Se tratando de títulos considerados clássicos, sou tradicionalista em dizer que obras que carregam essas responsabilidades são intocáveis. Suas versões originais devem caminhar durante épocas para que todas as gerações entendam o porquê  de determinada obra carregar essa honraria de clássico. No entanto, “Adoráveis Mulheres” é considerado importante na literatura americana, e lógico que os cineastas não iriam perder tempo de adaptar o romance escrito por Louisa May Alcott. Depois de assistir a versão idealizada por Greta Gerwig, devo dizer que qualquer clássico pode ganhar um releitura, desde de que bem dirigido.

A versão mais recente de “Adoráveis Mulheres” não descaracteriza o que a obra literária propõe. Com personagens marcantes somado com um elenco de peso, temos a doméstica Meg (Emma Watson); a independente escritora Jo (Saoirse Ronan); a apaixonada por música Beth (Eliza Scanlen) e a ambiciosa Amy (Florence Pugh). As quatro irmãs e protagonistas, transmitem as dificuldades e as lutas que todas mulheres compartilham durante o dia a dia. Todas possuem seus sonhos, tem medo de viver, porém, não deixam de batalhar. Elas são criadas por sua mãe Marmee (Laura Dern) e o pai capelão que se encontra na guerra (Bob Odenkirk).

Entre as quatro irmãs, Jo é a que transborda o sentimento de liberdade que toda mulher deseja ter. Ela quer ser autônoma, enquanto suas irmãs passam por diferentes caminhos. Meg sonha se casar e ter uma família, Beth pode ser considerada a mais inofensível e ingênua de todas, e Amy.. bem, Amy é uma incógnita. Os homens também estão presentes. O professor John Brooke (James Norton), o vizinho rico, Sr. Laurence (Chris Cooper), e seu neto Thetodore Laurence (Timothée Chalamet), que tem interesse por Jo.

Devo dizer que cada característica das personagens, são entregues divinamente bem. Pugh consegue fazer um Amy que cria intrigas hilárias. Watson, mesmo sendo jovem consegue transmitir o semblante de uma irmã mais velha. Já Scanlen, tem uma personagem sem tantas exigências, no qual as vezes passa desapercebida em alguns momentos, mas se tratando da timidez de Beth, isso pode ser considerado algo bom na atuação da jovem atriz. Gerwig nos fez o favor de juntar as duas estrelas do seu primeiro longa, “Lady Bird“. Chalamet consegue fazer que seu personagem seja atraente, atrapalhado e por determinadas vezes, tolo. Já Ronan, bem ela é a melhor coisa que tem na projeção. “O longa é dela”, e ela transparece todas as emoções que sua personagem possui, sendo assim uma verdadeira inspiração.

O única ponto que pode ser dito da trama, é de que Jo é a representação ideal para toda mulher que almeja a independência. Em determinado ponto do longa-metragem, a escritora discute sobre possuir o direito autoral sobre seu próprio livro. Isso requer estabilidade financeira. Ao conseguir, ela poderá “provar” para sua Tia March (Meryl Streep), vitima de uma sociedade machista, que mulher tem outros meios de conseguir uma dependência econômica além do casamento ou administrar um bordel. Acho que isso mostra o quão forte o discurso em favor das mulheres se encontra  presente no roteiro do filme escrito pela própria cineasta.

Greta Gerwig decide não seguir uma estrutura linear em sua direção. A todo tempo vemos a história se alternando entre presente e passado, onde nos mostra determinados acontecimento na vida das irmãs. O passado é agradante, alegre, colorido e divertido, diferente do presente, simbolizado por cores mais pesadas, onde a tristeza prevalece em alguns momentos. Isso tudo fica claro graças ao diretor de fotografia Yorick Le Saux. Sem falar que o figurino costurado por Jacqueline Durran é outra coisa que favorece a película.

É de ficar de queixo caído com a ascensão de Gerwig como diretora. Em 2017 ela estreia com um projeto jovial e contemporâneo, e agora nos vem com um remake de época, com uma linguagem altamente presente aos dias atuais. Isso mostra que o leque de direção dela é imenso e que tem muito a nos oferecer. Vale lembrar que “Adoráveis Mulheres” é apenas o segundo trabalho da cineasta americana nascida na Califórnia. Com uma carreira de atriz bem estabilizada, Greta trabalhou com nomes como o de Baumbach, Mills, Larraín e Anderson. Fica evidente determinadas influências em sua direção. Quando nos minutos iniciais do filme, Jo começa a correr pela rua, fica clara a homenagem ao queridinho “Frances Ha”.

Essa versão mais recente de “Adoráveis Mulheres“, por Greta Gerwig transmite perfeitamente os laços entre irmãs. Além disso expressa através de Jo que toda mulher pode correr atrás dos seus sonhos, seja qual ele for. O filme é moderno, ambicioso e capaz de fazer qualquer um chorar. Todo remake deveria ser como esse. Corajoso, bem dirigido e trazer uma mensagem positiva para uma nova geração. Nesse caso, a mensagem aqui está embutida na obra e na artista, que também pode servir de inspirações para cineastas mulheres. Ainda bem que a carreira de Gerwig como diretora de cinema está apenas começando.


Publicado por Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.