Evangelion 3.0 + 1.0: A Esperança e as imagens do novo mundo

Evangelion 3.0 + 1.0: A Esperança e as imagens do novo mundo

O cinema sempre se mostrou como uma ferramenta que atravessa limites. Sejam eles idealizados pelos recursos técnicos ou pela temporalidade humana; até onde a memória do homem permite que o cinema explore este sentido?

No filme “Céu de Lisboa”, dirigido por Wim Wenders, onde o cineasta alemão apresenta um sonoplasta que viaja até o Velho Continente e o Velho País- terminologias temporais que identificam Portugal na linha do tempo histórica da nossa realidade -, para ajudar a finalizar o filme de seu amigo.

Wenders, que possui como característica na maioria dos seus filmes interpolar o real e o irreal dentro do poder imagético, mesclando ficção com documentário, reserva alguns minutos de cena para o depoimento do diretor português Manoel de Oliveira.

Manoel então nos orienta a uma reflexão: o cinema é um reflexo, uma visão e um esboço da realidade ou apenas uma simulação dela?

Os avanços técnicos que o cinema atravessou ao longo de sua longeva histórica (de mais de 200 anos) possibilitam um poder mutável à imagem e a relação da mesma com o tempo; a contagem de narrativas os meios de traduzi-la em cinema são vastas e configuram essa identidade do tempo, da percepção da realidade.

O cinema de animação, por exemplo, é guiado não só pela facilidade cognitiva da audiência (medida por apelos infantis, traços e técnicas de desenho, etc), mas também pelo espaço de fragmentar as identidades. Disney aperfeiçoou os métodos de animação não só por questão financeira, mas também, por terem cada vez mais controle espacial daquela história que será contada, seja ela fantasiada ou não.

E pelo circuito do tempo, também correram-se as evoluções tecnológicas na animação em outros polos, principalmente, no cinema oriental. 

Desde o começo do século XX, quando em 1907, de autor até hoje desconhecido, foi produzida a primeira animação japonesa; um curta-metragem de 3 segundos sobre um marinheiro escrevendo na lousa Katsudō Shashin (活動写真), em tradução, “Imagens em Movimento”.

Katsudō Shashin – Wikipédia, a enciclopédia livre

Atravessando os anos e os séculos, visualizando desde os primeiros animes produzidos no Japão nos anos 20, ruminando muito tempo depois para a inserção dos gêneros literários de preservação da memória do país, até as influências ocidentais, principalmente pós 2ª Guerra Mundial.

Na década de 90, a última do século XX, já estava consolidado esse mercado, além da produção dos mangás (produção literária em quadrinhos) se tornando rotativa e crescente. Nas narrativas – tanto no Oriente quanto no Ocidente -, um dos fatos históricos inevitáveis é a chegada do ano 2000. Um novo milênio arrebataria a vida de todo o mundo e nem todo o mundo estava preparado para o que iria vir.

Muito além da participação cada vez mais presente da tecnologia no cotidiano humano, como seria essa jornada humana nas relações sociais? A modernidade cada vez mais frágil é um discurso social, psicanalítico e coletivo. A figura do jovem que cruzaria esse limite do tempo-espaço e ficaria com um pé em cada milênio estaria configurada no traço fino de Hideaki Anno; o desenho do protagonista do anime Neon Genesis Evangelion: Shinji Ikari.

Departamento de Pagamento da Nerv – Quanto ganha Shinji Ikari? – Evangelion:BR

Eu poderia resumir os 26 episódios em duas temporadas imbuídas em uma só mas dividida em 2 partes: a primeira parte mais centralizada em apresentar a história: Neo-Tokyo 3 é protegida pela NERV, uma empresa paramilitar ligada ao governo que fabrica EVA, um robô de mais de 30 metros de altura que serve apenas para uma função: derrotar os “Anjos”, seres que chegam na terra com o objetivo de encontrar o “1º anjo” chamado Adão, que está enterrado na base subterrânea da NERV.

Já a partir da 2ª parte com mais afinco, mas também utilizando do já criado contexto narrativo, o anime investiga muito mais os sentidos psicanalíticos e humanos sobre todas as personagens da série: a descoberta da sexualidade, abandono e relações familiares, depressão e como o sufoco do mundo causado pela humanidade torna ela mesma um embrião do caos.

Depois da conclusão da série e do filme que traduz outro significado ao fim daquele arco (The End of Evangelion), ainda no final dos anos 90, acompanhava-se qual seria a intenção de Hideaki Anno na continuação de sua principal obra: ao final do filme, ele mescla os frames dos desenhos com imagens de reais da população japonesa: no cinema, na rua, nas ameaçadoras cartas de morte que recebeu após a conclusão do anime; seu realizador estava impregnado pela inevitável caminhada da humanidade ao abismo. Nisso, emanou sua ideia ao filme, dando ao Shinji o poder decisivo de salvar a humanidade ou deixá-la andar a sua condenação.

The End of Evangelion (1997) | MUBI

Já postado no novo milênio e com o pós-modernismo absorvido na sociedade (e na cultura), Anno juntamente do Studio Khara partiu para reler Neon Genesis Evangelion e trazê-lo a esses convívios atuais, criando assim, os rebuilds.O primeiro, publicado em 2007, 1.0 You Are (not) Alone, era basicamente um remake canônico, atendo-se a poucas mudanças estruturais.

Já a partir do 2º filme da tetralogia Rebuild, You Can (not) Advance, Anno organizou alterações importantes na história, principalmente a mudança do sobrenome da Asuka (de Sohryu para Shikinami) e a adição de uma nova personagem feminina, a Mari, que só acrescentaria ao universo de Evangelion e à personalidade de Shinji, o caráter dos relacionamentos e da descoberta sexual.

O 3º longa, publicado em 2012, You Can (Not) Redo, transforma novamente a história mas ainda permanece o sentido apocalíptico e cabalístico do mundo; Shinji está travado em uma luta que perdurará por muito tempo, enquanto uma ruptura de sua vida o deixa cada vez mais perdido e inserido em suas próprias questões.

Tanto as figura de Asuka, Rei, Mari ou Kaworu – correspondentes à idade de Shinji – quanto aos mais velhos – Major Katsuragi, Dra. Ritsuko e principalmente o pai Gendo -, formam um catalisador de todas as percussões inerentes à convivência nos dias de hoje. E se a narrativa do 3º rebuild caminhava para um fim, o último longa-metragem dessa saga icônica e emblemática determinava esse destino… porém, com a cura.

Lançado no último dia 13 de agosto pela Amazon Prime Video (aliás, todos os filmes da saga Rebuild estão no catálogo do serviço de streaming), Evangelion 3.0 + 1.0: A Esperança é a despedida, primeiramente, de Hideaki Anno à sua obra, com uma relação que atravessou incertezas e momentos de desilusão completa. Desgastado e quase obrigado a concluir a história, o cineasta japonês se viu em uma mais retratação de si mesmo nas cartelas de rascunho e, depois, na transposição à animação.

Evangelion: 3.0 + 1.0 Thrice Upon a Time tende a igualar ou ultrapassar sucesso do novo filme de Kimetsu. - Anime United

A figura do Shinji e a relação imediata que a audiência possa ter com ele, como sempre, é ambígua e intrínseca ao passional: a fuga das consequências de suas ações pode torná-lo alguém detestável, mas ao mesmo tempo, posto a um nível altíssimo de compaixão e compreensão, cada vez que essas camadas surreais de realidade são apresentadas no filme. Aliás, o espaço de Shinji aqui é diminuto em relação ao que fora contado nos últimos 25 anos.

Abre-se espaço para também, concluir a jornada analítica das outras duas personagens da saga: Rei e Asuka. Enquanto Asuka também está travada em seu próprio casco “executivo” e só consegue sentir satisfação e motivação por causa do dever e do maquinário de EVA, Rei é desprendida de qualquer frivolidade. Sua persona permeia as relações e consegue nutrir cada vez mais as próprias realizações, algo iniciado no catártico monólogo ainda no 14ª episódio do clássico anime.

Montanhas, pesadas são as montanhas

Mas há mudanças

Azul, céu azul

Algo que os olhos não veem.

Algo que se pode ver.

O sol, algo que é único.

Água, algo que é agradável.

(…)

Flores, tantas iguais, tantas sem razão de ser.

Céu.

Vermelho.

Céu vermelho.

A cor vermelha, cor que eu odeio

O líquido flui. Sangue.

Um cheiro de sangue

Uma mulher que nunca sangra.

Da terra vermelha vêm os humanos.

Humanos feitos por homem e mulher.

Cidade.

Uma criação humana.

(…)

O que são os humanos?

São criações de Deus?

Humanos são aqueles criados por humanos.

Isto é o que é meu:

Minha vida, meu coração.

Sou o vaso de meus pensamentos.

A escotilha de entrada, o trono da alma.

Quem é esta?

Esta sou eu.

Quem sou eu?

O que sou eu?

O que sou eu?

O que sou eu?

O que sou eu?

Eu sou eu.

Esse objeto sou eu

Isto que forma sou eu.

Esse é o ser que pode ser visto.

E ainda assim sente que não sou eu.

Uma sensação estranha.

Parece que meu corpo se derrete

Não posso mais me ver.

Minha forma desaparece de vista.

Aparece alguém que não sou eu.

Quem está aí?

(…)

Alguém que eu conheço?

(…)

Quem está aí?

Quem é você?

Quem é você?

Quem é você?”

A resposta apareceu à personagem na série e retorna aqui depois, mas com uma responsabilidade menos imposta e mais satisfatoriamente autônoma. E por falar em soluções, algo que está imerso no imediatismo narrativo e nessa tomada “explicativa” dos meios digitais em relação a qualquer obra minimamente ambígua, o espelho quebrado de Shinji sempre revelada Gendo no reflexo; a sombria, distante e amargurada caricatura do pai de Shinji é dizimada em “A Esperança”. E sem a responsabilidade de torná-lo afetuoso, muito pelo contrário, o senso estético surreal e abstrato de toda a saga deixa Gendo alguém muito mais alinhável ao “explícito”, mesmo que não seja essa a intenção.

A intenção em Evangelion 3.0 + 1.0 é dizer adeus. É ser final e propor um fim saudável a si mesmo e a essa leva imagética do caos pós-moderno. Da sensação do desespero que toma conta das pessoas, de como as mazelas nos relacionamentos causam rupturas geracionais, rupturas essas que Anno observou e transpôs à sua obra, que já desde os primeiros episódios, tangenciou-se das frustrações da sociedade oriental e tornou-se universal.

É um fim universal, de caráter fundamental àqueles que acompanharam a saga não só pela resolução da história, mas também pela sensação de uma experiência audiovisual com um poder próprio. Hideaki Anno se curou.

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