De estrutura literária, “Em Chamas” narra as dicotomias sociais e pessoais da Coreia

O elemento fogo é talvez o mais metafórico. Com facilidade, escritores, autores, cineastas, músicos conseguem criar suas obras utilizando as chamas, o arder, queimar e o vagaroso apagar delas. “Em Chamas“, vaga da melhor maneira por essa construção literária. Adaptado do conto “Queimar celeiros”, presente no livro “O Elefante Desaparece“, de Haruki Murakami, mais notório pela cultuada trilogia “1Q84“. Dirigido por Lee Chang-Dong, o drama sul-coreano saboreia o afunilamento narrativo oriundo dos livros. É um poema, uma ópera contemporânea que visa municiar as implicações das relações e como sua deterioração é relativa no tempo.

O protagonista Lee Jong-su (Ah-In Yoo) é um aspirante a escritor. Vive em uma pequena cidade da Coreia. Afastada, rural e descentralizada da globalização. Características que implicam na personagem de Lee. No começo do filme, ele reencontra com uma garota que viveu junto na infância, na mesma cidade. Shin Hae-mi (Jong-seo Jeon) é uma jovem mulher independente, artística e com pequenas celebrações espontâneas. Os dois se encontram e as dicotomias entre os dois permeiam o início de uma obsessão. A mímica, a arte, a literatura. O cuidar do gato de Shin enquanto viaja para a África.

A interação de Lee com Shin, apesar do físico e da aproximação, é introduzida já como distante. Inconscientemente obsessivo, o jovem fazendeiro inicia uma paixão por Shin, mais pela interação social, de se sentir resguardado e protegido do que propriamente um sentimento mais retroativo. Ao voltar da África, Hae-mi apresenta Ben (Steven Yeun), um jovem burguês morador da capital e consumidor da alta classe coreana. Misterioso por um tom natural,

Ben desenvolve também um sentimento por Hae-mi, mas é uma manifestação mais desapegada, casual. O triângulo amoroso possivelmente banal é gradativamente moldado a partir desses conflitos entre os três. O incômodo que Ben gera em Jong-su é um reflexo pessoal e também social. A bagagem cultural, a inteligência, a presença física. Componentes mínimos ou quase nulos na figura do jovem escritor. O longa escala Hae-mi na figura mais metafórica dessa chama.

Ardente, alta e brilhante no começo, a jovem artista vai apagando aos poucos. Se isola socialmente a partir de suas ações individualizadas, até sumir e apagar de vez. Enquanto isso, Ben e Lee fumegam e caem em uma condução miscelânea de gêneros do roteiro de “Em Chamas”.  O diretor Lee Chang-Dong experimenta mais uma vez expandir padrões literários para seus filmes. Seu anterior, “Poesia”, de roteiro premiado em Cannes no ano de 2010, foi uma ode de Chang-Dong a como a literatura e arte formam e emulam situações que passem pelas mais diversas circunstâncias. Ministro da Cultura da Coreia do Sul de 2003 a 2004, o cineasta concilia sua observação da conjuntura social do país, com mazelas e desigualdade social, e inflige diretamente nas obras que cria.

“Em Chamas” é uma travessia necessariamente lenta, colocando os três personagens em um mesmo plano narrativo. Por isso, a relação entre eles acrescenta às suas atitudes para o seguimento do longa. Poético e inquietante em cada segundo, o longa-metragem se distancia do óbvio e das relações triviais para ser uma vagarosa viagem para o íntimo desbalanceado e desequilibrado do trio. Esteticamente frio na direção e fotografia, como se fosse quase documental, “Em Chamas” permite então que o argumento acoplado no roteiro intensifique o filme a partir de clímax precisos e coerentes, permeando praticamente uma descida ao inferno de Jong-su.

Curioso, no caso, é perceber que essa socialização urgente, misteriosa e premonitória do protagonista, se torna praticamente um remédio. Deslocado ao longo da vida, tendo uma relação paternal vazia e insensível através de fatos que o filme faz questão de amarrar no contexto social, Jong-su se lança na busca pelo que está praticamente inalcançável e longínquo. Porém, é um plano fundamental para que ele note o fogo que a vida oferece aos inquietos.