Festival Ecrã 2020 | Crítica: “Cavalo”

Festival Ecrã 2020 | Crítica: “Cavalo”

Ao discutir o cinema nacional, lembram-se de acontecimentos históricos do Brasil, que acentua em sua linha do tempo, o panorama do audiovisual do País. Na metade da década de 90, via-se o que é nomenclatura hoje como a “retomada do cinema”. Leis de incentivo fiscal, editais, fundos setoriais e agências e órgãos reguladores. Para o Estado de Alagoas, “Cavalo” é mais do que uma produção riquíssima na cultura local e na ancestralidade histórica do Brasil; é um marco histórico, uma manifestação artística. O primeiro filme realizado e produzido através de edital da Prefeitura de Maceió.

Com uma experimentação audiovisual híbrida, os diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles apresentam sete personagens, sete cidadãos alagoanos, com sete corpos distintos. Através do teatro, da dança e da força motriz religiosa, a obra cria uma identidade que toma dinâmica única ao longo de seu processo de decupagem. A montagem cria uma narrativa episódica, onde a cada parte, um corpo se insere na descoberta inconsciente de si mesmo.

Os primeiros minutos de “Cavalo” colocam em tela um texto, que fala sobre a criação do mundo e do homem pela religião do Candomblé. Os orixás, os rituais evocativos da lama, da terra e da água, o sopro da vida. É a ignição que apruma os endereços das personagens em rumo a sua própria existência física, mental e espiritual. A composição híbrida dos gêneros se dá quando ela a “ficção” se quebra, assumindo uma direção documentarista, mais jornalística e reativa, criando um direcionamento mais controlado das personagens e da narrativa, mas sem ocasionar integralmente as cenas.

Werner, um dos diretores, já havia decomposto esse estudo de entidades do Candomblé desde “Exú”, curta-metragem de 2012. Juntamente de Rafhael, buscou a sinergia histórica e política da religião de matriz africana, trazendo-a para uma liberdade poética e menos investigativa, mesmo que o gênero do documentário evoque esse senso “jornalístico”. A filmagem das cenas de dança provocam não só a experiência espiritual, mas a consciência que seu próprio corpo, negro e do Candomblé, é um instrumento político e lutador.

Não só no campo estético e imagético que se condensa o inventário de “Cavalo”. A música ganha espaço tradicional e moderno na obra. Desde os toques sagrados em atabaques para os Orixás, até o hip-hop e o trap alagoano. Ambos se conversam historicamente sobre a indumentária do corpo negro, de seu espaço, sua luta e sua história. Ao final, quando o break dance de uma das personagens está na cartela toda, sobe “Esú”, do rapper Baco Exú do Blues. Toda a letra, que fala da mitologia dos deuses, orixás e de Exu, a entidade mais “humana” entre todos eles, incorpora um diálogo com a narrativa de “Cavalo”. 

O longa-metragem também passeia por Maceió, capital alagoana. Do poder dos riachos e do mar, da modernização da linguagem na periferia através das batalhas de rap e do metrô, na pluralidade religiosa que se concentra na capital. Uma das cenas mais bonitas na auto descoberta de uma das personagens está sob acústica de uma música evangélica, ouvida por sua mãe, ancestral viva de mesmo sangue, mas diferente credo.

Evocativo e físico, “Cavalo” explora o corpo humano como um canalizador de múltiplas características. A identidade dentro dessas danças, a manifestação ancestral dos seres divinos na humanidade, constrói um conjunto de olhares que o mito do cavalo intervém: o anunciador da guerra na tradição dos povos africanos, o símbolo da realeza e da ostentação poderosa, também é o mediador das esferas espirituais e carnais.

“Cavalo” faz parte da programação do Festival Ecrã 2020, festival que reúne filmes, projetos, eventos, músicas e intervenções experimentais da arte brasileira. Gratuito e 100% online, o Festival Ecrã vai de 20 a 30 de agosto de 2020.

Confira o trailer:

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