15ª Cine BH | Crítica | Não Haverá mais Noite

15ª Cine BH | Crítica | Não Haverá mais Noite

Qual a ferramenta “ideal” para se transmitir imagens de violência? Tem de ir ao encontro de um objetivo imparcial ou deve se limitar ao instrumento verídico de quem porta as imagens? Não Haverá mais Noite, de Éléonore Weber quer investigar, junto à curadoria temática da 15ª CineBH, o significado de vigilância pela imagem, manipulada ou não.

O documentário concentra gravações em vídeo de operações militares das Forças Armadas estadunidenses e francesas nos conflitos dos países do Oriente Médio, como Afeganistão e Síria, por exemplo. O territorialismo e a dominação destes primeiros países se dá não só pela intervenção militar, mas também pelo poder tecnológico de operacionalizar a guerra. O contexto do título se dá pelas imagens, tiradas de helicópteros, terem sido feitas à noite, utilizando de tecnologia termal para capturar luz através de fontes de calor em meio à densidade do breu.

Paralela à montagem das imagens, há a narração onde são relatados trechos de entrevistas com Pierre V., um militar que também analisa as imagens em questão. Neste ponto, Não Haverá mais Noite decorre sobre os olhares que tanto Pierre quanto a própria cineasta possuem, o conflito pela imagem e pela naturalização da violência.

A estilização é um caminho para se banalizar o crime, característica pós-moderna que se acentuou com a evolução em conjunto da tecnologia de vigilância balística com a propaganda militar via videogames. A ascensão da franquia Call of Duty em meio ao século XXI determina essa captura fetichizada da invasão, da guerra e do extermínio imperialista. Mas ao falarmos das mídias “videogame” e “audiovisual”, é necessário entender que o papel que o espectador/consumidor exerce é diferente.

Há uma parte do gameplay do primeiro Call of Duty: Modern Warfare, lançado em 2007, em que você controla câmera/arma de um helicóptero, tendo que disparar sobre alvos localizados no chão. Nessa experiência, o usuário é quem determina o controle total da cena: onde filmar, onde atirar, quando fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Essa ação principal camufla a sensação da violência, a assimilando por meio da estética e da conclusão da missão por meio de um canal ficcional.

Call of Duty 4: Modern Warfare - Campaign - Death from Above - YouTube

Porém, ao vermos as imagens reais dos helicópteros em Não Haverá mais Noite, assumimos outra postura enquanto espectador: somos totalmente passivos. Não determinamos, não somos os realizadores e portadores das ações em tela, tornando a assimilação da brutalidade algo mais tangível, sensível e natural. Deixa-se de banalizar para ter a validação dos sentimentos: revolta, escárnio, tristeza. As imagens de guerra são tidas como não só um aparato destrutivo pelo combate, mas pelo apagamento das identidades, do teatro de poder soberano que os países imperialistas fazem em meio à continuação da conquista. Pierre V, em um diálogo, lembra que o nome dos helicópteros estadunidenses são de povos indígenas nativos, massacrados e dizimados pelos colonizadores: Apache, Cherokee.

Voltando ao aspecto da mídia ativa, em 2013, produzido pela Yager e Darkside Game Studios, é lançado Spec Ops: The Line. Um jogo de guerra que, ao contrário da megalomaníaca e rentista franquia Call of Duty, se passe em terceira pessoa, retirando essa imersão do gameplay por parte do jogador na visão em 1ª pessoa; uma fuga de aspecto. Porém, essa diferença também está na condução narrativa; Spec Ops: The Line faz uma escolha expositiva em transformar o fetiche e o tesão pela guerra em tragédia, horror, culpa e angústia.

Angústia e culpa são tratados rotineiramente por psicólogos que avaliam os pilotos dos helicópteros das Forças Armadas filmados em Não Haverá mais Noite. De que essa gama de sentimentos podem surgir a qualquer momento, configurando a mentalidade dos militares em uma programação menos humana e mais operacional. O julgamento do crime de assassinar jornalistas por confundirem câmeras fotográficas por fuzis, utilizando uma câmera há mais de 3 km de distância e 3 km de altura, viria em uma corte, estaria na quebra da Convenção de Genebra. Mas até o meio jurídico e sistemático também proporciona a naturalidade de matar por um possível desvio de conduta.

Há um breve momento onde essa câmera guiada pelos comandantes e militares deixam de ser armas e se tornam só um instrumento, ao filmarem uma vila afegã com crianças brincando. A imagem em decorrência na tela deixa de ser hostil (por julgamento da direção e pela contextualização), então, é somente um plano. Mas a imagem e a funcionalidade totalitária de seu portador e criador, sempre irá configurar o meio da mesma forma.

Não Haverá mais Noite é uma cadeia de imagens que propicia o sentimento do conflito inerente e inevitável.

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