Festival de Gramado 2020 | Crítica: “Por que você não chora?”

Festival de Gramado 2020 | Crítica: “Por que você não chora?”

Não que há necessariamente um peso incumbido ao longa-metragem brasileiro de abertura do Festival de Gramado, que em 2020 chega a sua 48ª edição, mas “Por que você não chora?“, filme de Cibele Amaral possui um valor narrativo que não sustenta a si enquanto filme e nem a esta “honraria” pressuposta.

A obra acompanha a história de Jéssica (Carolina Monte Rosa), uma estudante de psicologia, moradora do subúrbio da Capital Federal, que vive com sua pequena irmã, Joice (Valentina Cysne). Como parte do estágio da faculdade, ela precisa cumprir a etapa de Acompanhamento Terapêutico, um tratamento clínico que visa reintegrar pessoas diagnosticadas com doenças mentais aos grupos sociais.

Em uma viagem a um hospital psiquiátrico, ela conhece Bárbara (Bárbara Paz), uma jovem de classe média alta diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline, que altera seu comportamento constantemente, além de prejudicar suas reações e convívio social. Mãe e divorciada, luta pela guarda do filho e por uma vida mais pacífica. Ela aceita ser acompanhada por Jéssica, como parte do tratamento de ressocialização.

A acentuação do trato clínico da relação entre as duas se inicia através de diálogos menos humanizados e mais técnicos, além de serem acompanhadas por uma interação espacial vazia. Mesmo que ambas convivam juntas por mais tempo em locais abertos, naturais e reais, estes locais são utilizados como forma de modelar o universo mais tangível. Como se o escape à realidade fosse necessário a todo momento, porém, isso torna todos os eventos e relações exteriores monótonas e frívolas.

Podem acrescentar à interação mais amistosa entre as duas com o passar do tempo, mas sua relação vira uma ignição às mudanças de características de cada uma. Seus problemas, traumas e universos particulares. Entretanto, raros são os momentos que estes eventos negativos são narrados de uma forma sensível e empática. Sem o trato sentimental e na composição total da cena, não articulam coerência. Soam distantes, oportunos e sofrem uma constante esterilização.

Se o intuito foi seguir uma abordagem mais próxima e, enquanto instrumento material histórico, valorizar a abordagem antimanicomial e indicar como o suicídio é recorrente no Brasil, consequência de doenças como a de Bárbara e da depressão contexto geral, “Por que você não chora?” aponta a uma forma mais conotativa da história, dramatizando situações exageradamente no corpo atuante do elenco. Nem mesmo Bárbara Paz e participações de Elisa Lucinda, Maria Paula e Cristiana Oliveira figuram um destaque nos seus momentos.

A casa e os ambientes individuais sendo câmaras frias, deteriorando-se junto às rememorações de Jéssica. Os pequenos câmbios de gênero ao horror experimentam uma narrativa fora da abordagem neutra, mas não possuem estrutura orgânica dentro da montagem. A protagonista tem uma atuação deslocada ao longo da sequência, onde o roteiro tenta visá-la em uma derrocada, uma descendência ao desespero e a subjetividade da vida, a mesma estagna o trabalho de corpo e face, retendo-se a uma inércia.

“Por que você não chora?” desaponta em quase todos os símbolos temáticos que tenta criar, mesmo aquele que possui menor valor ficcional, ficando fora de eixo narrativo quando constrói situações mais surreais ao interagir com situações de universo mais real.

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