“Um Espião Animal” diverte seu público com simplicidade

Se fossemos descrever em uma frase o novo filme da Blue Sky Studios, “Um Espião Animal“, dirigido pela dupla estreante Troy Quane e Nick Bruno seria simples: Uma animação que conta a história do melhor espião do mundo que se transforma em pombo e que agora deve salvar o mundo como um pássaro. Simples, não é mesmo? Sinda mais para um estúdio que produziu uma franquia sólida como “A Era do Gelo“. Apesar da descrição rápida, esse novo projeto do estúdio possui suas virtudes e pode ser bem aproveitada pelo seu público-alvo.

O superespião Lance Sterling (Will Smith) e o cientista Walter Beckett (Tom Holland) são completamente opostos. Quando algo inusitado acontece, Walter e Lance precisam confiar um no outro de um jeito completamente diferente. Em sua próxima missão, Sterling precisará da assistência do jovem cientista, que desenvolveu uma maneira do espião se aproximar de seu alvo sem ser percebido, assumindo o corpo de um pombo. Como pássaro, Sterling pode falar e ainda possui todo o seu conhecimento e mais! Adquirindo todos os benefícios que um pombo tem, como voar e uma visão de 360 graus.

Um Espião Animal” inicia de forma bem básica, apresentando os dois personagens, Walter Beckett na infância como um garoto super inteligente criando dispositivos de defesa para sua mãe que é policial e Lance Sterling,  mandando a ver em uma missão no Japão. Depois disso, os créditos iniciais surgem emulando uma abertura icônica como se fosse qualquer outro filme da franquia 007. Algo que nos deixa bem esperançosos para os próximos minutos que estão por vim. 

Falando em James Bond, talvez Will Smith nunca terá a chance de interpretar esse papel, mas aqui ele desempenha sua melhor versão de Bond, ainda mais oferecendo suas características físicas a animação. Impossível olhar para Sterling e dizer que ele não se parece com o astro do cinema. Já Holland dá vida ao que seria um Peter Parker sem poderes de aranha e se focando apenas na ciência. Porém, tudo isso é ofuscado na versão dublada de “Um Espião Animal“.

Um dos pontos mais decepcionante do filme talvez seja a dublagem por parte do personagem principal, não por Lázaro Ramos desempenhar um mal trabalho, mas sim por estarmos acostumados com nomes de dubladores como Marcio Simões, Manolo Rey e Marco Ribeiro tomarem conta das vozes de alguns personagens feito por Will Smith. Porém, parece que Ramos está querendo entrar nesse ramo da dublagem, já que recentemente ele ficou encarregado de oferecer sua voz ao personagem-título de “O Grinch“, e óbvio, também houveram críticas do público como nesse longa-metragem.

Troy Quane e Nick Bruno oferecem uma direção genérica. “Um Espião Animal” caminha na mesmice de trazer um drama familiar vindo do passado, sinaliza que todo inteligente é esquisito e que o protagonista do longa é egoísta ao ponto de recusar trabalho em equipe. Porém, no decorrer da trama, o roteiro de Brad Copeland consegue reverter tudo isso. Sterling consegue criar uma química entre ele e Beckett e finalmente entrega ao cientista uma amizade verdadeira. Algo peculiar são as armas que Beckett desenvolve. Elas são eficazes, mas nada violentas. Isso soa bastante critico em tempos que armas de fogo são discutidas em relação a salvar vidas ou matar vidas.

A motivação do vilão,  Tristan McFord (com a voz de Ben Mendelsohn na versão original) não pode ser considerada como motivação, já que quando ele revela o motivo de todo o mal que está criando seja por conta de uma missão do passado que o protagonista  participou e resultou na perda dos parceiros de McFord. Não existe uma cena que concretize essa tal missão, ela fica apenas na citação, no entanto, a motivação do vilão não traz importância nenhuma, já que não sabemos bem o que aconteceu. Para o espectador, toda a maldade do antagonista se resume ao simples fato dele ser uma má pessoa.

Um Espião Animal” está bem longe de ser um animação marcante e que crie uma leva de fãs. Ela tem uma boa gama de piadas, boas cenas de ação e personagens carismáticos, mas dificilmente alguma criança trate o longa-metragem de Troy Quane e Nick Bruno como algo que marque sua infância. Sem dúvidas, os 102 minutos vão divertir os pequenos, mas após isso, eles já vão estar preparados para uma e qualquer próxima animação.


“Ameaça Profunda” de William Eubank oferece tensão e suspense em nova trama

Projetos engavetados sempre podem ser considerados como um ponto de interrogação imenso. Existem filmes que estão na geladeira que temos a curiosidade de assistir e tem outros que nem deveriam sair de lá, mas acabam saindo sem entendermos o motivo. “Ameaça Profunda“, dirigido por William Eubank está no meio termo. O filme se libertou e veio a público com Kristen Stewart como protagonista, no momento em que a atriz vive uma das melhores fases de sua carreira. 

Depois que um terremoto destrói a estação subaquática, seis pesquisadores precisam se deslocar três quilômetros ao longo das profundezas do fundo do oceano para garantir sua segurança. A equipe é composta por Norah Price (Stewart), o capitão (Vincent Cassel), Paul (T.J. Miller), um casal vivido por Jessica Henwick e John Gallagher Jr. e Rodrigo (Mamoudou Athie). 

O diretor não economiza quando o assunto é criar tensão. Nos minutos iniciais de sua película, vemos Norah tendo um momento reflexivo através de uma narração enquanto escova os dentes. Logo em seguida, tudo desmorona em sua cabeça. A principio tudo explodindo na tela  logo no começo do filme pode causar estranheza, mas vejo como uma boa alternativa para se iniciar uma catástrofe.  Nunca sabemos quando algo do tipo vai acontecer, e ele apenas acontece. Com isso, algo que Eubank nos poupa é a apresentação de personagem. As características e as personalidades deles vamos descobrindo no desenrolar da projeção, mas a motivação de todos é única, sobreviver. 

Até um determinado momento, “Ameaça Profunda” pode ser considerado como um projeto ambicioso e interessante.  Enquanto o filme está em um ambiente interno, ele é bem filmado, tendo movimentos de câmera bem estilosos no qual cortes são evitados, mas em determinado momento, sua edição o danifica, parecendo que a trama dá um pequeno salto no tempo, onde dá a sensação que as cenas foram avançadas por um controle remoto. Sua trama se manteria em alto nível se ela continuasse com sua primeira proposta, que era fazer o  grupo conseguir sair dos escombros da base até uma superfície segura. Toda essa luta de sobrevivência é bem implementada, vemos os personagens passando por lugares apertados e mergulhando em encanações e tudo isso é filmado de maneira que cause uma reação claustrofóbica em quem está assistindo. 

Ameaça Profunda” começa perder forças narrativa quando Norah e o restante dos pesquisadores colocam o plano de sobrevivência em ação. Para isso, é preciso que eles caminhem pelas águas profundas. Isso faz com que o filme enfraqueça. Na locomoção, eles acabam descobrindo uma nova espécie marinha, no qual não é nada inofensiva e identificável, já que a fotografia escura de Bojan Bazelli não permite enxergarmos nada do que está acontecendo. É nesse aspecto que o filme tenta se assemelhar aos longas “O Enigma do Horizonte“, “DeepStar Six” e até mesmo  a franquia “Alien“, mas não chega nem perto do que essas obras representam. 

Falando em Alien, uma das principais razões para ver “Ameaça Profunda” é Stewart fazendo um papel semelhante e com muitas referências a personagem de Ellen Ripley. Exemplo disso, seria a cena de roupa intima similar com a de Sigourney Weaver, em o “Oitavo Passageiro“. Acompanhado disso, temos Cassel sendo brilhante como de costume e T.J. Miller fazendo o seu mesmo trabalho de forçar piadas em momentos para quebrar o suspense. 

Definitivamente, o filme de William Eubank consegue oferecer uma parcela de tensão com a metade dos seus 95 minutos, no entanto, ele acaba sendo um longa-metragem no qual o espectador vá ter interesse de assistir uma única vez e nunca mais querer revisitar, para um começo de ano sem muitas opções de blockbusters em cartaz, “Ameaça Profunda” se credencia como uma boa alternativa por ter uma trama misteriosa partindo do gênero de horror.


Greta Gerwig renova brilhantemente o clássico “Adoráveis Mulheres”

Se tratando de títulos considerados clássicos, sou tradicionalista em dizer que obras que carregam essas responsabilidades são intocáveis. Suas versões originais devem caminhar durante épocas para que todas as gerações entendam o porquê  de determinada obra carregar essa honraria de clássico. No entanto, “Adoráveis Mulheres” é considerado importante na literatura americana, e lógico que os cineastas não iriam perder tempo de adaptar o romance escrito por Louisa May Alcott. Depois de assistir a versão idealizada por Greta Gerwig, devo dizer que qualquer clássico pode ganhar um releitura, desde de que bem dirigido.

A versão mais recente de “Adoráveis Mulheres” não descaracteriza o que a obra literária propõe. Com personagens marcantes somado com um elenco de peso, temos a doméstica Meg (Emma Watson); a independente escritora Jo (Saoirse Ronan); a apaixonada por música Beth (Eliza Scanlen) e a ambiciosa Amy (Florence Pugh). As quatro irmãs e protagonistas, transmitem as dificuldades e as lutas que todas mulheres compartilham durante o dia a dia. Todas possuem seus sonhos, tem medo de viver, porém, não deixam de batalhar. Elas são criadas por sua mãe Marmee (Laura Dern) e o pai capelão que se encontra na guerra (Bob Odenkirk).

Entre as quatro irmãs, Jo é a que transborda o sentimento de liberdade que toda mulher deseja ter. Ela quer ser autônoma, enquanto suas irmãs passam por diferentes caminhos. Meg sonha se casar e ter uma família, Beth pode ser considerada a mais inofensível e ingênua de todas, e Amy.. bem, Amy é uma incógnita. Os homens também estão presentes. O professor John Brooke (James Norton), o vizinho rico, Sr. Laurence (Chris Cooper), e seu neto Thetodore Laurence (Timothée Chalamet), que tem interesse por Jo.

Devo dizer que cada característica das personagens, são entregues divinamente bem. Pugh consegue fazer um Amy que cria intrigas hilárias. Watson, mesmo sendo jovem consegue transmitir o semblante de uma irmã mais velha. Já Scanlen, tem uma personagem sem tantas exigências, no qual as vezes passa desapercebida em alguns momentos, mas se tratando da timidez de Beth, isso pode ser considerado algo bom na atuação da jovem atriz. Gerwig nos fez o favor de juntar as duas estrelas do seu primeiro longa, “Lady Bird“. Chalamet consegue fazer que seu personagem seja atraente, atrapalhado e por determinadas vezes, tolo. Já Ronan, bem ela é a melhor coisa que tem na projeção. “O longa é dela”, e ela transparece todas as emoções que sua personagem possui, sendo assim uma verdadeira inspiração.

O única ponto que pode ser dito da trama, é de que Jo é a representação ideal para toda mulher que almeja a independência. Em determinado ponto do longa-metragem, a escritora discute sobre possuir o direito autoral sobre seu próprio livro. Isso requer estabilidade financeira. Ao conseguir, ela poderá “provar” para sua Tia March (Meryl Streep), vitima de uma sociedade machista, que mulher tem outros meios de conseguir uma dependência econômica além do casamento ou administrar um bordel. Acho que isso mostra o quão forte o discurso em favor das mulheres se encontra  presente no roteiro do filme escrito pela própria cineasta.

Greta Gerwig decide não seguir uma estrutura linear em sua direção. A todo tempo vemos a história se alternando entre presente e passado, onde nos mostra determinados acontecimento na vida das irmãs. O passado é agradante, alegre, colorido e divertido, diferente do presente, simbolizado por cores mais pesadas, onde a tristeza prevalece em alguns momentos. Isso tudo fica claro graças ao diretor de fotografia Yorick Le Saux. Sem falar que o figurino costurado por Jacqueline Durran é outra coisa que favorece a película.

É de ficar de queixo caído com a ascensão de Gerwig como diretora. Em 2017 ela estreia com um projeto jovial e contemporâneo, e agora nos vem com um remake de época, com uma linguagem altamente presente aos dias atuais. Isso mostra que o leque de direção dela é imenso e que tem muito a nos oferecer. Vale lembrar que “Adoráveis Mulheres” é apenas o segundo trabalho da cineasta americana nascida na Califórnia. Com uma carreira de atriz bem estabilizada, Greta trabalhou com nomes como o de Baumbach, Mills, Larraín e Anderson. Fica evidente determinadas influências em sua direção. Quando nos minutos iniciais do filme, Jo começa a correr pela rua, fica clara a homenagem ao queridinho “Frances Ha”.

Essa versão mais recente de “Adoráveis Mulheres“, por Greta Gerwig transmite perfeitamente os laços entre irmãs. Além disso expressa através de Jo que toda mulher pode correr atrás dos seus sonhos, seja qual ele for. O filme é moderno, ambicioso e capaz de fazer qualquer um chorar. Todo remake deveria ser como esse. Corajoso, bem dirigido e trazer uma mensagem positiva para uma nova geração. Nesse caso, a mensagem aqui está embutida na obra e na artista, que também pode servir de inspirações para cineastas mulheres. Ainda bem que a carreira de Gerwig como diretora de cinema está apenas começando.


Clint Eastwood conduz com simplicidade e patriotismo de praxe “O Caso Richard Jewell”

O americano é conhecido mundialmente pelo patriotismo que sente pelo o seu país. No cinema, os filmes hollywoodianos não esquecem desse orgulho que possuem pela a própria pátria e sempre dão um jeito de expor esse sentimento. Talvez, ou com absoluta certeza, Clint Eastwood seja o cineasta perfeito para transmitir tal orgulho pela bandeira estadunidense, e é claro que não seria diferente com o seu novo projeto, “O Caso Richard Jewell“.

Richard Jewell (Paul Walter Hauser) é um segurança americano que salva heroicamente inúmeras vidas de uma bomba que explodiu nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta. Logo em seguida ele é tratado como um herói americano e um exemplo para sociedade, mas quando ele menos esperava, todo esse orgulho se volta contra si no momento que a mídia e o FBI acabam o colocando como suspeito de ser o terrorista que armou os explosivos.

O perfil de Richard Jewell é moldado a todo tempo no filme. Seja no começo, meio e fim. Nos minutos iniciais, o personagem principal é apresentado trabalhando em um escritório de advocacia, fazendo de tudo para agradar o advogado Watson Bryant (Sam Rockwell) e provar seu valor. O comportamento do protagonista chega a ser estranho, mas Bryant parece não se incomodar. Passado o tempo, Jewell vira vigilante em um campus de uma universidade, onde sua conduta não é exemplar. Desde então, o que restou para Richard foi trabalhar na equipe de seguranças para os jogos.

Clint Eastwood modela o seu filme a partir desses pontos da personalidade do personagem principal para quê então consiga criar duvidas em quem está assistindo ao seu filme e se perguntar: será que realmente não foi ele? Porém, só existe um momento que esse julgamento aparece, exatamente onde há um quadro que captura as pernas de quem abandona a bolsa de explosivo no local. Logo em seguida todo esse momento de incerteza com a possibilidade de Jewell ser o principal suspeito para quem assiste é desmoronada, já que a cena a seguir mostra o protagonista entrando em ação para avisar que existe uma ameça de bomba no local.

Eastwood e os escritores Billy Ray e Marie Brenner são pragmáticos ao contar essa história. Notamos a simplicidade do roteiro com o avançar da trama, já que ela não oferece uma nova perspectiva para o caso. O que vemos é um fato verídico sendo encenado por atores. Mas isso não quer dizer que o longa-metragem não confronte determinados temas. Como jornalista, digo que essa produção pode servir para ser passada em salas de aula e mostrar como a imprensa não deve se comportar diante de alguns ou de todos casos que ela tem interesse em cobrir. Isso é bem representado por Olivia Wild, que interpreta Kathy Scruggs, repórter de um jornal local de Atlanta  que foi encarregada de dar o furo de reportagem revelando que Richard Jewell era o principal investigado do atentado e então tornando a vida dele um verdadeiro caos.

Outro fator interessante também debatido aqui é o patriotismo estampado em Richard, sendo uma pessoa que almeja e admira o serviço militar em geral, Jewell vê que o sistema quer ferrar com ele a qualquer custo, e por pura inocência e ingenuidade, o vigilante acaba cooperando com a investigação em determinados momentos. Para não ser julgado de vez como culpado, o laço criado com Watson Bryant no passado serve para Richard enfrentar judicialmente os policiais que querem colocar ele atrás das grades. A irresponsabilidade da investigação é escancarada, já que quem está encarregado de toda operação só vê Jewell como culpado por ele está acima do peso, morar com sua mãe e ter maus comportamentos em seu passado. Segundo os investigadores, esse é o perfil ideal para ser um terrorista que atua sem a ajuda de alguém. 

Clint Eastwood mostra que seu atual processo criativo se resume em simplicidade. As duas horas de “O Caso Richard Jewell” acabam provando que o diretor foge de qualquer tipo de complexidade e toda história que ele decide contar caminha passo a passo. Assim como “A Mula” (2018), a montagem do longa obriga que a historia siga uma linearidade, onde nesse caso possa até enfraquecer o roteiro, porém, ajuda bastante em projeções baseadas em acontecimentos reais.

Acredito que esse trabalho de Eastwood não tenha forças para ser lembrado nas principais premiações já que a projeção está sendo lançada em um período onde os estúdios visam exibir o que tem de melhor para ser indicado em algo. Mas como filme biográfico, “O Caso Richard Jewell“, faz com que o cineasta mantenha um sucesso relativo quando o assunto é dirigir.


“História de um Casamento”: O retrato doloroso de um divórcio

O matrimônio pode ser considerado como um dos acontecimentos mais marcantes da vida de uma pessoa. Porém, infelizmente nem todo casório é reflexo de final feliz. Em determinadas situações, o casamento traz o maior desafeto que alguém possa ter em vida. Noah Baumbach decide trazer isso atona em “História de um Casamento“, seu mais novo projeto, onde o cineasta mostra a separação entre um casal da forma mais dolorosa possível. 

Nicole (Scarlett Johansson) e seu marido Charlie (Adam Driver) estão passando por muitos problemas pessoais e decidem se divorciar. Os dois concordam em não contratar advogados para tratar do divórcio, mas Nicole muda de ideia após receber a indicação de Nora Fanshaw (Laura Dern), especialista no assunto. Surpreso com a decisão da agora ex-esposa, Charlie precisa encontrar um advogado para tratar da custódia do filho deles, o pequeno Henry (Azhy Robertson).

O filme de Baumbach começa com a narração de Charlie e Nicole, um de cada vez, descrevendo o quão é bom ser parceiro um do outro. Toda essa descrição é guiada por imagens que causam uma empatia pelo o casal, onde nos faz questionar como uma família tão perfeita como essa que estamos conhecendo vai desmoronar. Logo em seguida vem o primeiro choque que a projeção causa em quem está assistindo. Depois das belas cenas de família, tudo que foi dito faz parte de um exercício de uma terapia de casal, onde os dois estão sentados diante a um psicólogo pedindo para que eles leem em voz alta o que um escreveu sobre o outro. Por se sentir mais seguro, Charlie diz que quer ler, mas Nicole não se sente confortável para ler o texto dela. 

Exatamente dessa maneira que inicia “História de um Casamento“,  Baumbach nos permitindo saber o que Charlie e Nicole pensam sobre eles, mas como todo casal, ele não sabe o que está passando pela cabeça dela e muito menos ela sabe o que está passando na cabeça dele. Um reflexo perfeito de muitos relacionamentos, o cineasta consegue capturar tantos elementos de uma relação em colapso que chega a ser impossível não se identificar em determinados momentos.

Apesar de ser um drama carregado, o longa-metragem é uma verdadeira história de amor que possui bastante generosidade, que se esforça para honrar um relacionamento, uma família e até mesmo uma tragédia pessoal, já que Noah Baumbach sentiu os mesmos acontecimentos na própria pele ao se divorciar da atriz Jennifer Jason Leigh. A quem diga que esse projeto seja baseado na separação do diretor, mudando apenas alguns detalhes. Em sua direção, Noah deixa bem claro que alguns ou todos os seus costumes continuam presentes. Como os cômodos bem aconchegantes, figurinos alinhados e acima de tudo, ele traz de volta o musical a uma projeção sua com uma cena bastante memorável de Driver cantando “Being Alive”, de Stephen Sondheim.

Particularmente falando, em um rápido exercício de memória, não consigo me recordar de algum filme que eu tenha assistido recentemente onde o final esteja tão ligado com o seu começo. 

Nem tudo é dor e sofrimento na película, aqui encontramos a combinação perfeita de humor, humanidade e claro, angústia. Isso tudo para criar um retrato bem realista do divórcio. No final das contas, todo esse mix consegue ser convincente. No meio disso tudo, ainda existe um filho que está cara a cara com os pais se bombardeando de alguma forma e lutando por sua guarda. Imagino o quão doloroso possa ser, graças à essa projeção, que apesar disso tudo, também consegue ter seus momentos de alívio cômico – acredite ou não.

Contando em seu elenco com nomes como o de Merritt Wever, Julie Hagerty, Wallace Shawn e entre outros e tendo a sorte de todos desempenharem um bom trabalho, o destaque principal não poderia ser outro, Driver e Johansson. Ambos possuem tempo de tela semelhante onde permite-se que cada um desempenhe sua função em relação a carga dramática do filme. Mas nesse caso, para Scarlett Johansson fica evidente que grandes blockbusters resultam em dinheiro e fama, porém, “História de um Casamento” nos fez lembrar que aquela atriz de “Encontros e Desencontros” e “Ghost World – Aprendendo a Viver” não pulou de um penhasco de um longa da Marvel. Já Driver vive um momento diferente, talvez, atualmente ele seja o ator que mais saiba escolher seus trabalhos na industria cinematográfica. O 2019 dele é repleto de diversidade nos gêneros como o drama político “O Relatório“, de Scott Z. Burns; o fechamento da trilogia “Star Wars: Episódio IX“, com direção de J. J. Abrams e o decepcionante “Os Mortos Não Morrem“, de Jim Jarmusch.

História de um Casamento” se tornou o meu favorito de Baumbach, posso afirmar que esse é o melhor projeito dirigido por ele até o momento, justamente por ser um tributo comovente ao desmoronamento de uma relação conjugal. Graças a sua separação, Noah pode olhar para trás e dizer que sua história de divórcio o rendeu um excelente material para objetificar em trabalho. Não tenho e espero nunca ter uma experiência com separação matrimonial, mas esse filme consegue transformar a própria história pessoal em algo universal e comover quem está o digerindo. Não seria esse o objetivo do cinema e da arte em geral?


Sem muitas novidades, “Crime Sem Saída” é uma surpresa agradável no ano para o gênero de ação

Chegamos em dezembro, época ideal para apontarmos e dizermos quais foram as produções que responderam bem as expectativas criadas em cima delas, quais foram as decepções e principalmente as surpresas que esse ano nos ofereceu. Dentro dessa última categoria, podemos considerar que “Crime Sem Saída“, dirigido por Brian Kirk e produzido por Anthony e Joe Russo é uma surpresa agradável! Não chega a ser o presente de natal desejado, mas um presente adorável que vai oferecer ação na medida certa.

Em “Crime Sem Saída“, Andre Davis (Chadwick Boseman) é um detetive que não vive um bom momento profissional por conta da sua conduta. Quando ele é acionado para capturar dois criminosos por toda a cidade de Nova York após eles assassinarem alguns tiras depois de um roubo mal sucedido, Davis vai descobrindo uma conspiração por trás desse caso no desenrolar da investigação. Quando a busca se intensifica, medidas extremas são tomadas para impedir que os assassinos escapem de Manhattan, pois as autoridades fecham todas as 21 pontes para impedir qualquer entrada ou saída da icônica ilha.

Com a direção dos irmãos Russos, obviamente que “Crime Sem Saída” ganharia mais atenção do público, justamente pelo o longa simbolizar  o mundo pós-Marvel depois de seu feito no grandioso “Vingadores: Ultimato“. Mas eles decidiram trabalhar apenas nos bastidores e deixar o primeiro filme da produtora deles, AGBO, nas mãos de Brian Kirk. O cineasta irlandês até tentou se desvencilhar de alguns estereótipos de filmes de policiais. Conseguiu em alguns fatores, mas seu filme acaba se tornando previsível quando o roteiro de Adam Mervis Matthew e Michael Carnahan começa a apontar uma conspiração na trama. 

O filme de Kirk mergulha na mesmice do personagem principal ser o melhor em tudo no que ele faz, inicialmente ele até conta com a ajuda da agente Frankie Burns (Sienna Miller), mas todos os holofotes estão voltados para Boseman, que faz com  que o seu personagem seja o ponto principal da história. Porém, chega a ser um alívio ver o criminoso negro vivido por Stephan James sendo perseguido por um detetive negro e não por um branco. 

O longa-metragem é bem ritmado, mas longe de ser original. Ele se arrisca em fazer uma crítica no sistema policial dos Estados Unidos, e tenho coragem em dizer que tal crítica serve para outros locais do mundo, principalmente o Brasil. De forma gradual, acompanhamos a imagem do policial desmoronando aos poucos, colocando a prova o caráter de quem mais deveria ser fiel a sociedade.

Em termos de ação, Kirk ignora colocar cenas de combate corpo a corpo e prefere dar ênfase as armas, que são muito bem utilizadas. Nota-se uma veracidade em cada morte, portanto, “Crime Sem Saída” se resume a isso, muita ação, uma reviravolta proposital que poderia trazer uma relevância para o filme, e que infelizmente não foi bem aprofundada. Além do mais, acaba desperdiçando nomes como o de J.K. Simmons

O longa-metragem é um bom thriller! Como já dito, não é uma grande surpresa, mas o filme de Bian Kirk cumpre seu dever em entreter. Por ser muito contido, não me arrisco a dizer que ele poderá ganhar uma continuação, mas admito que ter alguém como Chadwick Boseman desvendando crimes em uma franquia seria uma ideia para lá de interessante.


“Frozen 2”: Com roteiro cativante, continuação desenvolve a maturidade de seus personagens

Depois de ter conquistado crianças e adultos por trazer uma proposta onde a relação entre irmãs é explorado e apresentar canções que marcaram o ano de 2013, “Frozen” era e continua sendo uma das sequências mais aguardadas para ambos os públicos citados. Já possuindo um universo estabelecido, Chris Buck e Jennifer Lee retornam a dirigir “Frozen 2“, para dar prosseguimento a história das irmãs Anna e Elsa diante de uma nova aventura.

Frozen 2” continua onde a história do primeiro longa parou. Elsa (Indina Menzel) é rainha do reino de Arendelle, sua irmã Anna (Kristen Bell) ainda está com Kristoff (Jonathan Groff), e o boneco de neve Olaf (Josh Gad) permanece com o grupo junto com a rena Sven. Obviamente que a paz não iria permanecer, e uma voz sobrenatural e misteriosa chama por Elsa, colocando todo o reino em perigo. Com isso, as irmãs e seus amigos deixam suas adoráveis vidas de lado para se aventurarem em uma floresta mística coberta por névoa e cheia de encantamentos que os colocarão em situações de risco.

A dupla de diretores Chris Buck e Jennifer Lee trazem nessa sequência uma nova linguagem para esse conto de fadas. Eles se afastam de todo tradicionalismo do gênero e decidem desenvolver em “Frozen 2” uma mitologia. Com tudo já estabelecido, onde sabemos quem é quem na história, a única preocupação para ambos e o roteiro escrito por Allison Schroeder é contar uma nova aventura de Elsa e Anna. Bem, devo dizer que eles se saíram bem sucedidos nessa, já que eles deixam de lado alguns personagens secundários como Pabbie (Ciarán Hinds) e decidem focar apenas na principal formação do longa.

Em alguns momentos a narrativa do filme pode se tornar confusa (principalmente para as crianças), como já foi deixado bem claro, a mitologia desse universo acaba sendo o foco principal, e com isso não existe um vilão especifico aqui! Uma decisão bastante corajosa tomada pelos diretores. Anna e Elsa estão enfrentando o passado delas, ou não tão delas, já que o mistério a ser solucionado envolve seus pais. No decorrer de toda a história, a relação das irmãs fica ainda mais estreita. 

Verdade seja dita, “Frozen 2” fica a frente da primeira versão no quesito maturidade. Além disso, é uma animação que em alguns momentos chega a ser sombria, porém, já era de se esperar que dificilmente, essa continuidade conseguiria emplacar músicas memoráveis como a da primeira versão. Os compositores Bobby Lopez, Kristen Anderson-Lopez e Christophe Bec estão de volta, e seria impressionante se eles conseguissem fazer algo similar a “Let It Go“. Acredito que as versões originais das canções se tornarão uma pequena epidemia em um determinado momento, mas nada equivalente ao hino que nos foi apresentado no primeiro filme. Se as versões legendadas não possuem a mesma força, ficarei impressionado se as versões dubladas marcarem o público de um certo modo.

Todas as músicas são bem encaixadas na projeção, fazem muito bem a sua função que é ilustrar o sentimento que o personagem está sentido e vivendo, e chega a ser louvável “Let It Go” não ser relembrada de maneira apelativa. Há um número musical em “Frozen 2” inesquecível e hilário envolvendo Kristoff, que remete a músicas de perda de amor que as boy band dos anos 90 faziam. Chega a ser brega, porém bastante engraçado.

Falando em graça, não tem como não rir de Olaf, já que ele é o personagem mais cômico da aventura. O boneco de neve vai de falastrão a quem resume muito bem o primeiro filme, inclusive, há uma cena pós credito com ele. A película passou por uma mudança notável de cores. Aquelas cores frias do primeiro longa-metragem passaram a ser substituídas por cores mais vivas, trazendo um aspecto de liberdade. Apenas Elsa, continua com o azul e branco, por conta dos seus poderes, sem falar dos inúmeros vestidos que ela possui.

Dito isso, “Frozen 2” resulta em um filme agradável de se assistir ao lado de uma criança. Sem medo de fazer algo simples, a complexidade domina esse atual trabalho de Buck e Lee. Eles trazem de volta os personagens amáveis que se encaixaram muito bem ao gosto popular. É um alívio notar o esforço da dupla de cineastas em trazer algo diferente que chega ser marcante, e quando algo assim fica evidente em uma película, inclusive em uma animação, merece ser contemplado.


“As Panteras”: Elizabeth Banks dirige nova versão ainda mais empoderada

Esse ano de 2019 pode ser considerado o grande percursor de franquias de sucesso que marcaram uma determinada época na indústria do audiovisual. Depois de “Rambo“, “Exterminador do Futuro” e até mesmo “Doutor Sono“, a bola da vez é “As Panteras“, dirigido por Elizabeth Banks (também roteirista e co-estrela). Nessa atual versão, inicialmente notamos um recapeamento na franquia, com novas integrantes na equipe e com uma linguagem feita para agradar o público feminino, mas que no final das contas acaba entregando algo similar que alguns grandes títulos já fizeram no passado.

Anos se passaram após “As Panteras Detonando” (2003), agora a agência de espiões Townsend composta apenas por mulheres se tornou internacional. Existem vários Bosley’s, e um deles é interpretado por Patrick Stewart, que está entrando em aposentadoria e vê a agência em boas mãos com Elizabeth Banks e Djimon Hounsou. Quando Elena (Naomi Scott), perita em codificação está preparada para por fim em uma tecnologia de energia limpa que ela mesma ajudou desenvolver, ela acaba se tornando alvo de um assassino (Jonathan Tucker), mas com a ajuda de Sabina (Kristen Stewart) e Jane (Ella Balinska), Elena pode ficar em segurança e manter a arma fora do alcance de pessoas que abusariam do poder que a tecnologia tem para oferecer.

Infelizmente “As Panteras”, de Banks se encontra em uma eterna indecisão no que quer ser. Tem momentos que a projeção da cineasta quer se levar como um filme sério de espionagem, mas em outros instantes abraça a breguice no qual a franquia já fez no começo dos anos dois mil.  Elizabeth Banks tenta agradar gregos e troianos ao fazer determinadas referências ao resgatar detalhes da série dos anos 70, onde acredito que parte dos espectadores não irão saber do que aquilo se trata, mas irão poder se habituar  no momento que o longa também homenageia “As Panteras” que foram compostas por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu.

Este filme de 2019 faz uma abordagem diferente das versões passadas. Algo bastante perceptível é o feminismo presente no projeto, e a primeira dose que tomamos disso é bem no começo, quando Sabina diz que “mulheres podem fazer qualquer coisa“, e se isso não ficou bem claro, minutos depois a edição nos faz o favor de ilustrar essa fala com imagens aleatórias de mulheres fazendo o que bem entendem. Banks está longe de trazer uma marca própria para sua direção, e isso fica bem claro nas cenas de ação que são sempre picotadas, mas uma coisa que ela faz muito bem é tratar com a feminilidade do filme e das atrizes ao não trazer um ângulo malicioso que atraia algum homem achando que aqui possa ter algo para ele.

Todo essa determinação em agradar as mulheres, e dizer que essa projeção  são para elas,  deixa a diretora falhar no principal, que é apresentar uma história sustentável e interessante até o final. Não vale a pena entrar em detalhes, mas acredite, a reviravolta no enredo é fácil de ser decifrada. Além disso, as três protagonistas são mal desenvolvidas, sendo que Jane tem a história de origem mais interessante quando revela que foi traída pela a antiga agência que trabalhava. Apesar de ser inteligente, Elena está sempre em apuros. 

Já Sabina, sendo interpretada por Kristen Stewart serve para marcar o retorno da atriz ao mainstream. Fica evidente que Stewart está confortável no papel. Ela luta, corre e sensualiza. Ao ter a primeira cena do filme focada em seu rosto, ela consegue debochar das críticas sobre suas expressões faciais ao fazer diversas caretas para câmera durante boa parte do longa-metragem. Pena que “As Panteras” não consegue acompanhá-la, e comentários negativos sobre o filme podem estragar seu desempenho com “afirmações” definitivas sobre o rumo que sua carreira tomou.

Infelizmente esta nova versão está longe de ser perfeita. Entretanto, vale dizer que esse não é o pior filme do mundo e você com certeza irá se divertir assistindo. O projeto de Elizabeth Banks é necessário! Marcando o inicio de uma era para as novas diretoras que planejam desvendar com bastante representatividade o gênero de ação. 


“Doutor Sono” se desvencilha de “O Iluminado” e caminha com os seus próprios passos

Se formos atrás de listas sobre os filmes de terror mais importantes da história do cinema, sem sombra de dúvidas “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, está na grande maioria e – diga-se de passagem – muito bem ranqueado. Dito isso, é uma covardia querermos que a continuação, “Doutor Sono“, dirigida por Mike Flanagan seja um terço de qualquer aspecto do filme que origina a história, já que a projeção de Kubrick tem um peso positivo para o gênero e assim servindo de influência para projetos que vieram depois. Porém, o longa-metragem de Flanagan tem suas virtudes ao adaptar na tela grande mais um livro escrito por Stephen King.

Em 2011, agora crescido, Dan Torrence (Ewan McGregor) se tonou um adulto nada exemplar. Viciado em uísque, ele acaba indo para New Hampshire e se rendendo aos alcoólicos anônimos. Oito anos depois, Dan se tornou alguém mais sociável e com um emprego no hospital. Ele aprendeu a combater os medos que restaram do Overlook, e até fez novas amizades como Billy Freeman (Cliff Curtis) e a mais importante, Abra Stone (Kyliegh Curran), uma garota de 13 anos que possui as mesmas habilidades de Dan, entretanto, ainda mais poderosa.

Antes de chegarmos em 2011 e até mesmo nos tempos atuais (2019), Flanagan decide pontuar seu filme com acontecimentos dos anos 80, apresentando juntamente do amadurecimento do protagonista, um grupo de humanoides que devoram almas de crianças. Rose the Hat (Rebecca Ferguson) é a líder desse grupo e se impressiona com o que Abra é capaz de fazer, como o seu dom de telecinesia. Deste então, o grupo se coloca a disposição para capturar Abra, no qual obriga Dan confrontar o mal mais uma vez.

“Doutor Sono”,  acaba se aventurando em um pouco de cada gênero. Parte é horror, parte fantasia, e parte tenta simular o que “O Iluminado” já nos apresentou. Entretanto, com os seus 152 minutos, a projeção é reflexo perfeito da velha morta da banheira que assusta Dany. Tornando sua duração o maior problema, já que tudo é bem explicado, bem desenvolvido e as vezes bastante lento, que ao revistarmos o Overlook, um dos momentos mais ricos que a projeção tem a nos oferecer, se torna cansativo justamente por absorver boa parte da trama. Mas claro, Flanagan na hora de nos reapresentar o hotel é cirúrgico com o movimento da câmera mais lento, na captura de cada detalhe para  nos transmitir o sentimento de nostalgia, mas nada majestoso como os planos de Kubrick. 

Uma das virtudes deste projeto que mais me deixou impressionado em “Doutro Sono”, é a maneira no qual Flanagan faz o medo sentir medo. Ficou confuso? Imagina algo que te dê medo sentir medo de você. Em muitos momentos, o grupo de Rose que faz crianças sentirem terror, se enxergam ameaçados por uma criança e principalmente incapaz de combater isto. Isso entrega sensações diferente para um filme de terror e principalmente se desvincula de “O Iluminado”, já que Abra é mais decidida do que Danny Boy já foi. 

Muito do que vimos na tela, faz parecer familiar, no entanto, o projeto ganha um novo tipo de abordagem ao recriar momentos históricos do título principal de maneira diferente. O diretor não tem medo de abraçar uma nova linguagem para o que já foi e ainda continua sendo sucesso. 

Guiado muito bem com elementos sonoros, Flanagan passa dos limites com algumas explosões sonoras. Não considero como jump scare, já que ao estourar o som, não vem nada visualmente para assustar, mas sim imagens aleatórias. Quando Abra decide usar um dos poderes para identificar a localização de algo, a cena corta para uma estrada, os planos ficam se alternando e toda vez que a estrada aparece, o som estoura e isso se torna perceptível pelas diversas vezes que essa técnica é usada. Outro questionamento que fica é o seguinte: Como você tem Jacob Trambley em seu filme e não o aproveita mais? O pouco que foi exigido dele,  foi ótimo, mas fica uma impressão de mal aproveitamento.

Entrando nesse assunto de elenco, Ewan McGregor consegue transmitir aquela sensação legitima de reencontro com o passado.  Já Rebecca Ferguson consegue ser uma boa vilã, mas a grande decepção é quando nos deparamos com os coitados Henry Thomas e Alex Essoe, – que não se parecem nada com Jack Nicholson ou Shelley Duvall – tentando recriar duas das mais adoradas performances do terror de todos os tempos, um trabalho ingrato principalmente quando a edição usa recortes reais de Duvall e Nicholson.

No atual momento que vivemos, onde os grandes estúdios tentam explorar o máximo de suas franquias, é compreensível entender o que a Warner Bros quis fazer com “Doutor Sono”. Reviver um sucesso mundial, renomado pela critica e que sem sombra de duvidas, deve obter um ótimo retorno financeiro para o estúdio. Para um cineasta como Flanagan, o projeto foi excelente para deixar seu nome em mais evidência ao grande público e ao mercado, mas como citado no primeiro parágrafo é injusto querermos que este longa em especifico seja comparado com o clássico de Kubrick. Deixem “Doutor Sono” ter sua própria vida e andar com suas próprias pernas.


Em Fortaleza, Rubel faz show intimista e mostra sua importância no atual cenário da música brasileira

Na última quinta-feira do mês de outubro, 31, o Theatro José de Alencar em Fortaleza (CE), abriu suas portas para o jovem cantor carioca Rubel, e para o seu público que resolveu lotar a casa com a intenção de prestigiar o músico em ascensão, que veio até a capital cearense com a proposta de um show somente com voz e vilão. Pode parecer simples, mas não se deixe enganar, o concerto do jovem rapaz além de trazer músicas autorais, contempla os grandes nomes da música brasileira.

Rubel iniciou seu show sem atraso, o set-list da apresentação se variou entre músicas dos seus dois álbuns mais conhecidos, “Pearl” (2013) e “Casas” (2018). De “Colégio a “Quadro Verde, o público se dedicou a cantar ininterruptamente todas as canções que eram executadas. Porém, ao propor a uma leva de covers, foi notável que parte da platéia ficou silenciosa. Com uma platéia tomada por uma grande quantidade de jovens, fica difícil afirmar se todas estavam simplesmente encantados ao ouvir as interpretações do cantor para músicas de artistas como Leci Brandão (na canção “Zé do Caroço“), ou se naquele momento estariam tendo o primeiro contato com aquelas composições.

Foto: Luigi Ewerton

Ao oferecer espaço para músicas clássicas e mais tradicionais em seu show, Rubel deixa a obra de grandes compositores cada vez mais viva para essa geração jovial que estão atentos a esses novos nomes da MPB como Silva, Tim Bernardes, entre outros nomes. Essa tarefa fica ainda mais reforçada quando o próprio artista toca e cita repetidamente essas grandes referências da música, que foi o caso deste concerto no José de Alencar. 

Claro, o ponto mais alto da noite foi quando o jovem carioca tocou seus grandes sucessos, “Partilhar” e “Quando Bate Aquela Saudade“, daí em diante o teatro virou um imenso coral coletivo. Deu para notar um mix de reações nas pessoas, de alegria por está do lado do seu parceiro(a) ou de tristeza, exatamente pelas letras tocantes que servem tanto para amar ou até para recordar de um antigo amor. Uma peculiaridade é o som que Rubel faz com a boca simulando um instrumento de sopro. Estou até agora me perguntando como ele faz isso.

Seja o que for, fazer tudo com bom humor se torna mais agradável, e ficou bem evidente que esse sentimento estava estampado na estrela principal da noite. Em “Chiste, música em parceria com o rapper Rincon Sapiência, Rubel fez um brincadeira com a plateia. Ele cantou, tocou e parou de cantar para conferir se as pessoas estavam com a letra na ponta da língua. Bem, a plateia não decepcionou. “Foguete“, conhecida na voz de Maria Bethânia também foi relembrada, mas ele não conseguiu recordar de quem era a composição – se responde o questionamento, pertence a J. Velloso e Roque Ferreira.

Foto: Luigi Ewerton

Com duração de uma hora e alguns minutos, o show inteiro teve uma boa relação entre artista e seu público. Ao apresentar pela primeira vez uma canção inédita, o cantor pediu para que não houvesse nenhuma gravação, porque ainda não estava finalizada. Essa vontade foi respeitada. Sobre essa nova música, o que deu para identificar nela é a brasilidade que ela possui, com um choro de violão que remete a bossa nova.  A história por trás dela é sobre a visita em uma casa no estado da Bahia onde nomes importantes da música e do cinema brasileiro frequentaram essa residência em algum momento, e segundo Rubel, ele teve a honra de visitar e fazer essa homenagem. 

Pessoalmente falando, a conclusão que eu tiro é que Rubel mesmo ainda não sendo um artista de grande massa, tem uma responsabilidade imensa para a música nacional, principalmente para um gênero que já não está entre os favoritos por uma escala maior de pessoas. Fico bastante curioso por seu próximo projeto e principalmente pelo seu retorno a capital cearense. 


Online Shopping in BangladeshCheap Hotels in Bangladesh