A pitoresca tragicomédia de “Três Anúncios Para um Crime”


Justiça e injustiça, vida e morte – paralelos que facilmente se cruzam nos mundos criados por Martin McDonagh. Adicionando sempre uma pitada de humor negro, a narrativa promovida em qualquer um de seus cenários é similar, no entanto sempre impremeditável. Em “Três Anúncios Para um Crime“, o assombroso relato de uma mãe sedenta por justiça, encontra-se frente a frente com a brutal deformidade cultural norte-americana.

Diretor e escritor Martin McDonagh e a atriz Frances McDormand

Mildred Hayes, interpretada magnificamente por Frances McDormand, é uma mãe que abruptamente tem sua filha estuprada e assassinada. Com o caso sem resolução e nenhum suspeito preso, Hayes aluga três outdoors em uma via onde pouco se há movimento de carros. Nos outdoors, três frases são exibidas em sequencia: “ESTUPRADA ENQUANTO MORRIA”, “E AINDA NENHUMA PRISÃO?”, “Como pode, Chefe Willoughby?”. Em forma de protesto contra a displicência da policia local, a protagonista começa sua inquietante jornada, sem apoio de seu outro filho e com uma cidade dividida entre os que acreditam em seu posicionamento e aqueles que lhe desmoralizam.

Mildred é constantemente projetada como uma mulher forte. De bandana na cabeça, fazendo uma clara referência ao icônico cartaz “We Can do It!” de J. Howard Miller, uma das imagens mais conhecidas do movimento feminista – a protagonista comporta-se como tal. Já Willoughby, chefe de policia interpretado por Woody Harrelson, é um pai de família vitima de câncer, que com os dias contados para sua morte se vê sem saída a não ser focar toda suas energias para a resolução do assassinato. Entre os desdobramentos do longa, acompanhamos situações inacreditáveis, em sua grande maioria arquitetadas pelo desajustado policial Jason Dixon, interpretado brilhantemente por Sam Rockwell.

As doses de humor negro são distintas aqui, quase nos remetendo a um filme dirigido pelos irmãos Coen. Aliás, é bom lembrar que foi em “Fargo” onde Frances McDormand despontou e se revelou como uma das grandes revelações da indústria cinematográfica. Arrisco até a dizer que desde então, não a via atuando com tanta firmeza em um longa como neste. Voltando para a projeção, “Três Anúncios Para um Crime” ainda relata o preconceito racial e o machismo que interruptamente se propaga pelo país e mundo. Acredito piamente que Martin McDonagh quis ir além, dando a América um pouco do seu retrato social surreal.

Não obstante de sua posição forte no filme, sentimos a perda de Mildred como se fosse nossa, e não é a toa que por diversos momentos, assim como a personagem, perdemos a esperança de que sua luta renderá alguma resposta. Este é o tipo de projeção onde constantemente a incerteza captura a atenção do público ao longo de sua duração. De forma multidimensional, assistimos aqui uma rica história onde a complexidade do ser humano se enfinca incisivamente na narrativa dos três personagens apresentados.

O elenco ainda composto por Peter Dinklage (James), Lucas Hedges (filho de Mildred), John Hawkes (Charlie) e Caleb Landry (Jones), possibilita atuações sólidas, criando diálogos intrigantes e cheios de autenticidade. Verdade seja dita, nem só de protagonistas é feito um filme, e é nisso que “Três Anúncios Para um Crime” também se sobressai. Exemplo disso é a relação de Mildred com James, objeto de chacota da cidade devido seu nanismo, a todo momento busca amparar e proteger a imagem da mãe difamada pelos cidadãos da localidade.

Destaque para a excepcional trilha sonora moldada pelo compositor Carter Burwell, recriando perfeitamente a atmosfera sulista do estado de Missouri. Com densidade, a trilha dá peso ao bem planejado conjunto de planos e sequencias. O roteiro abre um amplo de cenário de possibilidades, e convence ao deixar que cada personagem reinvente sua história –  trabalho esse que rende ao espectador uma cena final devastadora.

De forma deslumbrante, Frances McDormand (a mãe Mildred Hayes) e Martin McDonagh (diretor do longa) presenteiam o público com uma obra prima moderna. Ficcional e ainda assim tomado por circunstâncias reais. “Três Anúncios Para um Crime” captura com humor e com muita sensibilidade a natureza da vida e das injustiças atribuídas a ela.

Flávia Denise

Jornalista & Music nerd. ;)