Crítica | Mank

Crítica | Mank

David Fincher nunca fora um cineasta que escreveu seus próprios filmes. Há sempre a parceria – adaptações de outras mídias também se incluem no vernáculo fílmico – com roteiristas ao longo de suas obras. Talvez a de maior sucesso tenha sido com Aaron Sorkin, no qual concluíram A Rede Social, o que em termos de comparação e parâmetros (desmedidos) seria uma evocação à estrutura narrativa de Cidadão Kane.

Cidadão Kane é a singular força motriz, regente de Mank, novo longa-metragem de David com roteiro de seu pai, Jack Fincher, datado dos anos 90. Nele, investiga-se em um espaço temporal – mascado e interpolado por flashbacks -, entre toda a construção do roteiro de Cidadão Kane por Herman Mankiewicz (Gary Oldman), durante os anos 30.

O estilo cinematográfico de Fincher aqui está mais direcionado ao maneirismo, sofisticação e características narrativas que reforcem uma referência – na verdade, uma simulação ao invés de evocação -, à era de ouro de Hollywood. Pequenas marcas de cigarro no canto superior direito (piscadela para os cinéfilos), textos com efeito datilografado (visual e sonoro) que marcavam os períodos e a fotografia em preto e branco – a filmagem em câmera digital 8K foi decupada e editada posteriormente para emanar um corpo estético analógico. No entanto, é difícil especular que Fincher mirou homenagens.

Seu filme parece, na verdade, tratar com cinismo um romântico e exótico senso comum sobre a produção de cinema estadunidense da época. O Mank de Gary Oldman é o núcleo cínico dessa jornada – bêbado, inconsequente e arrogante -, no entanto, cumpre uma jornada quase redentora dentro da linha de teoria constante promovida pelo pai de David, só que sem uma configuração humana que convença tanto seus méritos quanto suas falhas profissionais e morais. É posto à prova uma humanidade que não está tão tangível.

Em entrevistas antes do lançamento de Mank na Netflix, Fincher deu algumas entrevistas criticando a figura de Orson Welles, diretor de Cidadão Kane e um dos grandes nomes do cinema estadunidense. Seu pai, Jack, compartilhava e apoiada uma linha teórica que buscou invalidar os méritos de Orson em troca de promover o trabalho de Herman. Uma série de ensaios publicada pela crítica Pauline Kael, nos anos 70.

A linha teórica serve como uma contraposta e para provocar a queda do glamour na figura de Orson Welles como um gênio admirável. No entanto, desde a sua publicação é uma linha analítica questionável. Mank não força o “gênio” sucumbido à sombra de Orson, mas uma das cenas ao final do longa-metragem praticamente vilaniza o diretor.

David Fincher usa de seu Mank como um distante aceno estético à Cidadão Kane e uma seca referência à história do cinema. O trato pelos bastidores, pela movimentação política que circundava os grandes estúdios de cinema, pelo certo jogo trivial que inicia com a audiência. Ver Cidadão Kane não é necessariamente essencial, mas o engate com o filme de Fincher acontece através dessa obra. E ter conhecimento histórico do cinema daquela época parece um quiz show, onde marcam-se pontinhos.

Não é o suficiente com a intenção narrativa do roteiro, não é o suficiente pela empatia à figura de Mank e principalmente, pelo caricato desfecho comum às cinebiografias.

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