Crítica | Meu Pai

Crítica | Meu Pai

Para o filósofo e teórico francês Gilles Deleuze, o que viria a chamar de “imagem-movimento”, é o responsável por trabalhar a sensação empírica de tempo no cinema, ou seja, o curso progressivo do mesmo. A partir da montagem, da formalização da noção de espaço-tempo e a transformação da mesma em uma narrativa cinematográfica que assimile coesão. No caso de Meu Pai, filme de Florian Zeller, esse tempo carrega semblantes e fragmentos de uma memória partida.

Vemos em tela a história de Anthony (Anthony Hopkins), um senhor de 81 anos que reside em um apartamento na cidade de Londres. Por uma escolha de sua filha Anne (Olivia Colman), ele passou a ser assistido por cuidadoras. Talvez pela senilidade iminente da idade avançada ou só por uma questão de conforto à vida de Anne, pois após essa relação paternal ser apresentada e estabelecida, qualquer informação trabalhada nos diálogos é debruçada em uma sensação de desconfiança.

Zeller adapta sua própria peça de teatro, homônima. Por isso, pode ser sentida uma condução teatral da direção; seja em posicionar as personagens principais em seus conflitos, ruídos e desentendimentos, ou pela solenidade como a progressão dos atos é tomada. De qualquer forma, esse aspecto cênico é justificado pela via narrativa escolhida em diluir a fragmentação do tempo e da memória a partir da figura de Anthony.

As derivações sugestivas que o filme cria, principalmente sobre as possíveis patologias que o protagonista possui, ficam estabelecidas em plano mais hermético, limitado a esses confinamentos dentro do apartamento. Traçando uma parábola, é uma sensação de estarmos na própria mente de Anthony; frágil e com a sensação de perda, aos poucos sendo inundadas por outras pessoas e por essa constante “apropriação” a sua memória, a sua afeição familiar e ao sentimento de pertencimento.

Essas mudanças de tempo dentro da imagem são explicitadas quando precisam ser objetivas: a troca de personagens que aparentam ser tal pessoa para o senhor de 81 anos, voltam depois reafirmando outros nomes, outras histórias: Anne vai ou não sair do país? Quem de fato é seu ex-marido? É característico o formato do tempo, na concepção literal, dentro de Meu Pai.

Anthony, desde o começo do filme, se importa muito com um item próprio. Item esse que, pela moda, pelo status e pela conveniência dos tratos sociais, ganha outras características fundamentais do que sua própria criação: um relógio de pulso. É pela marcação da hora, pela sensação de dominância do tempo. Falsificada, amenizada ou “parcial”, essa é a desesperança de Anthony.

E por falar em homogeneidade pelas obras tratadas (peça de teatro que tem sua adaptação cinematográfica dirigida pelo mesmo autor), Anthony Hopkins dá a sua persona-xará uma acentuação que destaca a atuação em uma de suas grandes da carreira; os momentos de tristeza, de insegurança e de arredio são envoltos às características de um senhor idoso de 81 anos, que se vê deslocado dentro de sua própria memória, de seu esforço em se encontrar na demência, na amnésia que o personaliza e persuadia a, justamente, deixar de tomar ações de controle.

Controle pelo relógio no pulso; as fugas do apartamento registradas pela câmera fixa e observadora de Zeller são situacionais: utilizadas para dar espaço ao arco da filha Anne, em que Colman floresce a inércia gerada pela situação secundária. É por ela que as ações precisam ser investidas e tomadas, mas visando necessariamente o bem (aspecto subjetivo que conflita a dialética objetiva da narrativa) de quem?

Anthony é uma figura paterna que concatena esse conflito geracional em “Meu Pai”: uma figura que se recusa a entender que está perdendo algo. Que tem os mecanismos de defesa (espanto, amargura, cinismo, sarcasmo) agindo como se fossem involuntários mas necessários. Porém, a perspectiva da arma-guarda tida por Anne é simbolizada pela tristeza de ver que suas ações levarão a um espaço-tempo final amargo, distante, mas que em determinado espaço no juízo de valor, se tornaram inevitáveis.

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