45ª Mostra de Cinema de SP | Crítica | Noite Passada em Soho

45ª Mostra de Cinema de SP | Crítica | Noite Passada em Soho

Não à toa, Edgar Wright sempre montou sob sua carpintaria estética, uma narrativa que precisa circular em volta dela e por ela. Em Noite Passada em Soho,  esse caminho é iluminado pelo lisérgica neon, pelo uso de efeitos para acentuar personagens diferentes no mesmo quadrante, pela trilha sonora e pela moda para contar sobre a Londres dos anos 60 e como a chegada à cidade grande provoca a imediata ruptura da inocência na jornada de jovens mulheres.

Somos introduzidos no começo à Eloise/ou Ellie (Thomasin McKenzie), em uma movimentação artística onde Wright já imprime esse contexto deslumbrante da moda, do cinema e da arte como um todo; ao som de cantoras e artistas dos anos 60, a protagonista desfila em seu quarto sendo encaixada nas cartilhas da ingênua garota interiorana, caseira e familiar. Família, aliás, é um alicerce importante para a narrativa de Ellie, já que pode sentir a presença de sua falecida mãe. Aos poucos, via avó e via Eloise, surge o histórico de doenças mentais na família, sintomas que acometeram o óbito maternal. Nesse aspecto, sentimos não só a motivação da protagonista em partir para a capital Londres a fim de estudar moda, como também visualizamos o tecido contextual que insere Ellie nos acontecimentos posteriores.

Nesse método, Ellie recém chega a Londres e já necessita sair da república da qual havia se mudado; uma colega de quarto insensível, a vida universitária regada à balbúrdia alcoólica e narcótica. Decide então, procurar um trabalho e procurar uma morada. No trabalho, dedica-se ao pub, ponto de encontro historicamente boêmio do lugar e à morada, alugando uma quitinete no andar de cima do prédio da Sra. Collins (Diana Rigg). Já estamos avançados aqui na relação de Elloise à cidade e também, à própria ruptura da segurança física; o motorista de táxi, os colegas de faculdade, emanando a presença do homem assediador.

Nesse acúmulo de solidão e fragilidade, Elloise sonha. Sonha em deixar de estar na atualidade para migrar aos anos 60 londrinos. Ao ensaiar sobre a vida, sobre a ascensão ao estrelato, funde-se à Sandie (Anya Taylor-Joy), uma jovem mulher que busca fitar seus olhos ao mundo e desbravar as casas de show. Nesse encontro imagético, Noite Passada em Soho abre um menu seletivo de referências: às cores predominantes para ditar sensações como Hitchcock, o paralelismo surreal de Lynch e até mesmo uma carta hermenêutica ao terror europeu de Polanski para situar Sandie e Ellie ao hostil e aniquilador mundo de perseguição, exploração de seu corpo e suas vontades via assédio sexual e psicológico. Seja pelo cafetão Jack (Matt Smith) ou pela figura conservadora e moralista de um possível antagonista, ambas não só se comunicam em sonhos, elas também configuram um corpo só, um receptáculo que culmina na cada vez mais invasão de seu espaço.

As figuras dos homens adotam o caráter fantasmagórico, como resquícios históricos do tempo de ambas personagens, memórias que precisam ser extintas ao sentido de que haja uma resolução e um fim à violência de gênero. Noite Passada em Soho em momentos prioriza os seus feitos estéticos; claro que intencionalmente, acenando à mescla de sonhos e realidade, porém, sua manutenção pode soar amenizada ao não saber trazer balanço cômico com a abordagem no campo coletivo. A duplicidade na fuga, a duplicidade na resolução da história de Ellie e Sandie ressaltam essa simbiose e essa troca de ritmos: a queda do glamour e a destruição da ingenuidade, a ascensão catártica do descontrole e da predominância misógina que atravessa os anos 60 e segue até hoje.

Noite Passada em Soho faz parte da programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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