“Bacurau” é resistência em tempos de intolerância

Se tem uma coisa de que a industria cinematográfica  brasileira tem do que se orgulhar é de sua diversidade. Para ilustrar esse cenário, temos “Bacurau“, novo filme da dupla pernambucana Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Valorizando a raízes nordestinas, acompanhamos aqui a intensa saga de um povo que atua como resistência perante as mazelas de uma sociedade intolerante e má. 

Intitulado com o nome da própria produção, Bacurau é um povoado do sertão de Pernambuco, que desaparece misteriosamente do Google Maps. Em “alguns anos no futuro” nos deparamos com Teresa (Barbara Colen) retornando ao vilarejo para o funeral de sua avó. Após isso, descobrimos que a população da cidade tem uma rixa com o atual prefeito da região, mas ele tenta apaziguar a relação entre ambos com presentes. Incapaz de criar esse elo com os habitantes com suas visitas, uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer.  

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles nos bastidores
Os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles nos bastidores de “Bacurau”

Apesar da personagem de Colen ser o ponto de partida para a introdução da história, “Bacurau” não possui protagonistas. Mendonça Filho e Dornelles tomam a decisão de que todos os habitantes são protagonistas, decisão bem acertada pela dupla, já que como comunidade começam a reagir juntos aos ataques sofridos na região.

Com o elenco empenhado em transmitir a visão dos cineastas, não há uma interpretação que danifique o projeto. Mesmo sabendo que seu costume de trabalhar com atores não profissionais poderia por a produção em risco, Kleber mais uma vez não abriu mão disto – dando mais veracidade a história contada. Porém, nomes conhecidos não passaram desapercebidos em sua nova projeção, como o de Sônia Braga, que vive a Dr. Domingas, Silvero Pereira como o criminoso Lunga e o de Udo Kier que dá vida ao principal antagonista. 

Esteticamente “Bacurau” não deixa de ser o que Kleber Mendonça Filho implementou em “Aquarius” e “Som ao Redor” com a ajuda de Dornelles como design de produção. As transições de cena, os movimentos da câmera e a técnica em deixar tanto o primeiro quanto o segundo plano  focalizados estão presentes aqui. Algumas dessas especifidades de direção de Kleber se encaixam melhores aqui do que em “Aquarius” por exemplo. 

Entrando nesse comparativo entre “Aquarius” e “Bacurau“, um quesito que o primeiro se sobressai do segundo é em trilha sonora. Entretanto vale dizer que o filme ainda sim reproduz cenas icônicas neste sentido, como a engraçadíssima sequencia do conhecido seresteiro da região e a surpreendente execução da faixa “Night” de John Carpenter – introduzida  como plano de fundo de uma roda de capoeira. Além disso, esse longa metragem carrega uma composição de cores vibrante que fortalecem o clima de sertão aonde a narrativa é habituada.

Descrever cenas e roteiro do filme aqui seria estragar a experiência do próximo, mas algo que pode ser descrito aqui é a atitude da dupla de cineastas de incomodar e pôr o dedo na ferida. Filho e Dornelles não dão as costas para as polêmicas que estão assolando o Brasil neste momento. Isso fica claro quando eles preservam o museu da cidade do filme e colocam a escola para proteger as crianças de tiros. Destaque para a cena onde a entrega de livros é realizada como se fosse lixo – uma das criticas mais fortes e duras feitas aqui.

Este é, sem duvidas, o trabalho mais político de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles feito até agora. Uma resposta necessária ao presente boicote que o país sofre em suas bases da cultura e educação. Com uma combinação única e bem executada de gêneros, “Bacurau” é bravo, que nem o pássaro, e não foge da sua realidade. 


Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.

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