44ª Mostra SP | Crítica: “Nova Ordem”

44ª Mostra SP | Crítica: “Nova Ordem”

Inseridos em uma regra cultural conservadora, temos uma tendência a classificar determinados filmes como “polêmicos” por conta do uso de violência, nudez e outras condutas que desafiam códigos morais da sociedade. O cinema de Michel Franco possui características que se inserem nesse rótulo e Nova Ordem, filme de abertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não passa distante.

Mesmo que esta classificação apenas crie uma interpretação superficial, Nova Ordem se debruça a um modelo distópico da narrativa para assinalar todos os tópicos que o tornam polêmico. Iniciando o filme no casamento de Marianne (Naian Gonzalez Norvind) e Alan (Dario Yazbek Bernal), o espaço mostrando dentro dos planos convida a esse cenário burguês da classe dominante do México. Os convidados vão chegando e os pequenos presentes em formas de quantias gordas de dinheiro provenientes de propina – aqui, o primeiro aspecto político do filme é apresentado – são entregues aos noivos.

Paralelamente, no extracampo da câmera mais pacífica desse primeiro ato, há as sugestões de uma revolta social: comentários em programas de rádio, fortes esquemas de segurança montados na mansão onde celebra-se a festa de casamento, barulhos de sirene ao fundo. Essa revolta começa a ser inserida em forma de paranoia e pela instabilidade recorrente, quando a matriarca da família vai ao banheiro e vê a água da torneira saindo verde – o que mais tarde, será mostrada a cor da tinta usada pelos manifestantes. Devaneio logo que começa a se tornar real.

Os primeiros convidados que passaram por focos de manifestação chegam; um carro lavado pela tinta, uma mulher com o cabelo, pescoço e blusa fina sujos pelo material. Além desse núcleo burguês prestes a eclodir, há a história da internação de uma antiga empregada da casa, enferma e que precisará passar por cirurgia. O marido, que também era um antigo empregado da família, vai até a cerimônia e pede ajuda como um recurso final, para pagar a cirurgia em uma clínica particular. A informação de que o hospital está ocupado por manifestantes feridos continua a sequência desse mundo externo.

Marianne compelida pela situação e pelo desprezo que outros familiares tiveram com esse caso, toma uma iniciativa de ir até a casa dos antigos empregados para levar Elise ao médico, além de pagar pela operação. Aqui, implementa Marianne como a protagonista da obra e por isso, seu afastamento da mansão em meio a festa de seu próprio casamento é importante.

Franco constrói essa crise social neste mesmo espaço burguês de forma gradual, assumindo anexos narrativos que acentuam a desigualdade social (mas sem a crítica mais elaborada) e os inserindo aos poucos para, ao fim do primeiro ato, a mansão ser invadida e tomada pelos manifestantes pobres de origem indígenas, dispostos a saquear e assassinar os burgueses. Isso acumula maior força quando os empregados da mansão (motoristas, seguranças e empregados) também participam do assalto.

Michel finaliza os primeiros 30 minutos de Nova Ordem sem explicitar seu argumento, trabalhando subjetividades e pontuando uma erosão classista. A partir do fim do assalto e com o amanhecer, a história do filme foca definitivamente em Marianne e na jornada em um universo destoante de sua vida. Só que, essa ruptura de realidade não é trabalhada no filme.

A montagem inicia o aspecto distópico do filme ao apresentar um México em ruínas: carros e ruas abandonadas, pessoas executadas nas vias públicas e uma crescente ocupação militar nas ruas – através do Exército -, com o intuito de restaurar ordem e caos. Esse esboço já seria o suficiente para o diretor mexicano inspecionar elementos fascistas na escalada militar, mas cria-se um ponto mais ameno de crítica.

A partir do segundo ato, Nova Ordem se perde em sua proposição enquanto instrumento narrativo, por exemplo, as cenas que mostram o país mexicano arruinado aconteceram só no começo do ato e elas não funcionam isoladamente pois não foram continuadas em outras passagens. Michel decide apostar mais uma vez na semântica polêmica para transpor Marienne a uma série de torturas, retirando da mesma todo senso autônomo que possuía no começo do filme.

E também o argumento do filme se torna alguns outros em muitos momentos, onde esse espaço montado para uma secular corrupção no país não tem uma sequência histórica atribuída. Decisões tomadas enquanto o mesmo se encaminha para o seu final, denotam não só falta de sensibilidade por personagens estabelecidas, como no intuito de mostrar o perpétuo racismo com populações nativas, como também é exibida uma falha em dar consonância a essa mensagem.

Nova Ordem possui um inventário estabelecido de forma interessante, cativa e poderosa em seu início, com um 1º ato instigante justamente pelas lacunas ocupadas pela assimilação subjetiva. No entanto, sua narrativa se deforma e perde-se um senso coerente a até estético, em troca dessa tentativa de ser polêmico.

Nova Ordem faz parte da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que vai de 22 de outubro a 4 de novembro.

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