A pluralidadade de “Vekanandra”, da banda Luísa e Os Alquimistas


O ano de 2017 foi uma loucura. Além de tudo o que a gente já tá cansado de saber e de falar como Trump, Temer, previdência, regras trabalhistas e tudo isso, houve, afinal, boas mudanças. Foi um ano de liberação, coisa que ninguém nunca tinha visto antes em termos de “aceitação” de uma determinada massa. Desapegos e desprendimentos de certos conceitos foi algo que esteve mais presente dentro das nossas esferas políticas e culturais, também: no cinema, nas novelas e claro, na música.

Óbvio que a arte é a precursora de tudo isso, mas a gente tá falando de massa aqui, de aceitação por parte dos grandes mandachuvas. Mesmo que isso signifique se adequar à uma lógica capitalista. A demanda não é mais pedida e sim exigida. A minoria é barulhenta no final das contas. Em Natal, no ano de 2017, essas mudanças foram visíveis especialmente nas festas da cidade. Se antes tudo era dividido (festa de funk é festa de funk, festa de pop é festa de pop, festa de rock é festa de rock, festa de indie é festa de indie), hoje tudo se mescla. O conceito é não existir conceitos. O boom das festas produzidas por amadores abrem espaços não apenas para as pessoas se liberarem dessas divisões sem sentido dentro dos espaços públicos, mas também fazem com que artistas locais passem a mesclar essas mudanças dentro de seus próprios produtos.

Um reflexo disso é o novo álbum da Luísa e Os Alquimistas, “Vekanandra“. Com sete faixas e produzido inteiramente por Walter Nazário, um dos cabeças de outra banda local que já atingiu uma escala nacional, a Mahmed, o álbum faz quase uma ode as espécies que habitam os espaços ocupados na cidade e Vekanandra é a protagonista do bando.

Autointitulada como “Vekanandra“, a primeira faixa do disco é uma introdução à altura dessa “nordestina malucona” que tem “passagem na escola da maloqueragem“. É o currículo de uma influencer que a gente só encontra na noite. A música começa com uma batida digna de um tecnobrega que logo evolui e se mistura a um beat eletrônico que quase simulam as luzes frenéticas da pista. Além disso, o refrão é bem alinhado e faz jus à estrutura pop, deixando você cantarolando o “vai toma, vai grita fica rouca, vai toma” o resto do dia e pensando na cerveja que poderia estar na sua mão, esquentando.

 

Se Preparty” é o esquenta, é o caminho pro role. Luísa, aqui, mostra sua versatilidade cantando em espanhol, rimando em seus raps e, bem no finalzinho, dando uma suavizada. Tudo isso por cima de um beat de samples bem estruturados com camadas de vozes que, a propósito, percorrem a grande maioria do álbum, como se simulasse um show dentro dos casarões antigos da Ribeira, com a acústica terrível, que dá pra ouvir todos os tipos de conversas enquanto a música tá rolando.

Apesar de ser um álbum pequeno, há espaço para interlúdios, como é o caso da misteriosa “Retour Au Noir“, com participação da Lilli Bélica, que fala sobre o “glamour” de uma indústria aproveitadora, deixando o tom mais sério e sombrio e que serve como gancho para “No Shame“, também mesclando idiomas estrangeiros com o português (“happy to be ninguém” é um verso ótimo). Dentro da narrativa dessa diva louca, ambas contam histórias de revolta, que expõe hipocrisias e dificuldades em ser artista. É o que acontece fora dos palcos que importam aqui.

 

A pluralidade do álbum atrapalha unicamente na língua. “Retour Au Noir” tem o francês, “No Shame” e “Piece of Me“, o inglês; “En Las Rocas” e “Se Preparty“, o espanhol. Claro que isso dá uma certa identidade globalizada para Vekanandra, misturando, mais uma vez, sem se preocupar com certos preceitos, porém, incomoda por não explorar mais o português dentro da estrutura de um álbum nacional com fortes referências regionais e principalmente por ser um álbum muito bem construído.

Piece of Me“, a propósito, é talvez a única baixa do álbum por aparecer deslocada. O sample que percorre a música é o mesmo que foi utilizado em “Love on the Brain“, da Rihanna, que faz com que a gente simule o conceito de “diva pop” mais ainda, mas quebra o ritmo, especialmente por estar antes da ótima — e instrumental — “Barca de Ouro” que, por sua vez, tem participação da maior diva pop nacional, que foi a Dercy Gonçalves, no auge da sua loucura lúcida em recortes de entrevistas.

Luísa e os Alquimistas produziram um álbum criado dentro do caleidoscópio de referências de “Vekanandra“, a personagem, mas, por ser da nossa geração — da geração que consome pop, brega, funk, rock e eletrônica, sem se preocupar com “tribos” — faz com que ela se expanda e mostre que há uma Vekanandra em todos que esperam amanhecer para voltar para casa. Suas sete músicas são apenas uma pequena dose — que é forte e queima — do potencial criativo do que a banda pode fazer daqui pra frente.

Hiago Peixoto

eu escrevo, né