O medo do desconhecido em “Ao Cair da Noite”


Depois de Ex-Machina e o amado e odiado A Bruxa, a produtora de filmes independentes A24, continua no seu percurso de reinvenção do termo thriller psicológico, apresentando uma nova forma de terror sem jumpscares desnecessários e muito mais reflexivo. Com “Ao Cair da Noite“, o diretor Trey Edwards Shults assimila o medo do desconhecido, buscando fundamentar o que o ser humano é capaz de fazer em frente a incerteza. E não se preocupe, nada de spoilers por aqui ok?

Em um mundo pós-apocalíptico, um casal e um filho se vêm rodeados por uma doença misteriosa e letal, fazendo de tudo para proteger seu lar. Como diz o nome do longa, os protagonistas entendem que esta doença pode ser causada por alguma criatura que ataca ao cair da noite, e por isso a porta principal da casa sempre se mantém fechada, principalmente ao anoitecer. As interpretações de Carmen Ejogo (Sarah, a mãe) e Griffin Faulkner (Andrew, o filho) estão impecáveis, dando destaque para o infalível Joel Edgerton (Paul, o pai), que executa com primor cada novo papel que lhe é entregue. Aqui vemos talvez uma repetição de storytelling já praticado em outros thrillers da mesma produtora, entretanto, o foco deixa de ser a misteriosa doença e a tal entidade que transmite esta disfunção, para tratar das relações interpessoais que se acarretam depois de um súbito primeiro encontro com uma nova família, também sobrevivente.

É interessante avaliar como estas relações se tornam frágeis e complexas em torno de tanto amedrontamento e inquietação, dando um tom de suspeita e apreensão durante toda a película. Por diversas vezes nesse filme me peguei pensando: O que o ser humano é capaz de fazer diante de tanto desespero? E bom, é capaz de tudo. Com uma narrativa aberta, o diretor fez questão de deixar o filme livre à perspectiva do público, entregando para aqueles que gostam de exercitar a mente com várias teorias, um prato cheio de conspirações. Digo isso pois por vários momentos ficamos confusos se o que estamos assistindo é mais um pesadelo de Andrew, ou se o que está acontecendo ali é uma representação real daquele momento.

Destaque também para a assombrosa fotografia e trilha sonora que acertam em cheio quem assiste, deixando um ar de desconforto e angústia a cada passo que é dado pela escura e sombria casa. “Ao Cair da Noite” é um filme que tem seus pontos cruciais e por isso estar atento a cada nova cena é de máxima importância para que o espectador compreenda cada entrelinha do cenário que se precede. Isso porque uma das primeiras cenas do filme traz um longo foco em um quadro chamado “O Triunfo da Morte” pintado em 1562 pelo holandês Pieter Bruegel, retratando a luta e a morte entre humanos e esqueletos. Neste quadro, o holandês simboliza a condição humana da morte como algo democrático, que não faz distinção de credo ou categoria, entendendo que este é o fim de todo o ser vivo. Um ponto determinante do filme que faz toda a diferença ao ser percebido pelo espectador.

O desconhecido é o foco de “Ao Cair da Noite“, nos fazendo refletir sobre nossos preceitos mundanos e de como isto pode originar situações equivocadas que cotidianamente poderiam ter possuído uma interpretação contrária. A insegurança, o medo, a suspeita e a luta pela vida fazem deste longa talvez um dos melhores filmes deste ano, dando continuidade à era de ouro das produtoras independentes, cada vez mais benquistas pelo grande público.

Flávia Denise

Jornalista & Music nerd. ;)