“Casa Gucci”, de Ridley Scott é um conto de traição no universo da moda que possui excessos dispensáveis

“Casa Gucci”, de Ridley Scott é um conto de traição no universo da moda que possui excessos dispensáveis

O universo da moda chama atenção até para alguém que não está introduzido nesse mundo. Existem inúmeras grifes famosas mundialmente que renderiam bons projetos cinematográficos, algumas delas possuem esses projetos como a Coco Chanel com o longa “Coco Antes de Chanel” (2009) e Yves Saint Laurent que possui duas projeções dedicadas ao estilista francês (ambos de 2014). Pelo o visto Ridley Scott realizou o sonho dos aficionados por moda e decidiu trazer a tona o famoso caso que assombrou uma família italiana, fundadora de uma das marcas mais famosas do mundo, Gucci . “Casa Gucci“, do cineasta britânico é chamativo como as roupas e assessórios da marca que inspira a produção, comete seus exageros e se agarra a suas estrelas para ficar em evidência.

“Casa Gucci” está longe de ser sobre a fundação da marca, é impossível falar da Gucci e não citar o escândalo que Maurizio Gucci (Adam Driver) viveu por conta da sua amada Patrizia Reggiani (Lady Gaga). Paixão, traição, desequilíbrio emocional e bastante gesticulação italiana fazem parte do relato da união do jovem casal italiano que residem em Milão. Na verdade, a produção promete ser o verdadeiro relato de como Patrizia planejou matar seu marido, entretanto esse enredo que parece ser interessante tem que dividir tempo com outros conflitos familiares e disputas de negócios.

O filme de Scott começa exibindo a elegância de Maurizio quase em câmera lenta acompanhada de uma narração de Patrizia/Gaga logo nos primeiros minutos para exibir o sotaque italiano que a atriz adquiriu, partindo desse ponto acredita-se que a trama irá girar em torno dela, logo em seguida a conhecemos pela primeira vez. Ela é atraente, provocativa e determinada, tão determinada que é capaz de nos fazer acreditar que ela gosta mais de Maurizio do que seu sobrenome. Aqui vemos o nascer de um relacionamento entre um jovem tímido com uma mulher ambiciosa, no qual só alguém experiente, como Rodolfo Gucci (Jeremy Irons), é capaz de notar a personalidade da mulher que cerca seu filho.

Posso descrever que por mais que seja ambiciosa, Patrizia quando não passava apenas de uma namorada não demostrava interesse na fortuna da família que ela estava entrando, isso ocorre quando ela se casa e percebe que Maurizio é desinteressado nos negócios da família. Enquanto ela se introduz ainda mais ao lado comercial do império da Gucci, sua sede por dinheiro e poder fica mais aflorado quando passa frequentar Pina, uma vidente vivida por Salma Hayek que é introduzida na trama de maneira desajustada.

Por “Casa Gucci” ser um filme que possui a Lady Gaga como protagonista, evidentemente que todas as atenções e curiosidades seriam voltadas para ela e para seu desempenho como figura principal de uma produção de Ridley Scott. Existem saltos no tempo do longa-metragem e a cada pulo notamos que Gaga consegue adicionar algo a mais em sua performance, Patrizia possui diversos tons, ela vai de adolescente ambiciosa para uma mulher madura que em alguns momentos mostra raiva, sensualidade e euforia. Sim, existe um momento que Gaga vive uma jovem adulta em torno dos seus 20 a 25 anos e apresenta-se uma falta de coerência, quando presenciamos a estrela principal no auge da sua juventude, fica bastante perceptível que estamos diante de uma mulher madura na casa dos seus 30 anos, isso também serve para o personagem do Adam Driver. Além do mais, também é possível notar uma sexualização no corpo da atriz, é comum ver ela de roupa intima ou até mesmo despida, mesmo que não mostre nada.

Referente ao restante do elenco, todos fazem suas funções, por vezes os estilos divergem no decorrer das trocas de diálogos. Jeremy Irons nem se incomoda em tentar disfarçar seu sotaque inglês. Além de Driver e Gaga, quem se mostra envolvido com a produção é Jared Leto (Paolo Gucci), como já sabemos os tipos de personagens que Leto costuma pegar, vale dizer que ele se encachou perfeitamente como Paolo, que é levado como chacota pelos outros membros da família, barrigudo e careca ele tenta provar sua competência pela luta de poder entre ele, Maurizio, e seus respectivos pais. Vale lembrar que Al Pacino também está presente como Aldo Gucci, mas despensa comentários sobre sua participação, como sempre Pacino está impecável.

O roteiro de Becky Johnston e Roberto Bentivegna divide o longa-metragem em duas tramas, a principal que gira em torno da protagonista e a trama que infla a produção em quase três horas de duração, que fala sobre os bastidores da grife. Para usar um termo mais popular, temos cobra comendo cobra para comandar a marca, e por incrível que pareça Patrizia acaba ficando para trás nessa disputa, tanto que ela perde tempo de tela e o filme passa a ser sobre essa burocracia empresarial do que os desentendimentos amorosos que ela teve com Maurizio para mostrar os motivos que a fez tomar determinadas atitudes. Além disso, temos a palheta de cores fotografia de Dariusz Wolski bem turva, que horas está cinzenta e por vezes se transforma em preto e branco para dar uma sensação de registro histórico através de reportagens.

Particularmente falando, “Casa Gucci” é decepcionante. Sabendo que cinema é sobre o filme que o cineasta deseja fazer e não sobre o que nós espectadores queremos assistir, entrando nesse mérito se essa película fosse sobre a história de um assassinato ele seria mais interessante do quê é. Apesar de ser divertido em alguns momentos, é difícil acreditar que Ridley Scott desperdiçou o potencial de ter uma estrela como Lady Gaga mais entregue, ter ela de corpo e alma e sotaque italiano é pouco, mas ela ainda serve para atrair público. Vejo que Scott desenvolve mais os casos de conflito da família Gucci do quê mesmo a revolta de Patrizia que acaba ficando em segundo plano, mas no final o filme tem que ser finalizado abordando esse assunto, já que o longa se comprometeu contar essa história.

Sendo mais direto, “Casa Gucci” de Ridley Scott tem excessos desnecessários, enquanto em “Todo o Dinheiro do Mundo” (2017), do próprio diretor possui uma trama amarrada e focada em apenas desenvolver uma única história, aqui Scott tenta ser mais ousado no momento que deveria ser contido, já que raramente ele vem tendo uma estabilidade nos trabalhos que vem entregando.

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