“Eternos” marca estreia ambiciosa de Chloé Zhao na Marvel

“Eternos” marca estreia ambiciosa de Chloé Zhao na Marvel

Quando saímos de casa para ir ao cinema assistir um filme da Marvel Studios, nós já sabemos o que esperar da tal projeção. Atores com rostinhos bonitos, batalhas incríveis, um momento tenso no qual o vilão revela sua motivação e logo em seguida uma piada para quebrar o clima e tirar gargalhadas do público. Existem boatos que todo esse formato tira a autoria dos cineastas que trabalham nas produções baseadas em quadrinhos, mas aqui, Chloé Zhao, vencedora do Oscar por “Normadland” no começo desse ano, teve carta branca para fazer o que bem entender. O resultado dessa liberdade é um longa extenso (2hrs45min) e monótono, mas com um desenvolvimento excepcional, quem se permite experimentar novas linguagens, vai sair satisfeito com o resultado de “Eternos“.

“Eternos” possui uma abertura que é impossível não se lembrar de “Star Wars” e se trata de seres imortais criados por Celestiais, que são entidades que constrói planetas e raças, e uma dessas raças são os Deviantes (os vilões de CGI do longa-metragem) que acabam fugindo do controle e fazem os Eternos trabalharem como uma polícia espacial para evitar que os Deviantes não destruam civilizações, principalmente a do planeta terra.

Os Eternos é um grupo formado por dez integrantes que possui peculiaridades particulares quando juntos se tornam bastante poderosos. Eles estão na terra desde o início dos tempos, protegendo a humanidade, mas a regra deles é não intervir em nenhum assunto além daqueles que se tratam sobre os Deviantes. Essa é a explicação para não se envolver nas duas Guerras Mundiais ou na batalha contra Thanos. A projeção se divide em duas linhas do tempo, o passado, no qual presenciamos a equipe viver épocas diferentes e os dias atuais, onde os Eternos estão espalhados em pontos diferentes do planeta.

Os primeiros minutos do filme de Zhao são dedicados para uma batalha que apresenta os poderes de cada Eterno, após isso pulamos para o dias atuais onde vemos Sersi (Gemma Chan) namorando um humano, Dane Whitman (Kit Harrington), e embora ele suspeite que sua namorada possua algo de diferente, ele nem imagina o que ela é capaz de fazer. Duende (Lia McHugh), é outra Eterna que tem a aparência de uma criança e vive com Sersi. Elas são atacadas por Deviantes, que elas acharam que foram extintos no passado. No meio dessa batalha, Ikaris (Richard Madden), outro membro da equipe aparece para ajuda-las e a missão deles agora é reunir todo grupo para terminar o trabalho que não foi feito por completo.

Definitivamente falar sobre a trama de “Eternos” é estragar a experiência alheia. Mas o que pode ser dito é que aqui temos algo ousado e que está longe de ser visto nesses blockbusters de grandes orçamentos. Por vermos monstros de CGI na tela o interesse sobre eles não é dos maiores, mas mesmo assim eles conseguem oferecer uma ameaça interessante. Existem reviravoltas e bastante surpresas na jornada dos antagonistas. Isso torna o desenvolvimento da história surpreendente, entretanto em um certo momento é perceptível matar uma determinada charada do roteiro. O roteiro no qual decide explicar algumas ações tomadas por seus personagens e as respostas para muitos questionamentos são boas e concretas.

Por Chloé Zhao ser uma diretora que vem de um cinema mais independente, ela traz de lá elementos que não estamos acostumados acompanhar desde o surgimento do MCU. “Eternos” possui uma cena de sexo, tem um beijo gay e também faz criticas a religião. Você consegue me dizer qual filme baseado em histórias de quadrinhos nessa era moderna fez isso? Sei que você pode pensar em “Watchmen“, mas 2009 não era uma certeza que filmes de heróis iriam se tornar essa febre. Sobre o tema diversidade é possível dizer que não existe um discurso que empurre goela abaixo um pensamento ideológico. A diversidade existe no elenco escalado, nele temos diferentes tipos de etnias como a mulher asiática, o homem e a mulher negra, o homem e a mulher branca e nada além disso, nenhum discurso que sobressaia a história que está sendo contada. E se qualquer tipo de critica feita incomoda, é sinal que ela é pertinente.

Para você que assim como eu estava cansado de tudo que vinha sendo feito no Universo Cinematográfico da Marvel, Zhao foge da tão falada fórmula aplicada nesses filmes. Finalmente estamos vendo um projeto cinematográfico que possui consequências e seus personagens pagam por suas atitudes no mesmo longa sem termos que esperar mais alguns anos para saber se o vilão vai voltar para se vingar. Em determinado momento um personagem fala para outro que sua falta de obediência não o agradou e agora ela terá que pagar. Saber que cada comportamento tomado tem um efeito deixa as coisas mais reais e importantes. Uma novidade que temos é o ponto de vista e a opinião daqueles que os heróis sempre falam em salvar,  que é a humanidade. Por fim vemos uma película onde o ser humano é importante e como eles estão referente a tudo que já aconteceu e ainda acontece com eles no MCU.

Talvez parte do publico fique cético em relação a esse longa-metragem por discutir pautas que não são acostumadas serem discutidas nesse terreno, pelo o desenvolvimento lento da história e principalmente por possuir batalhas bem pontuais. Porém, não poderíamos esperar outra coisa vindo de uma cineasta que em seus trabalhos autorais prefere falar sobre onde erramos como humanidade para deixarmos pessoas morar em um trailer do que colocar dos seres com super poderes socando um ao outro. Se existe alguém descontente com isso, é sinal que não pesquisa sobre os diretores que trabalham nos filmes que estão acostumados assistir.

Calma, nem tudo está perdido para você que queria apenas assistir algo que te oferecesse algum tipo de entretenimento. Apesar de poucas, as grandes lutas estão presentes, as piadas são excelentes e o personagem de Kumail Nanjiani é um dos melhores alívios cômicos que a Marvel já teve, superando até mesmo as piadas fora de tempo de Tony Stark. Visualmente é capaz de sair surpreso graças a fotografia de Ben Davis que tenta criar uma semelhança com a fotografia de Joshua James Richards que sempre filmou os outros projetos da Zhao.

Chloé Zhao conquistou merecidamente esse espaço por muito do que já fez no decorrer da sua carreira, ela sai do cenário independente e assume um filme com orçamento grande e particularmente falando não decepciona. Com “Eternos” Chloé mostrou que é possível apresentar novos elementos para uma formula que já não é mais nenhuma novidade para ninguém, quem está cansado da mesmice vai se sentir aliviado em ir ao cinema e saber que não está assistindo a mesma película com rostos diferentes. Além disso, que Chloé seja a primeira de muitos a ter liberdade de criação na hora que for convidada para trabalhar em uma produção baseado em histórias em quadrinhos, com isso teremos projeções mais ambiciosa como foi “Eternos“.

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