15ª CineBH | Crítica | Carro Rei

15ª CineBH | Crítica | Carro Rei

O imaginário fantasioso do cinema propicia uma oficina de ferramentas; ali estão dispostos os aparatos que um(a) cineasta irá utilizar para centralizar o foco da narrativa de seus filmes ou consertar, reparar ou aperfeiçoar o seu carro. No caso, Renata Pinheiro possui ferramentas ótimas e uma ideia boa na cabeça, mas ao pensar que as portas da garagem, ao serem abertas, revelariam uma máquina… o Carro Rei não consegue subir morros.

A história de Carro Rei fala sobre Uno (Luciano Pedro Jr.), um jovem negro morador de Caruaru-PE, que possui um dom de falar e entender os carros. Nomeado como um dos carros mais populares do Brasil, o protagonista cresce cercado por seus amigos utilitários pois a família é dona de uma frota de táxis da cidade. No entanto, quando entra na faculdade ao escolher um curso de carga ecológica e sustentável, não só vemos já de cara (e de forma expositiva) o primeiro contexto político que a cineasta introduz, como percebemos qual será a dialética que Carro Rei carregará.

Matheus Nachtergaele interpreta o mecânico Zé, que trabalhava como mecânico da frota, mas que depois voltou a trabalhar e morar em um ferro-velho. Por via dele, Renata também acentua as características simbólicas desse motivo político e social: os conflitos gerados pelos espaços urbanos, a simbiótica relação do homem-máquina, o idealismo ecológico vs capitalismo tardio. Mas, esses tópicos precisam ser salvos corriqueiramente para evitar de cair na superficialidade dos argumentos.

Não que o menor uso da explicitação dos diálogos ou da contagem da história amenizaria o tom frágil, mas já tivemos filmes como Branco Sai, Preto Fica, que a interação entre homem e tecnologia também serviu para contextualizar a política brasileira, mas com uma relação narrativa mais coesa e inteligente, menos escorregadia e estável.

Quando temos no cinema de gênero filmes como Christine: O Carro Assassino, que finca no horror a discussão sobre o desejo material e a transmutação de posse do homem com seus bens, Carro Rei demonstra dialogar com esse mesmo seara, enveredando no uso do símbolo do carro como extensão erótica do homem; a virilidade no ronco do motor, a libertação corporal ao encostar no couro dos bancos e a luta pela dominação urbana.

Mas pela própria via facilitadora da ficção científica e da composição rítmica que a filmagem da cidade de Caruaru proporciona, há a sensação de que o escopo não foi diluído por completo; as conversações de Carro Rei na própria mitologia permeiam uma distopia punk de Mad Max, mas interrompe sua própria criatividade nos limites da discussão política.

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