Crítica | O Som do Silêncio

Crítica | O Som do Silêncio

Empenhado no título que leva a estreia de Darius Marder na direção, o som é uma narrativa própria, com a história sendo conduzida por ela – sua onipresença, sua ausência. O Som do Silêncio se monta através desse sentido poderoso e essencial à vida “normal” para mostrar o baterista Ruben (Riz Ahmed), dono do compasso e do tempo da música, junto de sua namorada e companheira de banda Lou (Olivia Cooke). Enquanto vocaliza as letras em uma espécie de “pós-punk”, Ruben desbrava o ímpeto, alterando a caixa de ataque, bumbo e pratos.

Mas a desde primeira cena, em que Darius circula Ruben pelo solo de bateria, há esse trâmite inquieto, uma movimentação aguçada, mas imperfeita. Ao contrário de Whiplash, filme de 2014 dirigido por Damien Chazelle – inevitavelmente terá as comparações –  não há um perfeccionismo, um aprumo técnico que seja um núcleo narrativo da obsessão do protagonista com o infalível.

Desde o começo, O Som do Silêncio te impõe o cenário mundano. O trailer em que Ruben e Lou moram, onde também usam para se locomover pelo país na turnê da banda. Há esse mundo em certa ordem, essa deslocação temporal mínima orgânica. Até que, em determinado momento, surge o ruído. Na concepção mais prática e literal, Ruben sente a perda de audição. Sons abafados, isolados. Perde-se a acústica natural de seu corpo e assim, a ruína do controle, do tempo e do mundo se inicia.

A partir desse ponto, que engata o prosseguimento da história, Darius e o corroterista Abraham poderiam rumar em uma narrativa trivial e conversar sobre dificuldades de comunicar-se, em uma espécie de conto mordaz sobre relações na pós-modernidade.

No entanto, entenderam que se a narrativa acompanhar essa dinâmica de ruptura de tempo, o declínio de uma estabilidade emocional – a suposta perda de companhia da namorada, as novas interações emergenciais que surgirão -, teria uma abordagem mais simples e permitiria a Ruben uma construção mais contextualizada. Riz Ahmed e Olivia Cooke possuem uma sinergia não só pela música, mas por representarem a parcela de realidade e conforto no outro.

Em O Som do Silêncio, o trabalho de áudio é a sincronia perfeita para esse arranjo musical, que se inicia no tempo certo e depois abraça a quebra da sintonia deslocando-se nos saltos temporais do filme, como marcador dessa peregrinação em busca do mundo que tinha.

ARTIGOS RELACIONADOS