Jack, Virgílio e Lars von Trier no vazio barco de “A Casa Que Jack Construiu”

O cinema de Lars von Trier se aproximou de espirais dicotomias nos últimos anos, por razões que são denúncias de abuso sexual de Björk na época que ambos trabalham em “Dançando no Escuro”, de 2000, e pelo mais recente longa-metragem do cineasta dinamarquês, “A Casa Que Jack Construiu“.

Exibido primeiramente no Festival de Cannes desse ano, após sete anos de banimento do diretor após Lars adotar comentários relativizando as motivações de Adolf Hitler em prol de sua busca superior e aniquilação de outras raças, “A Casa Que Jack Construiu” soa como uma resposta direta a esses ponderamos hiperbólicos. Trier abraça o estigma do “ame ou odeie” e expõe neste suas considerações pessoais.

Todavia, há uma hostilidade proposital nessa narrativa. O filme, antes de exibir as primeiras imagens reais, coloca dois homens conversando, para depois apresentar Jack (Matt Dillon), um homem banalizado nos primeiros minutos; à margem social e estritamente comum. Dessa forma, a primeira interação de Jack é lidar com uma mulher à beira da estrada com um problema de pneu furado. Interpretada por Uma Thurman, ela solicita ajuda e após minutos, Jack decide ajudá-la.

A partir desse ponto, é iniciada uma problemática comum nos filmes de Lars von Trier: a representação narrativa das mulheres em seus filmes e isso é uma consideração praticada desde os tempos do Dogma 95 (movimento cinematográfico criado e rapidamente abandonado por Lars); a personagem de Uma provoca irritação e incômodo no protagonista. Não necessariamente por conta desse suposto nível de introspecção, mas pelos diálogos da mesma, onde um tom cômico desconjuntado inicia.

Jack então, inicia seu contato com as mortes. Descritos pelo mesmo como “incidentes”, os cinco episódios montam duas vertentes: sobre Jack e seu delírio antissocial e as pontuações sociais na troca de diálogo entre Jack e Verge (Bruno Ganz). Arte, moral, humanidade, controle, poder. Usar imagens de Hitler, Stalin e Mao; usar imagens de seus outros filmes. A intenção, com esses efeitos de montagem e roteiro, é idealizar um debate fora do que está preso ao filme.

As primeiras, mais escusas, inconsequentes e sem medições, são substituídas por mortes mais planejadas, elaboradas. Jack propõe o ato de matar como arte. Se categoriza em apelidos. Lars monta a jornada de Jack como se fosse sua e esse é o problema que implica na indulgência e na criação incômoda. As personagens mulheres, assassinadas por ele, são expostas como fúteis, irritantes e burras. Jack é sofisticado; as mulheres simples. O tom superior intelectualmente rompe o protagonista e transborda na figura do diretor.

Os debates começam em um ponto mais complexo e amplo, mas fecham remetendo-se claramente a como Lars enxerga esses conceitos. As ruminações caem em desuso geral, somem, dando lugar a um indulgente e egoísta modelo de auto-avaliação. É inegável que há originalidade no material disposto e proposto, no entanto, a maneira como essa matéria dilui ao longo de 2 horas e meia transforma-se em um incômodo. Proposital, claro. Matt Dillon, em uma ótima atuação, manifesta um personagem minimamente curioso e evolutivo.

Mas, é desfigurado quando ele se torna Lars. É importante denotar que todo debate criado pelo cinema é válido. No entanto, a maneira como é instigado pode ser útil para a arte ou somente para uma viagem ególatra. “A Casa Que Jack Construiu” flui mais pelo segundo do que pelo primeiro. Outros instrumentos usados não só para trilhar Jack em sua derrocada e emancipação na arte de assassinar em série são referências culturais e artísticas. Substancialmente, é válido para Jack e para Lars.

As diversas vezes que “Fame”, canção marcante de David Bowie acopla na figura polêmica do diretor, se torna uma fuga do centro do roteiro. Jack trocando de cartazes com temas para homenagear a – desconstrução do Blues-  de Bob Dylan em “Subterranean Homesick Blues”, e a mais explícita e já anteriormente utilizada em Ninfomaníaca, a estrutura de diálogo em “A Divina Comédia”, obra do escritor Dante Alighieri, que narra a descida de Dante aos sete círculos do inferno, seu julgamento e ascensão ao paraíso; acompanhado pelo guia espiritual e físico Virgílio.

Há outras intersecções artísticas durante as conversas de Jack e Verge; obras e conceitos filosóficos de William Blake; telas cubistas na alusão à arquitetura e engenharia do assassinato e seus corpos; as intenções históricas de dominação e poder através da caça. Todas inseridas dentro de um ensaio pedante e insípido.

Lars prospecta claramente mais polarizações acerca de sua personalidade e assim, refletindo diretamente nas obras. “A Casa Que Jack Construiu” é inegavelmente um filme de von Trier.