O proletário e sua vida como obra em “Arábia”

Não é um tópico recente a questão da marginalização e do isolamento social do proletário. Proletário, no sentido mais prolífico da palavra, está associado ao peão de fábrica. O soldador, o servente de pedreiro, o carregador de caminhão. Profissões, ocupações que estão na linha de produção de indústrias e os homens e mulheres que as preenchem e realizam, são seres de pouca representação dentro da hierárquica linha de trabalho de fábricas e indústrias. Pouco se sabe e pouco querem saber sobre histórias e contos de vida desses batedores de cartão, colocados em penumbras e plataformas distantes, em um trabalho manual e braçal.

No entanto, Affonso Uchôa e João Dumans foram até as cidades de grande produção industrial no estado das Minas Gerais e as utilizaram como cenário para dissecar essa perspectiva pouco instigada e subvalorizada. “Arábia” recorre à Cristiano (Aristides de Souza), um homem de pouca sorte, mas de muita fé e história, para impor uma condição social-histórica. O nome do Estado e seu gentílico representam em contexto esse homem. Sórdido, precário, mas que em sua camada mais importante, infla histórias marcantes que retratam esse universo sem o escapismo fantasioso e maniqueísta, provocado pelo reducionismo social.

Foto: Divulgação

O filme começa apresentando a cidade de Ouro Preto, polo industrial da região ao sul da capital, Belo Horizonte. A população está mais concentrada em pessoas idosas, mas o primeiro personagem introduzido é o jovem André (Murilo Caliari), que mora sozinho com seu irmão mais novo, portador de um problema respiratório, talvez causado pela fábrica próxima. A partir de André, nos primeiros minutos, se enxerga um rapaz recluso e diminuto ao poder fabril da cidade. Sem a criação próxima dos pais, sua tia Márcia os visita para realizar cuidados e os alimentar. Até esse ponto, o longa-metragem caminha sutil, escondendo o principal ponto e personagem do filme, que seria apresentado em uma cena cuja exposição e narrativa propõe a ser menos importante do que parecia. Até que uma sequência abrupta interrompe o traçado narrativo mais lúdico e inicia o folclore e a contagem de Cristiano.

De imediato, se percebe o isolamento social pelas condições precárias de vida do sujeito. Pobre, morador de um pequeno subúrbio próximo e sem mínimas realizações de vida, o ainda não obreiro cai no crime e é punido, sendo preso. Esse cenário e contexto são importantes para posicionar o espectador a uma inclinação mais verídica, objetiva, quase que documental sobre esse distanciamento. A cadeia irá propor a Cristiano sua primeira renovação, sendo essa mais espiritual. Nela, conhece Cascão, uma amizade importante para que o protagonista inicie a jornada já ciente dos desapegos necessários para iniciar a caminhada. Os contos sucedem através de vários aprendizados; no pomar de mexericas/tangerinas onde ele nota a importância do trabalhador e da necessidade de reivindicar pelos diretos e claro, da força que possuem quando unidos. A ponte contextual política nessa conversa importante para Cristiano não apresenta um enredo forçado, pois justamente carrega uma importância sobre a análise primária do roteiro.

Foto: Divulgação

O argumento é na verdade bem simples e de fácil compreensão dentro dessa noção de contar a história de um homem proletário e seu próprio tempo-espaço dentro dos ambientes profissionais. Suas características principais enquanto indivíduo social, os diálogos que emancipa nas jornadas, chegando a ter um romance com Ana (Renata Cabral), quando trabalhava no setor têxtil. Esse relacionamento constrói o segundo ato de maneira afetuosa, dando a Cristiano uma condição nobre que antes lhe foi arrancada e subtraída, até mesmo de conseguir se relacionar com as pessoas. Tímido e recluso, o namoro e a fidelidade que o casal tinha conspirou uma outra renovação ao rapaz, possibilitando a ele distopia e impossibilidade em uma conjuntura anterior, mas vivas e reais na passagem desse amor. Passagens essas, lidas através do caderno que o obreiro e peão escreveu ao longo de sua vida, lida pelo jovem André, contrastam o seguinte ponto: o quão o olhar enviesado e condicional de uma sociedade pode desacreditar de uma pessoa. O senso de empatia é criado sem qualquer meio de urgência ou pontos narrativos forçados, a ponto de perceber que o protagonista está fugindo de uma representação fiel e coerente.

Cristiano é um personagem criado a partir de muitos outros. É um espelho, uma aliteração que se relaciona com muitos obreiros, pedreiros; homens próximos à caldeira. Sua transição ao longo de “Arábia” passeia por diversos cenários e contrastes idealizados pela fotografia, que ora honra o predicado e se materializa em tons fortes, escuros e contrastados e ora se mantém neutro e de pouca luz. A trilha sonora é outra interação narrativa importante para as curvas dramáticas e pontuações a respeito da figura de Cristiano. Seja ele tocando “Homem na Estrada“, dos Racionais MC’s, ou seja, “Três Apitos“, na voz de Maria Bethânia, atenuando o amor pela primeira vez na vida de um homem que viveu muito longe desses sentimentos – impostos a ele quase que sob uma raiz nobre -, que fez sua vida valer somente pela mais-valia, por seu tempo total de proletariado.

Se soar desinteressante a vida de um servente ou de operador de caldeira, talvez o que ele tenha a contar não seja de seu universo, tão vasto e curioso, tão particular e sortido. És um homem de renovações e evoluções. Cristiano é uma própria obra, contada no sentido mais puro e literário. “Arábia” é toda a personificação dessa aquém margem, desse indivíduo a todo momento disposto a ser feliz nem mais pelo que faz, mas pelo que és.