Festival Ecrã 2020 | Crítica: “Sertânia”

Festival Ecrã 2020 | Crítica: “Sertânia”

Vê-se pouco no cinema brasileiro atual, momentos de homenagem a sua história audiovisual. Rica justamente por contornar a história do próprio país, a produção cinematográfica do Brasil é responsável por criar personagens que não são tão distantes do nosso próprio imaginário, da nossa própria mitologia e das crenças que cercam os povos que batiam o chão da terra vermelha, antes que o avanço do maquinário, das indústrias alocar-se-ão nas cidades afastadas das metrópoles. Em “Sertânia”, há o respiro.

Geraldo Sarno, cineasta que assina direção, roteiro e montagem de seu novo filme, “Sertânia”, cria uma linha temporal interna, que permeia a imaginação embasada no folclore, mas que está sempre contextualizada à história do País. Enquanto os resquícios da Guerra de Canudos assolavam o sertão da Bahia, criavam-se ainda mais os rombos da fome, da miséria e da solidão. Os latifundiários, donos de terras que exploravam os nativos e os migrantes, enfrentam a rebelião dos mesmos.

O início do filme nos põe Antão (Vertin Moura) à beira da morte e no início de seu delírio. A partir da quebra racional do cangaceiro, a narrativa nos conta sua origem e sua relação fraternal e autoritária com Capitão Jesuíno (Julio Adrião), líder encouraçado que serve tanto de guarnição, farol resistente contra as marés da infortuna vida emigrante de Antão, quanto de rompimento com suas próprias convicções.

O cinema do sertão, das narrativas que o cangaço gerou ao longo da história da arte, é irrigada aos montes em “Sertânia”. Pela escolha da fotografia preta e branca, não só como instrumento temporal e da própria homenagem, quanto para reforçar as agruras da secura, da fome e da revolução do cangaço. Antão e Jesuíno são espíritos de luta de Antônio Conselheiro, citado no filme como a esperança e aversão aos “macacos”. Historicamente, Glauber Rocha é o cineasta mais lembrado quando se imagina às sortes de um marginal do sertão nordestino em tela. Denunciante e rabugento, serviu de inspiração para o dinamismo de “Sertânia”; as contínuas interrupções de tempo, as iterações à imagem do Cristianismo, a fé (e sua decadência) como munição na ponta do rifle.

Em determinados momentos do filme, há quebras da ficção em dois aspectos: um documentário que serve como mantenedor da identidade nordestina, de sua história secular através de gerações sobreviventes à pobreza; e as quebras metalinguísticas, quando são mostradas as gravações do filme dentro de si próprio. Abruptas e oportunas, ganham figuras surreais de linguagem, cooperando também nos devaneios do protagonista.

Sarno monta uma crônica, um documento que exemplifica como o uso da história do Brasil conversa inerentemente com sua própria cultura; com as literaturas de cordéis, com os romances jornalísticos de Euclides da Cunha, com a estética da fome no cinema de Glauber Rocha, Anselmo Duarte. É um pedaço da própria história do Cinema Novo, acompanhando a influência do movimento cinematográfico nas situações históricos que não foram reparadas.

“Sertânia” faz parte da programação do Festival Ecrã 2020, festival que reúne filmes, projetos, eventos, músicas e intervenções experimentais da arte brasileira. Gratuito e 100% online, o Festival Ecrã vai de 20 a 30 de agosto de 2020.

Confira o trailer:

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