O conflito psicológico de “You Were Never Really Here”

O último filme de Lynne Ramsay foi “Precisamos Falar Sobre Kevin“, de 2011. Porém, “Jane Got a Gun“, de 2015 deveria ter sido dirigido por ela, mas devido desentendimentos no set a cineasta resolveu abandonar o projeto. Dito isso, Ramsey agora volta à ativa dirigindo e roteirizando o aclamado “You Were Never Really Here“.

Joe (Joaquin Phoenix) é um veterano de guerra e ex-agente do FBI que não tem medo de violência, lembranças antigas que envolvem seu antigo emprego e sua infância o aterrorizam. Ele trabalha misteriosamente resgatando menores de idades que são exploradas sexualmente, algo que faz de forma bem sucedida. Porém, até o caso de Nina (Ekaterina Samsonov) cair em suas mãos.

A missão para salvar Nina acontece da forma como Joe planejou, mas ocorre uma reviravolta envolvendo uma conspiração política que ele não esperava. Um resgate simples se torna um verdadeiro terror para o protagonista da trama.

O anti-herói vivido por Joaquin Phoenix se encontra aprisionado ao passado, um ser que contem cicatrizes tanto por dentro quanto por fora. A violência e a auto tortura parece o manter tranquilizado. Apesar de toda agressividade encontrada no personagem, o ex-agente não deixa de ser uma pessoa carinhosa, isso é demonstrado na convivência com sua mãe (Judith Roberts) e, ao resgatar Nina.

É de se questionar o início desorientado de “You Were Never Really Here”, que acaba se tonando intrigante. Em virtude de poucas informações e com muita violência, sangue e principalmente diálogos limitados. Lynne Ramsay nos faz mergulhar em um universo que tem um personagem lunático em alguns momentos.

A fotografia de Thomas Townend serve de apoio para compreendermos a dimensão desse mundo. Ela alterna entre planos de detalhes físicos, passagens de beleza sentimental e o preto-e-branco das câmeras de segurança.

A película da diretora escocesa aborda temas lastimáveis como pedofilia, suicídio, stress pós-traumático e violência infantil, tornando o filme com um tom depressivo e sombrio. A cineasta conta com a ajuda da edição de Joe Bini para cortar os flashbacks rapidamente com o objetivo de mostrar o mínimo possível, mas esse pequeno recorte já diz muita coisa sobre uma mente perturbada.

No formato que o protagonista é construído pela diretora, faz parecer que o filme está sendo contado através de sua mente. Acredite, há momentos sobre o que é real e alucinação.

Joaquin Phoenix mais uma vez realiza um personagem marcante. Ele entrega tudo que seu anti-herói precisa para ocasionar aflição no público. Com o olhar intenso e o silêncio seguido da brutalidade. O ator não se encaixa no estereótipo herói de ação. Ele está longe de ter um corpo repleto de músculos, algo que torna Joe mais humanizado.

A cada filme que Joaquin trabalha ele deixa seus admiradores mais confusos. É difícil apontar para um papel do ator e dizer: ‘esse é melhor do que aquele’. Com Joe de “You Were Never Really Here” ele conseguiu ganhar o prêmio de melhor ator em Cannes de 2017, mas será que esse trabalho está tão acima do que Freddie de “O Mestre”, ou de quando ele deu vida a Johnny Cash em “Johnny & June”?

Jonny Greenwood é outro nome importante para esse filme. O músico cria uma trilha sonora emblemática. Mesmo com um diálogo mínimo, a sonoridade criada por Greenwood é tão pulsante que faz com que o longa-metragem pareça tudo, menos silencioso.

Lynne Ramsey consegue orquestrar de forma magistral qualquer fator técnico presente em seu filme. Ela nos entrega uma verdadeira desconstrução do gênero de ação. “You Were Never Really Here”  é uma confirmação que Ramsey é uma cineasta desafiadora e que tem muito pra nos oferecer através do cinema que produz.

Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.