Marighella aponta a câmera para a ação em dois locais temporais

Marighella aponta a câmera para a ação em dois locais temporais

Marighella é uma figura pública por ser uma figura política. E, se tratando da conjectura de que qualquer ação que façamos hoje (e nos anos 60) é política, nossas intenções nas relações familiares e de luta – armada ou não -, se concentram também sob esse mesmo direcionamento.

Entretanto, Wagner Moura guia seu Marighella (Seu Jorge) por 2 tecidos temporais; o da década de 60, pós golpe militar e de hoje. No entanto, esse fio no espaço-tempo é frágil e a intenção, mesmo que ela exista e seja compreensível, pode tornar esse olhar sob Carlos Marighella anacrônico e não compreender sua totalidade nesses 2 tempos.

Adaptado da biografia de Mário Magalhães “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, a obra cinematográfica se apropria de recortes temporais para ditar a força revolucionária do guerrilheiro, mas também para enlaçar a árvore genealógica e de relacionamentos de Marighella. O começo do filme mostra 1964, ano-chave da história da ditadura militar no Brasil, onde havia sido dado o golpe militar financiando e cooperado pelo imperialismo norte-americano, derrubando João Goulart, presidente democraticamente eleito.

Wagner Moura adapta o conceito literal do início da biografia: “No começo, tudo era ação“. O plano sequência de Marighella e membros do Partido Comunista Brasileiro infiltrados em um trem que levava armamento do Exército Brasileiro é construído de maneira fluída, trazendo em cena não só a organização do Partido, mas já principiando as motivações das ações guerrilheiras: a tomada das armas em prol da revolução armada, único meio de defender a classe trabalhadora e confrontar o governo ditatorial.

A câmera se assemelha a um trilho, passando de vagão em vagão e pinçando as peças que fazem parte da estratégia. A assinatura motivacional é finalizada ao som de Chico Science e Nação Zumbi. Banditismo por uma questão de necessidade, banditismo por uma questão de classe é o diálogo musicado que apresenta a ficha de Marighella; não há outra solução que não se rebelar e pegar em armas, como fizeram Emiliano Zapata, Antônio Conselheiro, Augusto César Sandino e Zumbi dos Palmares.

Dentro desse recorte temporal interno ao longa-metragem, saltamos algumas vezes entre 1964 e 1968, já no começo encaminhando a história para a expulsão de Marighella do PCB e, depois, a fundação da ALN (Ação Libertadora Nacional). Dentro da frente, o líder tem como um dos guias ideológicos Branco/Velho (Luiz Carlos Vasconcelos), que faz referência a Joaquim Câmara Ferreira, também ex-membro do Partido Comunista Brasileiro e da ALN. É com ele que são tidas as iniciações estratégicas e as ideias, seja com os outros membros da Aliança ou com pontes estratégicas externas, como Jorge Salles (Herson Capri) dono de um jornal e também membro do partido, que terá como função dar o espaço midiático à Marighella sem o viés censor do Governo ou os Freis Dominicanos, ancorado pelo Frei Henrique (Pastor Henrique Vieira).

Moura aliás sabe conversar com esses territórios fora da guerrilha, mas também possui assertividade na retratação dos membros da linha de frente da ALN, como Humberto (Humberto Carrão), Jorge (Jorge Paz) e Bella (Bella Camero). O primeiro, como uma espécie de anseio juvenil, quase escorregando ao deslize da inconsequência o que poderia retirar crédito de sua motivação; Já Jorge é o membro que Wagner usa para explorar as concessões de vida em prol da luta armada: pai de família que precisa esconder sua esposa, filhos e parentes para não expô-los aos agentes de segurança. E Bella como uma manutenção da guerrilha e da revolução, pelo olhar e pela força feminina que se mantém a necessidade de lutar.

E nas personagens femininas que Marighella sabe costurar a pessoalidade de seu protagonista: a mãe de Carlinhos, seu único filho, interpretada pela neta de Carlos, Maria Marighella. No papel de Elza, ela é uma das pontas do elo amoroso na vida retratada do militante, sendo a outra a última companheira, Clara (Adriana Esteves). Ambas mulheres não contracenam ao longo de quase 3 horas, mas pela montagem, são inseridas na narrativa junto à Bella, como eixos que fundamentam o presente e o futuro da persona do guerrilheiro.

Porém, entendemos o seguinte cenário: Marighella é sobre a história de um homem cuja personalidade e intenções são caminhos para viabilizar o crescimento do sentimento de revolução: seja ela constituída pelo PCB e partidos de esquerda ou somente pela posição de defesa da democracia. Inevitavelmente, o longa-metragem iria conversar com o espectro político atual e é nessa tentativa de conjecturar ambos planos espaciais que o filme tem seu foco narrativo desregulado. Na figura do delegado Lúcio (Bruno Gagliasso), se mantém o mantenedor ditatorial: a figura que emana todo o racismo, fascismo e um esquisito sentimento de nacionalismo. Historicamente, o governo dos EUA cooperaram no golpe militar no Brasil (e em outros países da América Latina) com o intuito de cercear a crescente adesão ao comunismo.

No campo real, a história de Marighella é uma luta que bate nestes poderes externos e a intervenção estadunidense nos interesses do Estado Brasileiro são feitas por poucas figuras e por caracterizações que ficam na superfície banal. Claro que a localização de toda esta linha do tempo fica refém do recorte que a produção do filme determinou, mas acho que não haver a intenção de citar elementos importantes nesse mesmo recorte, como DOI-CODI ou DOPS centraliza a normalização de não culpar e apontar nominalmente os responsáveis pela barbárie cometida pelos agentes. A política de anistia brasileira compromete também por esse olhar.

Outro sentimento dúbio que emerge no filme – dentro dessa ruptura anacrônica – é o patriotismo. E nesse aceno ao Brasil de 2021 (ano de lançamento de Marighella após um embargo censor aplicado pela Ancine que o impediu de estrear 2 anos antes), é sentida uma intenção de resgatar os símbolos nacionais e a figura do Brasileiro. Muitos dizem que isso fora tomado pela Extrema-Direita hoje, mas que já em tempos ditatoriais, a abertura à indústria estadunidense e as intervenções imperialistas já davam a sensação da docilidade. Infelizmente, essa intenção não consegue se configurar como uma viabilização de luta.

Marighella, porém, sabe de sua potência e de sua importância narrativa e social. O alívio de poder lançar finalmente o filme, de fugir do cerceamento, criam quase uma simbiótica relação com o tempo em que o guerrilheiro urbano, apreciador de batidas de limão, fã de cantadores de feira, crítico de futebol em Copacabana – Marighella era amigo próximo de João Saldanha, técnico de futebol – e comunista viveu. Viveu e morreu e sua morte não fica como um aviso, muito distante disso. O fim do filme não ganha o tom pessimista de lutar contra algo maior; ele reverencia. Ele usa a música “Mil Faces de um Homem Leal”, dos Racionais MC’s quando os créditos sobem: as ondas da Rádio Libertadora anuncia o poder revolucionário de Carlos Marighella, um homem negro, pobre e de família sudanesa, com Seu Jorge sabendo que essa mútua consideração à respeito da figura do líder está centrada também nesses pontos. A luta de classes também é a luta do homem negro.

Marighella estreia dia 04 de Novembro nos cinemas.

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