44ª Mostra de Cinema de São Paulo | Crítica: “Mães de Verdade”

44ª Mostra de Cinema de São Paulo | Crítica: “Mães de Verdade”

Naomi Kawase é uma das principais cineastas do novo milênio, por conseguir entender as sutilezas que esse mundo novo propicia. Em Mães de Verdade, há um conto que unifica o secularismo das tradições familiares japonesas, com as intenções e abduções de um novo mundo.

Satoko (Hiromi Nagasaku) e seu marido são casados já há algum tempo e possuem um filho, Asato. A criança fora adotada logo depois que nasceu, através de uma instituição, que acolhe mães solteiras que não possuem condições de prover e cuidar dos filhos. Amparado judicialmente, as mães se abdicam dos direitos de guarda do recém-nascido, passando eles para o casal adotante.

O começo do filme explora alguns cenários para debater o senso maternal de Sakoto. Não necessariamente um diálogo de pertencimento é abordado no primeiro ato, mas abre-se espaço para a adoção ser uma espécie de tabu não declarado. Linhas sucessórias e herança genética são pontuações sociais milenares no Japão, então além de toda associação tradicional de um núcleo familiar japonês, Kawase expõe as frustrações pessoais.

As primeiras encenações e jogos de câmera de Naomi em Mães de Verdade caracterizam uma sofisticação na direção: apresentar o pôr do sol, a paisagem montanhosa, as analogias e referências com o mar. No entanto, o tom da montagem fica espaçado em meio às passagens de tempo. A troca constante de passado e presente, mesmo servindo para acentuar esse relacionamento e a vontade paternal-maternal, prolonga uma intenção emocional já estabelecida.

A mãe biológica de Asato é Hiraki (Aju Makita). Sua introdução ao filme é primariamente desconhecida e quase hostil. Kawase então propõe os próximos momentos do filme a apresentar Hiraki. Adolescente, apaixonou-se por um rapaz no ensino fundamental – ficou grávida aos 14 anos -, no qual teve relacionamento sexual que gerou Asato. De uma família conservadora, os problemas de criação são especulados por mãe, pai e irmã, que a convence de doar a criança para o programa de adoção.

Hiraki possui um tempo de cena bem maior que o casal adotante, o que a transforma em um fluxo narrativo, onde corre a abordagem maternal. A cineasta trabalha esse conceito em Mães de Verdade, tentando desloca-lo para além da hereditariedade sanguínea e biológica; o acolhimento da fundadora da instituição, a relação amistosa com outras mães em situações semelhantes, subvida pós-parto como entregadora de jornais.

No entanto, Mães de Verdade possui um exacerbado tempo sobre anexos desse sentimento maternal em ambas mães, o que provoca um desenvolvimento tardio e deslocado do tom ao seu final. Não é necessariamente um sentimentalismo destoante, mas sim uma precária afinação desse impacto emotivo.

Naomi estabeleceu um conjunto de mecanismos narrativos praticamente literais, separado em capítulos individuais que se convergirão em determinado ponto do filme. No entanto, o primeiro contato sobre as duas mães tem um contratempo que interrompe uma conexão entre ambas. Não que a escolha deste suposto egoísmo tenha sido equivocada, mas foi apresentada em uma fase dissonante.

A exploração da ligação maternal se distancia dos elementos de posse e, mesmo em uma decupagem morosa, Mães de Verdade acena simpatia às distâncias temporais e físicas do Japão.

Mães de Verdade foi visto em sessão para jornalistas após coletiva da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme fará parte da programação do festival, que irá de 22 de Outubro a 4 de Novembro.

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