44ª Mostra SP | Crítica: “Sibéria”

44ª Mostra SP | Crítica: “Sibéria”

Tradicionalmente, discute-se na arte o “cinema de autor”. Como forma de atribuir à narrativa dos longas-metragens, uma assinatura que não só traduza e simbolize o estilo, a técnica e o texto de um diretor, mas também que transporte a persona, o criador para dentro de sua criação. Sibéria, novo filme de Abel Ferrara é um fenômeno deste cunho.

Unindo-se pela sexta vez ao longo de sua vasta carreira cinematográfica com o ator Willem Dafoe, Ferrara monta um meticuloso, sensível e nômade momento de sua própria vida. Clint (Dafoe) é um homem que reside na Sibéria, província russa, famosa por suas temperaturas extremamente gélidas que serviam também como gulag – campos de trabalho para presos – já no Império Russo e depois no governo Stalinista na extinta União Soviética.

Dono de um bar, ele recebe habitantes de várias regiões e nacionalidades. Desde os nativos inuítes (tribo indígena esquimó também nativa do Canadá e Groenlândia), russos, europeus, e etc. Seu balcão é um terminal que transmite barreiras linguísticas e culturais, impondo a Clint a sensação de não-pertencimento, mesmo que o filme sugere que a morada no local seja já longa.

Entre as ações laborais, de encher copos com vodca até assistir apostadores no caça-níquel, Clint soa a figura do peregrino em busca de respostas. Alguém que não está disposto a ganhar e nem a perder, pois qualquer reação que exiba alegria máxima ao desespero deve ser negada, evitando a perda de si mesmo na viagem.

Ferrara então inflama Sibéria com passagens que significam estes medos da personagem principal. Os traumas e os espaços vazios causados pela infância emergem em Clint o medo súbito, o ataque feroz de ursos e dos próprios cães da neve que o transportam nessa viagem lisérgica e compelida. Abel não estabelece limites para a loucura da personagem de Dafoe e para si mesmo. Em uma cena que desafia a compreensão do imaginário e do real, em uma caverna, Sibéria impõe o contato ancestral do homem com si próprio; a figura mais velha, em uma túnica semelhante a um Narciso hostil, responde ao Clint pelo reflexo da poça, as punições de crimes que cometeu. A culpa é a principal sentença e a que o torna humano, ao invés de um mero esboço animal.

Aos poucos, as alucinações que Clint sofre nessa jornada pessoal o comprimem em diferentes espaços, sempre transformados em uma espécie de precipício, a beirada do mundo que jogará o homem na ruína do cosmo. A andança no deserto até a tenda com enfermos e crentes, ouvindo a palavra de um sábio, lendo uma passagem de “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche. Antes, Clint deparou-se com o pai, que já enfrentara antes, rememorando o passatempo que tinham juntos quando criança.

A figura onipresente do pai e o totem de peso em vida lidera a personagem principal a um estímulo indulgente, norteado pela narrativa autoral de Ferrara. Sibéria rumina esses locais, busca pelos desafios à ciência, aos dogmas conservadores encostados na sociedade por uma dominação cristã – as passagens sexuais em que Clint se depara fundem um senso de liberdade, mas também da contínua cruz que o mesmo precisa largar no meio do caminho.

Há uma passagem em Sibéria que transmuta a narrativa em uma imagem fantasmagórica. Não é beleza e deslumbre no desconhecido que são encontrados nessa aurora boreal. Aqui, é um espectro assustador, que tormenta e instiga à morte.

Tampouco preocupado em discutir novos contextos, Abel Ferrara apoia o filme em seu conhecido inventário metafísico; o padre que exorciza outros demônios, mas que não sabe lidar com o seu próprio.

Sibéria faz parte da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que vai de 22 de outubro a 4 de novembro.

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