45ª Mostra de Cinema de SP | Crítica | Má Sorte ou Pornô Acidental

45ª Mostra de Cinema de SP | Crítica | Má Sorte ou Pornô Acidental

Desde que venceu o Berlim de Ouro de 2021, a comédia romena Má Sorte ou Pornô Acidental, de Radu Jude, trouxe consigo uma concepção pandêmica, afinal, a literalidade de ter sido um filme gravado em meio à pandemia só acentuou que o isolamento e as chaves da ansiedade presas nessa falta de espaço seriam o núcleo  narrativo.

Mas Radu Jude versou sobre o confinamento sob sua característica fílmica: escrachar e satirizar um cotidiano afetado. Dividido em três atos, epilogando a fase anedótica logo no começo, temos um vídeo de sexo caseiro envolvendo a professora de história Emi (Katia Pascariu) com seu marido. Dado o confinamento, temos em meio à gravação uma certa convivência indesejada dentro da casa de Emi, onde em meio a um sexo oral, ela ouve gritos de um familiar na parte de fora do quarto fechado onde precisa responder.

Após a explícita cena de sexo entre o casal, Radu projeta a longa caminhada física de Emi por uma Romênia incumbida em traços históricos arruinados – algumas cenas demoradas que filmam pedaços de prédios antigos, abandonados e mal cuidados – em meio a caminhada da protagonista, que para primeiro no mercado para comprar uma planta e depois se dirige a outros locais de comércio. Em uma condução e manipulação imagética, temos um ensaio de um documentário por uma câmera leve que registra não só esse ciclo histórico arruinado, mas também a como os cidadãos romenos estão lidando com a pandemia.

As máscaras mal posicionadas expondo o nariz ou presas ao cotovelo, as conspirações e teorias sobre tratamentos para a Covid-19 e energia caótica de uma população costumeiramente irritadiça são esses pontos de trajetos, até mesmo a própria, que passa a maior parte do tempo com a máscara ao queixo na rua. Má Sorte ou Pornô Acidental tem em sua primeira fase essa estimulação introdutória não só ao azar íntimo de Emi, que descobre que teve o vídeo caseiro de sexo vazado, mas também à interação social conturbada pela pandemia e aos escombros romenos.

No gancho dessa história filmada de Radu que se inicia o segundo e mais politicamente estilizado do cineasta: com o nome que remete a um glossário, vemos em tela uma ordem alfabética de palavras que contam desde a história do País, a indução verborrágica do cinema por uma ótima relação com a história de Perseu e Medusa, a relação da Igreja Católica Ortodoxa com as frentes fascistas e antissemitas do começo do século passado, a concepção política e as relações diplomáticas ou de guerra que a Romênia fez, a relação com o sexo dentro desse próprio meio de pudor inquisidor, mas que inibe a naturalização do próprio ato, da discussão do mesmo e da acessibilidade do discurso. E o discurso é justamente o senso motor desse ato: esclarecer as palavras a partir de leituras via texto que, ou se conflitam em imagem ou se complementam; é observar que o jogo de palavras sucede um jogo de poder, com significados e intenções que se alteram ao longo do curso histórico, pela dominância dos portadores dessa modificação.

Radu consegue encontrar na própria narrativa o objeto que pinça o ato anterior ao próximo, com fez bem do 1º ao 2º ato. Porém, da mudança para o ato final, onde temos o conflito na reunião de pais, abismados e chocados com o vídeo de sexo vazado da professora, que a caricatura dos personagens em questão fica tão intragável a ponto de parecer uma esquete feita por comediantes amadores. Não que o panteão da comédia não esteja abrilhantado pelas situações constrangedoras e pela rodagem de personagens bem caricatos e escrachados, mas o sentido da piada em si fica tão instável que, além de arrastado, o ato final ganha um corpo catártico que não interage com o resto do filme.

Os personagens retratados neste ato final, com a composição de sua conclusão dividida em 3 possibilidades, dão esse escapulo de tendências; o general que glorifica os militares do anexo soviético da Romênia, mas que é o que mais faz piadas sobre pornografia (a risada repetitiva do Pica-pau é de fato o traço mais irritante e forçado de si), o piloto de avião super conservador e machista que não tolera nem a contagem da história antissemita do seu país aos judeus e ciganos aos filhos e nem à quebra de decoro pedagógico; a mulher que traduz a simbiose da “família de bem”, todos emparedando Emi, que até pratica um bom ato de conflitos sobre a moral sexual, a acessibilidade digital e proteção paternal e a intimidade. Mas nem mesmo suas características neutras conseguem balancear o desnível em humor, condução cinematográfica e mise-en-scène.

Má Sorte ou Pornô Acidental quer fazer uma piada sobre a Romênia, sobre a Covid-19, sobre o distanciamento social. Utiliza um típico vídeo que possivelmente seu tio mandaria no grupo da família do WhatsApp para ter uma descontraída concepção da reação diferente sobre a pandemia nas gerações distintas. Mas ao abraçar uma piada, o filme de Radu Jude não sabe como estruturá-la, desestabiliza sua conclusão e fica um clima artificial de vergonha alheia.

Má Sorte ou Pornô Acidental faz parte da programação da 45ª Mostra São Paulo de Cinema Internacional. Acompanhe no Orbe Zero a cobertura do festival.

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