Mostra Tiradentes SP 2020 | Crítica: Cabeça de Nêgo

Mostra Tiradentes SP 2020 | Crítica: Cabeça de Nêgo

Os episódios de reivindicações secundaristas, de estudantes que denunciam os sucateamentos e descaso das esferas municipais e governamentais com o ensino público, eclodiram no Brasil nos últimos anos. A mobilização se tornou mais prática e acessível com o poder viral das redes sociais, além das aproximações dialéticas que essas ferramentas e plataformas propiciam.

Cabeça de Nêgo”, de Déo Cardoso, investiga exatamente esse cenário, sem amarrar complexidades na narrativa, tonalizando um motor mais didático e ativo. O cineasta dispõe de pequenas modelos vilanizados e contextos históricos para mostrar o estudante Saulo (Lucas Limeira), que preside um Grêmio Estudantil.

Mas, essa informação isolada não diz muito sobre Saulo. Só que Déo abre seu longa-metragem em uma observação rítmica da personagem principal: da sua mochila, saem papéis lambe-lambe; ele retira uma arte que mostra Zumbi e Dandara dos Palmares, casal de negros revolucionários que lutaram contra a escravidão e colonialismo. A organização estudantil leva o sobrenome dos dois e traz o debate sobre Educação e Participação Popular.

Nos minutos inciais de “Cabeça de Nêgo”, fica visível que a personalidade de Saulo é a estrutura narrativa da obra e de como ela se comportará ao longo de seus quadros. Dentro da capital cearense, ele para em frente a uma parede. No lambe-lambe, há a professora Elaine (Jessica Ellen) como palestrante. É ela que inicia Saulo na literatura e na história do ativismo negro, dando a ele uma cópia de livro sobre os Panteras Negras, partido socialista revolucionário, fundado na década de 60, que protegia a comunidade afro-americana, além de reivindicar direitos civis e promover a proteção de seus integrantes, valorizando o traço histórico da cultura negra.

Em uma sala de aula, ele sofre um ato racista e, com isso, promove uma mobilização de greve dos alunos, além de criar um canal de denúncias, mostrando em vídeos e lives nas redes sociais as precárias condições que a escola se encontra; livros didáticos vencidos e focados na narrativa eurocêntrica branca, problema sanitários graves na cozinha como infestação de ratos e alimentos vencidos, infra-estrutura sem manutenção preventiva, entre outras condições ruins de estudo.

Disposto a não sair da sala de aula, é encorajado a partir das integrantes do Grêmio Estudantil e da professora Eliane a permanecer com seu ato político. Fazendo o câmbio dos tópicos do filme – ora sobre o racismo e a marginalização da juventude negra, ora sobre os conchavos de um controle da classe burguesa na Secretaria Estudantil (aqui, impõe-se um didatismo mais evidente, quase caricatural, mas sua intenção não anula as emoções que as passagens contam) -, “Cabeça de Nêgo” dita uma escalada de eventos que servem para acentuar estes dois paradigmas em sua narrativa.

Na música escrita e cantada pelo falecido rapper paulistano Sabotage, junto de Daniel Ganjaman pelo selo Instituto, de título homônimo do filme de Déo Cardoso, há o trecho:

“Nego não para no tempo

Teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro

Maracutaia lá no norte, o mano vai viver

Maracutaia segue a seco, um dia irá chover

Sabe por quê?”

Anuncia-se que a história do negro é uma história de luta e sobrevivência. Enquanto devora a cópia cedida pela professora-tutora, Saulo é acompanhado em uma montagem de tom e ritmo: a música de outro rapper, o Emicida (Sorrisos e Lágrimas) entrecorta totalmente o som orgânico e na parede às costas de Saulo, imagens de Angela Davis, Fred Hampton, Marthin Luther King Jr, Malcolm X e outros símbolos da luta anti-racista e classista da história do mundo.

Cabeça de Nêgo” assemelha o seu ato final ao caráter documental, tanto que insere registros jornalísticos e de civis das manifestações dos estudantes contra reformas administrativas, cortes de gastos e precariedade do ensino público. A sequência dos atos, seus gritos e expressões, a violência opressiva da polícia militar.

Clara e simples, sua intenção enquanto obra ficcional e documento histórico, é percorrida em uma pauta fácil. Mas isto não interrompe seu gradativo impacto.

O filme faz parte da programação da Mostra Tiradentes SP, disponível até o dia 07 de outubro, 100% gratuito e online. Para conhecer a mostra, acesse o site do Sesc Digital.


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