Crítica | Army of the Dead: Invasão em Las Vegas

Crítica | Army of the Dead: Invasão em Las Vegas

Zack Snyder, antes das turbulências burocráticas e mercadológicas com grandes estúdios de cinema e da megalomania nos filmes de super-herói, apareceu ao mercado no ano de 2004, insurgindo o gênero do zombie-movie com “Madrugada dos Mortos”, releitura de um clássico de um autor desse tipo de cinema: George Romero.

Desde este, no entanto, Snyder colocou a toalha no ombro, olhou para uma estante cheia de HQ e decidiu pinçar quais levaria ao cinema. Há quem preze pela virilidade quase chanchada de “300” e ainda há alguns fãs alocados em pontos específicos que entendem a canetada de roteiro que o mesmo deu em Watchmen; expandir o conto da graphic novel a uma nova mídia.

Daí, veio o universo DC no começo da década passada. A escolha do messias no seu Homem de Aço, a via-crúcis em Batman v Superman e a via-crúcis em Liga da Justiça. Em meio às filmagens deste último, um luto pessoal era transmitido ao desejo autoral de Zack Snyder. Acredito que ele queria voltar a um lugar confortável, a um guia cinematográfico onde pudesse discorrer esforço mínimo. Foi o que encontrou em Army of the Dead: Invasão em Las Vegas, lançado pela Netflix no último dia 21 de maio.

Simplificada e estimulada assim, a história mostra um grupo de mercenários contratado a um roubo de um cofre, localizado em um hotel na sitiada Las Vegas, após uma infestação zumbi. O argumento do roteiro é cru, mas a narrativa que Snyder desenvolve aprimora a sensação de entretenimento e miscelânea de gêneros.

Primeiro, você cria um senso estético a partir da localidade: Las Vegas e o brega elitizado, com os cassinos, hotéis luxuosos, dançarinas de cabaré e covers de Elvis Presley, uma figura de estádio e casas de show que a identidade estadunidense se recusa a esquecer. Alinhado, Snyder cria um fluxo contextual ao campo de refugiados localizado fora da cidade cercada por containers. Na televisão que o protagonista Scott (Dave Bautista) assiste, um conflito político acirra-se levemente: a iniciativa de lançar uma bomba nuclear em Las Vegas para eliminar a ameaça zumbi.

Claro que esse tecido social se fragiliza ao tentar associar às figuras dos mortos-vivos, principalmente quando o filme os apresenta no tom anedótico. Quando há esse espaço, o filme engrandece o tipo heist-movie, com a equipe se conhecendo, conversando, trocando táticas e tendo sua personalidade apresentada aos poucos. Apostando nos tipos (o pai amargurado, a piloto destemida, o alívio cômico sem convivência militar, o infiltrado, o contratante com propósito banal), Snyder se vê livre para dar à Army of the Dead a condução automática na ação, baseada no gore e na violência como ferramentas principais.

Mas quando dilui-se o gênero da ação, é quando o cineasta irrompe em tentativas autorais dentro do gênero, o que sempre foi uma validação que Snyder buscou em suas obras. A hierarquia e o pretexto social do “macho alfa” dentro do núcleo zumbi configuram em identidade: uma célula com sua organização suficiente, um “vilão” que ganha sentido, ainda que dentro dessa bolha cômica. A dor e a perda pelo filho configuram ao mesmo tempo o ápice narrativo com uma catarse passível de piada.

O elenco de mercenários se configura no cenário apocalíptico aos poucos, mesmo na característica falta de corte na montagem, o que desfigura certos núcleos lógicos. A intenção de Kate (Ella Purnell) tem sua motivação amparada, mas sua condução é feita de forma quase esquecível e um ou outro “sacrifício” é tomado só para a conclusão acirrada na chegada ao ato final.

De qualquer forma, é um divertimento seguro. Army of the Dead: Invasão em Las Vegas é um comediante comum, entonando as piadas que a maioria das pessoas já ouviu, mas com características e personalidades próprias, vindas de um autor confortável e ciente do seu espaço narrativo de segurança.

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