que vão se encontrando ao longo da história: Seu Ney (José Dumond), é um ex-sargento do exército que sente falta da militância. Wesley Guimarães dá vida ao jovem Caju, um adolescente da periferia que aos poucos irá se inserir ao mundo do tráfico. Já Fabrício Boliveira interpreta um policial violento chamado Richard. Keira, esposa de Richard é vivida pela modelo/atriz estreante Samira Carvalho. Sua personagem hesita em abandonar tudo ou continuar vivendo submissa do marido que a trata mal. Nesse filme não existe protagonismo, cada um vive sua história e cabe ao espectador julgar quem é bom e mal.

Quando dois pescadores utilizam explosivos para pescar na orla de Salvador, na Bahia, os quatro protagonistas farão de tudo para acabar com esse crime ambiental. Mas, na busca dos caminhos que lhes pareçam mais corretos, cada um deles vai passar por mais conflitos pessoais e morais. A história se passa na Cidade Baixa, em Salvador, e nos faz refletir sobre até aonde as pessoas conseguem sobreviver com a exclusão social do nosso país.

A personagem feminina vivida por Samira é a úncia que não se envolve completamente com a trama principal do filme, no qual tem um arco particular que se destoa em alguns momentos. Wesley Guimarães, Fabrício Boliveira e José Dumont imprimem atuações bastantes físicas, guiada por uma voz mais empostada e duelos corporais.

Em “Tungstênio” o esteriótipos estão encarnados na pele de seus personagens. Mas não me entenda mal, isso não é necessariamente algo ruim. A figura de militante que o Seu Ney expõe ou até mesmo a arrogância e a violência gratuita do policial Richard são apenas um retrato do nosso cotidiano.

Tungstênio” dá nome ao filme e à história em quadrinhos do autor Marcello Quintanilha. A direção de Heitor Dhalia reproduz bem o que é o quadrinho. Em alguns momentos o filme mostra alguns ruídos. O inicio mais cauteloso pode prejudicá-lo na hora de segurar o interesse do espectador. Outro ponto negativo é o momento no qual o filme decide partir para ação. Nos deparamos muito com idas e vindas e com isso vem a quebra de ritmo no instante em que a ação empolga.

Já a fotografia de Adolpho Veloso explora a luz do dia no qual exalta a cor da pele. Botando a mostra a textura dela, e tornando a fácil identificação do que é belo e do que é hediondo se tratando das características físicas dos personagens. Positivamente, a narração estilosa de Milhem Cortaz ajuda a nos envolvermos com a trama e as personalidades presentes no filme.

Tungstênio” é um thriller tropical e introspectivo com protagonistas que espelha a “modernidade” atual do Brasil. Vemos aqui uma adaptação descente de um quadrinho nacional. Na era em que cada vez mais as histórias em quadrinhos estão ganhando espaço no áudio visual, o cinema local pode e deve beber dessa fonte. Além de “Tungstênio“, outros quadrinhos de Marcello Quintanilha podem ser adaptados, como Hinário Nacional e Talco de Vidro.

Mesmo com altos e baixo, o filme dirigido por Heitor Dhalia é uma discussão social para nós. O diretor entrega um filme regional, no qual devemos nos orgulhar com a riqueza cultural do país em que vivemos.

Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.