Crítica | Soul

Crítica | Soul

A origem da soul music nos Estados Unidos, ao final dos anos 50, traz consigo a história do negro no país. Desde a abolição da escravatura no século XIX, o protestantismo estadunidense de predominância branca não permitia que negros frequentassem suas igrejas, assembleias e cultos. Por isso, a comunidade negra criou suas próprias igrejas e centros religiosos, com músicas cristãs sendo cantadas em uma condução de tempo mais rápida; coros de igreja compostos totalmente por negros.

Soul, novo filme da Pixar que estreou dia 25 de dezembro no serviço de streaming Disney+, tem como movimento inicial contar a história do pianista, musicista de jazz e professor de música Joe Gardner, dublado por Jamie Foxx. Foxx ganhou a estatueta dourada no Oscar de Melhor Ator em 2005 pela interpretação de Ray Charles, um dos maiores símbolos da música negra estadunidense, compositor de jazz e soul. Não só a dinâmica humorística de Foxx é precisa na personagem, como toda a devoção extracampo dá a Joe uma empatia sublime.

Dividido entre o trabalho como professor de música e a paixão em tocar piano nos clubes de jazz, Joe está em um processo de identificação própria, fio condutor principal de Soul. Introduzido pelo falecido pai ao jazz e à música como um todo, o protagonista se sente rivalizado e inseguro com sua dedicação aos clubes de jazz por conta de sua mãe Libba (Phylicia Rashad), que o pressiona a seguir como professor, por conta de uma estabilidade financeira e profissional.

Seguindo a narrativa sobre propósitos, alma e realidade, Joe se sente renovado quando é chamado para um teste. Tocar piano na banda da renomada artista Dorothea (Angela Bassett). Após uma pequena sessão de improviso para verificar se Joe estaria apto à banda. Dorothea é representada como uma artista rígida e conservadora – julga a ocupação de professor do protagonista -, ele é chamado para o show à noite. No entanto, ao sair da casa de show contente e feliz, ignorando os azares da vida, é surpreendido pelo destino enfadonho e se torna uma alma.

Joe está no processo de negação. Se recusa a morrer e ir para o além. Após lutar contra esse estado, cai no “You Seminar”, um local onde as almas recebem personalidades e características, antes de serem enviadas aos seus corpos na terra. Nesse processo, ele conhece os guias e conselheiros, desenvolvidos sob técnica 2D com traços simples, porém, evocativos e auxiliares às jornadas. No meio do caminho, Joe é apresentado a 22 (Tina Fey), uma alma que não sente vontade de viver na Terra.

Os dois passam por uma etapa no seminário, em que precisam ir juntos à Terra, com o intuito de Joe voltar ao seu corpo e 22 descobrir de fato um sentido de viver. Soul cria uma dinâmica excelente entre Foxx e Fey, onde ambos sintetizam o humor bobo característico das animações da Pixar, mas também servem como duas pontas espirituais, um auxiliando o outro, por jornadas distintas.

O desenvolvimento de 22 no campo terreno dá à personagem novos meios de se identificar. O modo com que a narrativa identifica as banalidades da vida como ponto focal, motivações que resolvem 22 a querer viver, também traz a ela as cargas da dúvida. A experiência de ter vivido no corpo de Joe após uma confusão quando retornam ao estado físico, conflita-se com a personalidade instigada; de quem é esse propósito que estou adquirindo e do que ele me serve? A trivialidade; um passeio no metrô, um show de jazz, um corte de cabelo, muitas vezes é diluída pelo hábito. Para o próprio Joe, estava tudo tão internalizado que os objetivos de vida se transformaram quase em um calvário.

Coube a amizade com 22 – amparada pela condução narrativa, pelos belíssimos momentos que a decupagem propicia em usar o olhar subjetivo das personagens independente dos corpos que habitam, para que a restauração da alma acontecesse.

As músicas de jazz no filme foram compostas por Jon Batiste, musicista e pianista que conseguiu criar melodias criativas e revigorantes para as apresentações de Joe nos clubes, mas também para acentuar as características humanas e sentimentais das personagens. A outra parte da trilha sonora original do filme foi composta por Trent Reznor e Atticus Ross, dupla consagrada do Nine Inch Nails, que mais uma vez, promove uma função de ambientar fascinante, entendo os pontos do filme no qual a música deixa de ser um módulo externo, um adorno técnico, para se tornar uma base narrativa fundamental.

Soul promove o passo de fé, uma harmonia entre alma e realidade. Articula dentro de uma direção bonita, de arranjos em cena com traços característicos do estúdio da Pixar, com personagens que cativam suas próprias personalidades. Ao discutir sobre justamente, o que molda a personalidade e quando isso ocorre ao longo da vida das pessoas, o filme de Pete Docter (que consegue repetir os recursos empáticos de seus outros filmes, como Divertidamente e Monstros S.A.), ganha um senso humano já nos primeiros momentos. E a conclusão sem uma grande cena épica, de ápice final, saboreia essa narrativa mais leve e sensível.

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