Crítica | Never Rarely Sometimes Always

Crítica | Never Rarely Sometimes Always

A introdução da violência no cotidiano de mulheres pode acontecer em qualquer faixa etária; ela tem agentes diretos, perpetuadores ativos, mas podem também vir de uma estrutura patriarcal, estabelecida socialmente em todos os núcleos sociais – família, escola, trabalho.

Never Rarely Sometimes Always, longa-metragem de Eliza Hittman, acompanha um universo de ameaças e opressão ao direito reprodutivo da mulher. Acompanhando a jornada de Autumn (Sidney Flaningan), adolescente de 17 anos que reside em um pequeno condado do estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Ao último ano do ensino médio, trabalha como caixa em uma rede de supermercados local junto da prima Skylar (Talia Ryder).

Logo no começo, Eliza monta uma história contínua, filmando a apresentação de Autumn em sua escola. No violão e na música sobre uma dominância masculina sentimental, ouve-se um xingamento machista de um rapaz na plateia. Depois, à mesa no restaurante, o filme caracteriza outra situação problemática na relação da protagonista com homens; seu pai é uma figura de poder e medo, que não demonstra empatia e cordialidade familiar com a filha.

Eliza, portanto, apresenta a discrição e a introspecção de Autumn como armaduras para ficar distante e se proteger das hostilidades. A protagonista, no entanto, suspeita de uma gravidez e, para confirmar, vai a uma clínica local para realizar o teste. O resultado positivo inicia a jovem em uma jornada de tensão e medo com seu próprio corpo, mas também é uma simbiose atrelada a primeira manifestação de controle de suas atitudes: deseja interromper a gravidez.

Na clínica, uma das profissionais pergunta se ela pensa no aborto. Outro ato hostil e predatório ao direito reprodutivo da mulher é alçado, dessa vez, em uma fita, colocada por essa profissional, com informações que dizem respeito à vida do feto, forçando-a a primeiro; se sentir culpada por cogitar o aborto e segundo; abandonar a ideia e dar à luz.

A cineasta trabalha com discrição na narrativa, apresentando gestos sutis na mudança de Autumn, como a colocação manual de um piercing, distanciando-a do núcleo familiar controlador por uma figura patriarca, também assinando um ato de independência. Sua prima Skylar é a única quem percebe a mudança de comportamento na protagonista.

Essa relação entre Autumn e Skylar é estabelecida desde a partilha desses atos violentos, como o assédio sexual que sofrem do patrão no supermercado, até a segurança em proteger a mais nova. Incorporando mais uma atitude autoral, roubam do supermercado e partem para Nova Iorque, onde as leis para o aborto são mais flexíveis.

Rumando para o segundo ato, literalmente filmando a jornada Estados Unidos adentro das duas jovens, Never Rarely Sometimes Always centra-se na relação entre elas, sendo um fator importante na migração estadual e também no senso de pertencimento. O longa-metragem não decide abusar de uma certa inocência de Autumn – o que poderia descaracterizar autonomia da protagonista, destoando-a em uma personalidade frágil e boba -, e tampouco de forçar a narrativa em uma espécie de sacrilégio. As reações das meninas são sentidas e expostas em seus silêncios, em fugas de contato com homens, limitando de forma coesa o drama da história.

Essa “cruzada” não resulta a todo momento em desespero e lágrimas, principalmente para Autumn. É uma história tão familiar e elaborada em universo tangível, que a armadura das duas é empática e coerente. Never Rarely Sometimes Always não cria paradoxos narrativos, tampouco possui simbologias e mensagens imagéticas complexas. É simples e de tão simples e cotidiano, é sensível.

Eliza Hittman não viu necessidade de dramatizar além do tom sóbrio e nem de suavizar os atos de violência e de opressão social às jovens. O contexto não é subjetivo, é explícito às câmeras e aos adornos narrativos: a procissão católica em frente à clínica, o questionário de saúde e relação sexual que Autumn responde (o nome do filme se remete às escolhas de respostas do formulário – Never [nunca], Rarely [raramente], Sometimes [às vezes] e Always [sempre]).

Never Rarely Sometimes Always também não procura apresentar a história de vida da protagonista, pois não é necessário. As circunstâncias que levaram à gravidez, quem pode ser o pai, elementos que não são importantes para o filme. Não diz respeito às motivações, não discute o aborto. Hitmman poupa esse debate de sua narrativa, porque só busca apresentar esse olhar mais cru e sensível – o longa intercala momentos de violência com gentileza de formas impactantes -.

Seja qual for o tempo, o espaço e de quem for vítima, o filme serve para relembrar que esse cenário violento resulta em consequências e ações que reverberam para sempre na vida das pessoas.

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