Mostra Tiradentes SP 2020 | Crítica: Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu

Mostra Tiradentes SP 2020 | Crítica: Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu

Em um contexto de reconfigurar a realidade como uma chave narrativa, “Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu” inspeciona sua própria semiótica de tempo em dispositivos técnicos e narrativos. Decupado em uma espécie de documentário com cenas de bastidores, o filme se apropria dessa interação contínua entre ficção científica com documentário para interpolar uma partícula social.

O cineasta Bruno Risas, co-fundador da produtora Sancho&Punta, que trabalhou em longas-metragens brasileiros como “Elon Não Acredita na Morte”, “Os Jovens Baumann” e o latino ”Zama”, de Lucrécia Martel, inicia no aspecto tangível da história, as remadas para uma pequena reinvenção temporal do surrealismo. Decide mostrar sua família migrante, que morava em alguns bairros de São Paulo após mudanças de trabalho e condições financeiras do núcleo, até se estabelecer na antiga casa localizada no bairro da Moóca, região historicamente operária da zona leste da capital paulistana.

Bruno monta o cenário da casa na intuição rotineira e ocasional das situações. Pai e mãe em constantes brigas, desempregados, a irmã Izabel em um emprego que não paga tão bem, um escopo real plausível. Em cima dessa rotina, Bruno visualiza uma espécie de controle dessas situações. A direção do acaso, se podemos classificar assim, transforma o ritmo antes mais documental, em uma construção narrativa mais ensaísta.

Bruno foca também esta percepção da ruína da realidade através do tempo, na imagética política-histórica da região. Em uma cena, dentro do carro da família, ele escuta do pai que do lado esquerdo da rua que moram, há agora uma rede de condomínios residenciais de um padrão mais elevado. Situado no quarteirão onde ficava a fábrica da Antárctica, além de mais para a frente, também remanescer as ruínas da fábrica da União. Estas duas empresas foram responsáveis por quase todo quadro de funcionários das Zonas Leste, Central e até mesmo além, cruzando as linhas de trem, que cortam a cidade. Com a câmera virada para fora da janela do carro e para a porta do trem enquanto o mesmo, ruma até a estação Bresser-Moca, o cineasta arranja o processo gentrificado do bairro.

A partir do aumento da inospitalidade da região, adicionando-se os infortúnios do pai e da mãe, a ruptura do tecido real inicia, conotando uma figura de linguagem mais anedótica e política de toda a mise-en-scene. A demência que a avó da família sofre caracteriza uma parcela dessa ruptura, tornando-a quase em um totem inanimado.

Com o acúmulo dos eventos que deixam a família em uma situação mais difícil, a matriarca é mais direcionada ao foco do filme. Aqui, Bruno Risas prepara “Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu” para o seu pico lúdico e surreal, controlando na maior sutileza possível – mesmo que esta fique frágil exatamente no momento de rumo à finalização do ato final -, as interações familiares. Deixando-as mais ausentes nos espaços da casa, externaliza a situação externa.

As tomadas à noite, os registros momentâneos fora de casa que dão o cerne histórico do bairro, a ida da mãe para uma região mais empobrecida, constituem este ato mais informativo da peça documental. Após o evento principal do longa-metragem em uma cena que responde aos céus em busca de resposta e da continuação pelo real, “Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu” fustiga esse propósito que todas as pessoas têm, em determinado momento de suas vidas. Figurativo e plausível, o filme de Bruno Risas mescla interpretações que desenvolve um tempo-espaço próprio.

O filme faz parte da programação da Mostra Tiradentes SP, disponível até o dia 07 de outubro, 100% gratuito e online. Para conhecer a mostra, acesse o site do Sesc Digital.

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