10º Olhar do Cinema | Crítica | O Dia da Posse

10º Olhar do Cinema | Crítica | O Dia da Posse

É quase um exercício de antropologia utilizar o escopo da imagem cinematográfica para expor os últimos anos de Brasil; a pandemia e o isolamento social consequente, a inclinada facista no Governo brasileiro e o modelo econômico que escancara a desigualdade social ainda mais, vieram como um pacote sem esperança. Mas mesmo com esse acúmulo, o indivíduo brasileiro tem em sua característica social essa positividade do amanhã e é em O Dia da Posse, Allan Ribeiro cria esse retrato periférico através da percepção sensível da geração jovem.

Esse sentido praticamente literal está na figura de Brendo, um jovem estudante de direito que almeja os sonhos próprios no rascunho de um Brasil que já parece quase rasgado. Allan filma seu apartamento mas também projeta os arredores; as cenas que buscam olhar os vizinhos e suas rotinas alteradas em meio à pandemia criam o senso de fuga dessa cúpula. Seja observar a luz roxa no prédio em frente ou acompanhar o desenvolvimento de pombas-rolinhas nos parapeitos.

Porém, Brendo também ao sentir a liberdade imaginativa que Allan permite-o fazer, expande suas ideias para além do campo profissional: depois de se formar em Direito, fará Medicina e será o futuro Presidente do Brasil. “Um presidente médico formado em Direito”, como um novo tipo de licenciatura em faculdades públicas, balbúrdias criticadas pelo Governo que toma posse em um dos dias de filmagens.

O Dia da Posse também se relaciona com o objeto da alienação como um sensor necessário: Brendo quer ser o vencedor do Big Brother Brasil, mas mal sabe que já é o grande vencedor do reality que Allan fez dele. A construção de alguns planos dimensionam esse espaço do apartamento como um confinamento, mas também como um amplo laboratório de projeções para a vida. Filmar o reflexo da janela do quarto para ajudar a localizar Brendo dentro do quarto e dentro dos seus próprios anseios.

As filmagens que o protagonista faz para as redes sociais, ensaiando e incentivando sua própria comunidade também amarra este cenário de pertencimento, de ponderar sobre esse sentido de esperança e como a via do cinema possibilita esse escopo, de fantasiar dias melhores dentro do mais absurdo realismo.

O Dia da Posse versa sobre esse cenário de idealizações, de confabular sobre o que acontecerá no amanhã, enquanto a caminhada do brasileiro parece inerente, desde os dias da Via Única nas Diretas Já até a incerteza que há no espaço político do Brasil atual. Mas nenhuma incerteza é tão mais gostosa de sentir do que a subjetividade do olhar sobre o próprio brasileiro.

O Dia da Posse faz parte da 10ª edição do Olhar de Cinema. Acompanhe a cobertura do Festival aqui pelo Orbe Zero.

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