Festival de Gramado 2020 | Crítica: “Um Animal Amarelo”

Festival de Gramado 2020 | Crítica: “Um Animal Amarelo”

Um rito de passagem em “Um Animal Amarelo”, de mesma língua-mãe, mas de identidades distintas, é a narração épica deste símbolo histórico que vagou por terras longevas, registrou o particular de cada terra e ainda sim, entendeu que faz parte de todas elas; ao mesmo tempo, a todo momento.

O longa-metragem de Felipe Bragança tem como personagem principal Fernando (Higor Campagnaro), um cineasta falido, mal de orçamento e de perspectivas até mesmo mundanas. Herda em sua árvore genealógica um item curioso, quase xamanístico. Além deste, recebe a imagem de um totem, um patrimônio do sobrenome que o acompanha em todas as suas jornadas, e ainda a voz de uma das personagens, que funciona como uma espécie de narradora em voz ativa, preparando uma forma metalinguística da fábula.

De decupação episódica, “Um Animal Amarelo” segue na narrativa acontecimentos de linearidade narrativa, mas sem a necessidade do tempo contínuo. A primeira parte dialoga com o passado de Fernando, mostra a vida de seu avô, Sebastião (Herson Capri), morador de um pequeno casebre, isolado. Vivia com seu namorado moçambicano e era o portador original deste item que permaneceria no inventário ao neto.

De seu falecimento, segue agora a segunda parte, na adolescência de Fernando. Este, iniciando à puberdade e aos sentimentos do amor, passa pela festinha contando sobre a descoberta e sobre o item para o “primeiro amor de sua vida”. Já nesta cena, nos primeiros estágios interativamente sociais em sua vida, Fernando permeia-se um eu-lírico, alguém idiossincrático.

Esta principal característica toma de assalto sua vida a partir dos próximos atos, que foca sua vida adulta. Decerto do filme que deseja fazer sobre seu avô e das origens de sua linha genealógica, busca alguns contatos ainda no Brasil para rodá-lo. O deslocamento remonta-se no espaço próprio, fazendo ser um homem quase desprezível.

As jornadas que assume individualmente, partindo para Moçambique atrás da história de Sebastião, é onde a caricatura tragicômica de “Um Animal Amarelo” quase ameaça o equilíbrio que havia nos primeiros capítulos do filme. Via-se o sujeito branco perdido e insano vagando pelas pequenas comunidades, de mineradores, negros de terra no rosto após cavar pedras preciosas.

Este desequilíbrio dos tons é normalizado após a aparição da personagem-narrador. Contrabandista de pedras preciosas, dona dos meios de produção não-convencionais, materializando nos discursos e na mini hierarquia, uma relação de conquista e dominância, revertendo o colonialismo português à Moçambique.

A escolha que “Um Animal Amarelo” assume no componente histórico transatlântico acompanha um modelo mais poético e humorizado das situações vividas por Fernando. Ele vira só um espectador dos acasos e das conivências dominantes do continente Europeu ao Africano e Latino-americano, na narrativa que trata da busca pela identidade como uma dor incurável, apenas controlada. Em uma passagem, a personagem-narrador diz que a doença que mais faz doer nos corpos é a memória.

E na busca pelas memórias de seu sobrenome, de sua criação e de sua autoria, Fernando iça um barco jogado ao rumo da história.

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