“Doutor Sono” se desvencilha de “O Iluminado” e caminha com os seus próprios passos

Se formos atrás de listas sobre os filmes de terror mais importantes da história do cinema, sem sombra de dúvidas “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, está na grande maioria e – diga-se de passagem – muito bem ranqueado. Dito isso, é uma covardia querermos que a continuação, “Doutor Sono“, dirigida por Mike Flanagan seja um terço de qualquer aspecto do filme que origina a história, já que a projeção de Kubrick tem um peso positivo para o gênero e assim servindo de influência para projetos que vieram depois. Porém, o longa-metragem de Flanagan tem suas virtudes ao adaptar na tela grande mais um livro escrito por Stephen King.

Em 2011, agora crescido, Dan Torrence (Ewan McGregor) se tonou um adulto nada exemplar. Viciado em uísque, ele acaba indo para New Hampshire e se rendendo aos alcoólicos anônimos. Oito anos depois, Dan se tornou alguém mais sociável e com um emprego no hospital. Ele aprendeu a combater os medos que restaram do Overlook, e até fez novas amizades como Billy Freeman (Cliff Curtis) e a mais importante, Abra Stone (Kyliegh Curran), uma garota de 13 anos que possui as mesmas habilidades de Dan, entretanto, ainda mais poderosa.

Antes de chegarmos em 2011 e até mesmo nos tempos atuais (2019), Flanagan decide pontuar seu filme com acontecimentos dos anos 80, apresentando juntamente do amadurecimento do protagonista, um grupo de humanoides que devoram almas de crianças. Rose the Hat (Rebecca Ferguson) é a líder desse grupo e se impressiona com o que Abra é capaz de fazer, como o seu dom de telecinesia. Deste então, o grupo se coloca a disposição para capturar Abra, no qual obriga Dan confrontar o mal mais uma vez.

“Doutor Sono”,  acaba se aventurando em um pouco de cada gênero. Parte é horror, parte fantasia, e parte tenta simular o que “O Iluminado” já nos apresentou. Entretanto, com os seus 152 minutos, a projeção é reflexo perfeito da velha morta da banheira que assusta Dany. Tornando sua duração o maior problema, já que tudo é bem explicado, bem desenvolvido e as vezes bastante lento, que ao revistarmos o Overlook, um dos momentos mais ricos que a projeção tem a nos oferecer, se torna cansativo justamente por absorver boa parte da trama. Mas claro, Flanagan na hora de nos reapresentar o hotel é cirúrgico com o movimento da câmera mais lento, na captura de cada detalhe para  nos transmitir o sentimento de nostalgia, mas nada majestoso como os planos de Kubrick. 

Uma das virtudes deste projeto que mais me deixou impressionado em “Doutro Sono”, é a maneira no qual Flanagan faz o medo sentir medo. Ficou confuso? Imagina algo que te dê medo sentir medo de você. Em muitos momentos, o grupo de Rose que faz crianças sentirem terror, se enxergam ameaçados por uma criança e principalmente incapaz de combater isto. Isso entrega sensações diferente para um filme de terror e principalmente se desvincula de “O Iluminado”, já que Abra é mais decidida do que Danny Boy já foi. 

Muito do que vimos na tela, faz parecer familiar, no entanto, o projeto ganha um novo tipo de abordagem ao recriar momentos históricos do título principal de maneira diferente. O diretor não tem medo de abraçar uma nova linguagem para o que já foi e ainda continua sendo sucesso. 

Guiado muito bem com elementos sonoros, Flanagan passa dos limites com algumas explosões sonoras. Não considero como jump scare, já que ao estourar o som, não vem nada visualmente para assustar, mas sim imagens aleatórias. Quando Abra decide usar um dos poderes para identificar a localização de algo, a cena corta para uma estrada, os planos ficam se alternando e toda vez que a estrada aparece, o som estoura e isso se torna perceptível pelas diversas vezes que essa técnica é usada. Outro questionamento que fica é o seguinte: Como você tem Jacob Trambley em seu filme e não o aproveita mais? O pouco que foi exigido dele,  foi ótimo, mas fica uma impressão de mal aproveitamento.

Entrando nesse assunto de elenco, Ewan McGregor consegue transmitir aquela sensação legitima de reencontro com o passado.  Já Rebecca Ferguson consegue ser uma boa vilã, mas a grande decepção é quando nos deparamos com os coitados Henry Thomas e Alex Essoe, – que não se parecem nada com Jack Nicholson ou Shelley Duvall – tentando recriar duas das mais adoradas performances do terror de todos os tempos, um trabalho ingrato principalmente quando a edição usa recortes reais de Duvall e Nicholson.

No atual momento que vivemos, onde os grandes estúdios tentam explorar o máximo de suas franquias, é compreensível entender o que a Warner Bros quis fazer com “Doutor Sono”. Reviver um sucesso mundial, renomado pela critica e que sem sombra de duvidas, deve obter um ótimo retorno financeiro para o estúdio. Para um cineasta como Flanagan, o projeto foi excelente para deixar seu nome em mais evidência ao grande público e ao mercado, mas como citado no primeiro parágrafo é injusto querermos que este longa em especifico seja comparado com o clássico de Kubrick. Deixem “Doutor Sono” ter sua própria vida e andar com suas próprias pernas.


Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.

Online Shopping in BangladeshCheap Hotels in Bangladesh