15ª CineBH | Crítica | Cena do Crime

15ª CineBH | Crítica | Cena do Crime

Com o seguimento histórico do curso atual, de nosso tempo, a alienação é um comportamento quase que confortável. Essa válvula de escape que nos retira do espaço mundano e nos leva a algum ponto, mas sem ter a determinação por trás dessa escolha. Ela é, no entanto, assertiva sobre uma consequência: não lidar.

O não ter, o não pertencer e vagar pelas ruínas da própria história e do espaço de tempo. É assim então que Pedro Tavares compõe e, ao mesmo tempo, decompõe seu thriller Cena do Crime. A sinopse do filme é bem simples: o assassinato de uma mulher em um bairro de luxo carioca é investigado por uma força policial, enquanto o assassino ainda continua à espreita.

Ao ter a noção desse motivo, o filme poderia se encaminhar para várias escolhas narrativas: uma tradicional caça de cão e gato; um realismo que investiga as nuances e as características do assassino à lá David Fincher. Porém, a iniciativa de Pedro é investigar o fragmento, dissipar a noção da realidade e do tempo pelo dom técnico de filmagem.

Primeiramente, temos o uso da fotografia digital em um filme de breu. Cena do Crime é noturno e a filmografia possui estouros: seja pelo ISO (os ruídos na imagem que aparecem em tela) para poder aumentar a sensibilidade do sensor da câmera e, assim, ter a iluminação natural entrando no frame; seja pelo rompimento sonoro que torna muitos diálogos inaudíveis ao se sobreporem no som ambiente.

A habilidade de filmar a noite foi reinventada no novo século por diversos cineastas, mas que possui segurando o estandarte da cinematografia digital no cinema de Michael Mann. Segundo Michel Gutwilen, em seu artigo publicado no site Plano Aberto “[…] padrões estéticos podem ser encontrados no trabalho de Mann. Frequentemente, personagens estão em primeiro plano enquanto, ao fundo, as luzes desfocadas da cidade completam o quadro. Existe aqui um desnorteamento espacial que remete tanto ao conceito de alienação quanto ao de o não-lugar.”

No entanto, enquanto na filmografia de Mann temos Miami ou Los Angeles servindo de ruído espacial, Tavares torna uma cosmopolita Rio de Janeiro em um exibicionismo vigilante, tentando registrar o fluxo do caos, pois o controle é um privilégio daqueles que não permitem que a violência entre na porta de seu apartamento. Então, as câmeras em Cena do Crime estão paradas, posicionadas, mas ainda sim, vivas.

Vivas porque transmitem o deslocamento através dos personagens que vagam nos espaços públicos e privados; o estacionamento do prédio, a cobertura do apartamento, o parque com uma árvore de natal sendo a única emanação de luz artificial. O tracking desse andar é uma vigilância punitiva ou somente um fantasma alienado à violência que o cerca?

Tavares também brinca com a abstração do absurdo, com a investigação do assassinato da jovem sendo um núcleo que dispara esses sentimentos que naturalizam o mórbido. Cena do Crime então é um cenário de fuga, de desconsideração da realidade, na qual já possui drones sobrevoando e investigando não só possíveis detratores, mas que cataloga em bits a memória e o espaço urbano.

Cena do Crime faz parte da programação do 15º CineBH International Film Festival.

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