Festival de Gramado 2020 | Crítica: “Todos os Mortos”

Festival de Gramado 2020 | Crítica: “Todos os Mortos”

Em “Todos os Mortos”, da bandeja de prata, secular ao colonialismo que serve às famílias brancas de classe dominante, verborrágica e católica, se vê nas alças um universo que não sentia na boca a liberdade em sua concepção total. O amargo sentimento de não-pertencimento histórico ecoa nas paredes e no silêncio.

Marcando a primeira colaboração entre os cineastas Marco Dutra – parceiro audiovisual de Juliana Rojas -, (As Boas Maneiras, Trabalhar Cansa) e Caetano Gotardo (O Que se Move), “Todos os Mortos” remonta historicamente 10 anos após a Independência do Brasil e o fim da escravidão no país. Duas famílias são o centro das personagens e do roteiro: a família Souza e a família Nascimento.

A primeira, burguesa e branca, mantida pelas matriarcas donas de fazenda de café da época, se veem em crise financeira e pessoal quando a remanescente serviçal Josefina Nascimento falece. Sua morte inicia reações de luto nas três mulheres da casa: Isabel (Thaia Perez), Maria (Clarissa Kiste) e Ana (Carolina Bianchi).

Ao desencadeamento das penumbras do fim da família, as três tentam restaurar o alicerce burguês, procurando pela antiga escrava da casa Iná (Mawusi Tulani) para “conversar com os mortos”, em uma manifestação ignorante às religiões de matriz africana. Gotardo e Dutra exploram uma quebra temporal para identificar que ainda há sintomas remanescentes, durante um pulo na linha do tempo do país. As locações externas pontuam esses eventos históricos, como as Igrejas Católicas cedendo seus tetos às comunidades negras, as casas de costuras mantidas pelas mulheres negras, que além da rede de serviços que não mais dependiam dos patrões brancos, ainda eram locais onde os libertos realizam suas quizumbas, seus ritos e festas.

Iná vive uma jornada como historiadora de seu próprio sangue. A identidade enquanto comunidade negra, escravizada por muito tempo e, com o fim da escravatura e transição política do Império para a República, queria entender seus papeis sociais sem um controle racista. Enquanto a protagonista da família Nascimento busca ser o fim, a caçula da família Soares mantinha a peça impeditiva. Enquanto há em Maria, o tom primário de apagamento das religiões de matrizes africana e da intenção teatral nos ritos do Candomblé que Iná faria para restaurar a sanidade da matriarca Isabel, ao caminhar do segundo ato para o fim, ela recebe uma carga deslocada da culpa cristã, buscando uma redenção pelo preconceito religioso praticado.

Em Maria, há um núcleo narrativo que repercute o sentido da educação e da socialização branca. Diretora e professora de um colégio, aplicava rigidez nos ensinamentos às alunas, que viam pela primeira vez uma menina negra frequentar este espaço. Nos diálogos com Iná, o contraste de sua verborragia e eloquência, como um ser portador de sabedoria e responsabilidade. Mas seu conflito também se ampara na dificuldade em aceitar o fim da história regente.

Montam também na personagem de Ana o único ponto de não-ruptura desse tempo. Alguém que não concebeu as mudanças e o que universo que dominava já não tinha tanto controle. Sua personagem utiliza da cultura de quem explorou para entender quem são estes que não foram embora. A leitura do livro de Cruz e Sousa, poeta romancista negro da época, participante ativo da luta abolicionista na década anterior ao presente do filme. A figura paternalista e escravocrata remanesce na jovem ex-sinhá, buscando fins que justificassem uma abrupta rachadura na história.

“Todos os Mortos” viabiliza um documento espaço-temporal do racismo e do apagamento da cultura e identidade negra no país, com as consequências da colonização portuguesa e do fim de seu Império reverberando pelo século XXI. No entanto, perde-se tempo em uma estilização vilanesca que já se incumbia na mise-en-scene histórica, com morosidade que poderia ser melhor decupada.

“Todos os Mortos” faz parte da programação do 48º Festival de Gramado, que acontece do dia 18 até o dia 26 de setembro, com transmissões no Canal Brasil e no streaming do Canal Brasil simultaneamente.

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