Arctic Monkeys explora estrutura crônica em novo álbum

Arctic Monkeys ajudou a consolidar de vez um cenário mais atual do gênero rock nos anos 2000, além de ser talvez o principal grupo que construiu um diálogo do rock com o pop mainstream, fazendo a banda ser conhecida não somente pelos fãs ou por pertencentes aos escusos pubs londrinos, mas também através de rádios mais populares e com alcance. Ao longo da jornada do quarteto liderado por Alex Turner, os dois primeiros álbuns impactaram por uma sonoridade mais agressiva, apresentando flertes com o hardrock e o punk britânico. As passagens dos anos, os novos discos possuíram direcionamentos mais mesclados e expansíveis, ponderando dúvidas de onde a banda poderia ir. Em 2013, lançaram “AM“, o mais recente trabalho que contém uma concentração interessante de hits e diversificação sonora. 5 anos depois, em 2018, veio “Tranquility Hotel Base & Casino“, lançado na última sexta-feira (11).

Era um álbum aguardado, principalmente para ver como seria a reinvenção que o grupo britânico passaria por. Nesse meio tempo, Turner lançou um álbum com seu outro projeto, The Last Shadow Puppets, ao lado do guitarrista e compositor Miles Kane. Bem recebido, Alex levou as influências que já tinha para colocar no novo disco. THB&C explora um cenário futurista, de ficção científica, não só pelas melodias distorcidas e longas linhas de piano e guitarra contínua, mas pelo tom e objetividade das letras, que rumavam críticas a modernidade e de seu impacto na sociedade, seja pelo comportamento consumidor ou comportamental. Há uma deveras relação de homenagem com David Bowie, que figurava alienígena para interpolar questões humanas, ricas em questões pertinentes e ritmos convincentes. No entanto, essa reinvenção e mudança mais íntima e reativa da banda foi um desafio que exigiu posições e técnicas novas, pontos que a banda não apresentava antes e como resultado, o álbum ficou confortável, espelhado somente nas homenagens e condizente só com sua narrativa mais pessoal e crônica.

As baladas acompanhadas por piano e teclado, alinhadas às linhas de baixo, percorrem o disco em um tom misterioso, célebre mas confuso. O álbum é dividível e estruturado sob uma linha musical e de progressão perceptíveis. As quatro músicas iniciais contornam e se interpolam com o jazz e o soul americano. “Star Treatment“, “One Point Perspective” e a faixa-título são menos esquecíveis que a terrível “American Sports“. Inconsistente e nivelado por baixo, o disco se renova e ganha um bom ar na pop mas ainda interessante “For out of Five”, uma mistura de eletrônica, rock e funk que lembram a boa forma que a banda consegue atingir quando pensa em prospectar novas audiências com seus hits.

Em outras canções, como por exemplo “Sciente Fiction” e “Batphone“, há uma sobrevida pelos efeitos de reverb e distorção nas guitarras e também pela própria sonoridade já batida do grupo, mas em um sentido interessante, confortável. No entanto, esse conforto sonoro traz uma mediocridade criativa e vazia no sentido de instaurar uma percepção mais impactante ao longo do álbum. São 11 músicas tendo duas no máximo uma qualidade mais justificável e propensa ao que a banda pode produzir. Não que seja suficiente apontar os problemas somente na mudança de som ou na falta de criar e percorrer melhores trilhas. Não é um disco mal produzido, possui uma masterização ótima, mesmo que seja difícil ouvir a segunda guitarra, de base. Possivelmente, pela própria atmosfera um pouco mais calma e baladesca, mas nada que consiga controlar a falsa impressão de um disco pensado em apenas conceber uma nova experiência sonora, mas sem apresentar uma firme e consistente progressão musical. Não é de todo ruim, mas está bem aquém do que se pode crer da banda.