“Free Guy”, de Shawn Levy é uma comédia sincera sobre o universo dos videogames

“Free Guy”, de Shawn Levy é uma comédia sincera sobre o universo dos videogames

Ao longo dos anos presenciamos diversas franquias importantes ganhando suas versões cinematográficas, muitas delas foram um verdadeiro desperdício, porém, isso não é motivo de desistência. Existe uma luz no fim do túnel para quem quer ver o universo gamer nas grandes telas, o caminho mais plausível para isso é de fato abordar tudo que for possível desse âmbito, assim como foi em “Jogador Nº 1” (2018), e agora com “Free Guy“, de Shawn Levy, que liga o mundo real com o virtual e oferece uma produção que mostra que videogames é uma árvore que pode oferecer bons frutos para o cinema, mesmo sem precisar adaptar uma franquia de sucesso.

Provavelmente Guy (Ryan Reynolds) seria o último personagem que você gostaria de jogar em um videogame. Ele é caixa de um banco que fica em Free City e que é diariamente assaltado, ele toma o mesmo café todos os dias, usa as mesmas roupas e todas as manhãs deseja bom dia para seu peixinho dourado. Guy é um NPC (um personagem não jogável), vivendo sob o comando dos personagens armados que usam óculos escuros. Ele é feliz no meio que o obriga viver essa rotina repetitiva e inferior, isso até ele conhecer e se interessar pela Molotov Girl (Jodie Comer), uma personagem jogável e controlada por Millie, alguém do mundo real.

Millie é a jogadora por trás da Molotov Girl. Ela não joga Free City para se divertir, ela está em uma missão que envolve interesses pessoais. Antwan (Taika Waititi) pode ter roubado os dados de um jogo que ela desenvolveu com o seu parceiro Keys (Joe Keery), que trabalha atualmente para Antwan, para que o processo de Millie seja validade, ela precisa de provas que podem estar escondidas em algum lugar dentro de Free City. Ela conta com a ajuda de Guy, que inicialmente todos pensam que ele seja um usuário comum como qualquer outro.

O longa de Levy é dividido pelos dois interesses dos protagonistas Guy e Millie. O primeiro vem de uma personagem que está ali apenas para resolver questões pessoais, já Guy acaba se interessando afetivamente por Molotov, parece ser algo bobo, mas ele está realmente disposto em fazer de tudo para ser notado, inclusive elevar o seu nível, que acaba rendendo cenas curtas de ação e ao mesmo tempo proporciona um alter ego para ele: “O cara de camiseta azul”.

O roteiro da dupla Matt Lieberman e Zak Penn é criativo. Por mais que no começo do filme o ritmo seja lento para deixar o espectador imerso nessa experiência, a escrita de ambos despertam a curiosidade sobre esse universo onde tem carros sendo explodidos, bancos sendo roubados diariamente, gente se metralhando e os habitantes do local seguem suas vidas como se nada tivesse acontecendo. Isso nos faz pensar: “nossa, isso parece ser um jogo de videogame” e repentinamente descobrimos que de fato se trata de um jogo eletrônico. Além disso, por mais que as motivações do protagonista aparentam ser tolas, o roteiro consegue ligar perfeitamente os interesses que foram citados no paragrafo acima.

Free Guy” não está aqui para discutir e principalmente criticar a violência que a grande maioria dos jogos oferecem, em vez disso, ele coloca “o cara de camiseta azul” usando os mesmos ataques brutais que seus adversários utilizam. Por mais que aqui tudo seja centrado no jogador e não na mitologia do jogo, valeria a pena questionar por que Guy só resolve seus problemas por meio da violência, já que sua inteligência se destoa dos outros que fazem parte do mundo que vive.

Sobre a mitologia do universo, esqueça o que aconteceu em “Jogador Nº 1“, de Spielberg onde tivemos milhares de referencias voando em nossa cara e que faziam a gente assistir ao filme apontando para tela dizendo que encontrou determinado objeto que gostamos bastante. Apesar de existir referências, elas são pontuais em “Free Guy“, todas são capazes de ser identificadas por qualquer um que acompanhou a cultura pop nos últimos cinco anos. Por outro lado, a linguagem abordada aqui são os videogames, então notamos similaridades com Fortinite, Free Fire e entre outros jogos multiplayer, além disso, ainda contamos com a participação de streamers famosos.

Outro fator positivo do longa-metragem é a crítica que existe sobre um segundo título do jogo. Antwan sonha em produzir um Free City 2, mas alguns membros da seu estúdio de games discorda sobre a ocasião de existir outro jogo, mas como ele é o chefe e financia tudo, as vontades do vilão vivido por Taika prevalece. Podemos dizer que esse comportamento doentio de querer que exista a continuação de algo que já fez sucesso para render mais lucro também é notado na real indústria de games e principalmente na indústria do cinema.

Shawn Levy poderia ter seguido um caminho mais fácil e apenas criar um projeto que valorize e faça Reynolds brilhar e mostrar seu talento, afinal o nome dele segue em alta por conta de Deadpool e isso atrairia um público significante. Mas isso aqui vai além, o longa oferece boas piadas, boa ação, e um CGI que convence bem e que acaba se tornando tudo tão natural.

Esse filme não precisar ser tão bom quanto tantos outros, ele é apenas melhor do quê muita produção que o cinema tentou reproduzir de forma bem sucedida dos videogames. Talvez ele sirva de exemplo para futuros projetos ou então seja a esperança para quem sonha em fazer uma produção sobre jogos, invés de querer simular uma franquia de sucesso na tela do cinema, fale sobre ela e que seja tão concreta e real quanto Guy sente que é. Dito tudo isso, “Free Guy” é uma boa surpresa desse ano.

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