Nia DaCosta é contemporânea ao trazer de volta “A Lenda de Candyman”

Nia DaCosta é contemporânea ao trazer de volta “A Lenda de Candyman”

Provavelmente você já ouviu a história de alguma lenda urbana de um local que já viveu ou até mesmo visitou. Por onde passamos é fácil de esbarramos com esses contos. Talvez, para o público atual, “Candyman“, dos anos 90, dirigido por Bernard Rose seja uma lenda cinematográfica, principalmente se levarmos em consideração a quantidade de elogios que a produção possui. “A Lenda de Candyman“, dirigido por Nia DaCosta surge exatamente para dar continuidade a uma história que estava esquecida, mas como sabemos, lendas jamais serão esquecidas, por isso que elas ressurgem. Porém, existe mais do quê um ar de modernidade para a versão de 2021, já que Nia adiciona uma linguagem atual e necessário para ser discutida dentro do gênero de horror.

Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II), é um artista talentoso, mas pouco apreciado. Ele vive com sua namorada, Brianna (Teyonah Parris), diretora de uma galeria de arte, eles vivem juntos em um prédio de luxo em Chicago. Após ouvir uma simples história de terror em uma reunião de amigos, McCoy decide investigar o caso que assombrou a antiga vizinhança de Cabrini Green e decide tirar proveito através da sua arte. Entusiasmado com tudo que descobriu, Anthony vai além e desenterra algo mais perturbador. Algo que aqueles que viveram na região quase abandonada, ainda queriam manter enterrado.

Nia DeCosta faz com “Candyman” um trabalho autoral. Voltada mais para um cinema independente, a cineasta americana vai de contramão de tudo que vem surgindo de mais popular dentro do gênero de terror. “A Lenda de Candyman” tem um ritmo desacelerado, que talvez possibilite pensarmos que na primeira meia hora de projeção tudo que estamos assistindo é apenas uma introdução e que DaCosta esteja preparando seu público para algo mais frenético, mas não. As coisas no filme da Nia acontecem no ritmo lento que ela deseja, como a ferida feita por uma picada de abelha na mão do protagonista que vai se agravando gradativamente.

Como o longa se trata sobre um mito urbano, Nia DaCosta constrói uma atmosfera que encaixa bem com a história que acontece. Ela conta com ajuda da trilha sonora imponente de Michael Babcock para criar um clima de tensão ideal. Se o longa-metragem nos poupa de sustos, pode ter certeza que ele não nos poupa daquele frio na barriga ou daquela angustia de que qualquer momento pode acontecer algo tenso. Porém, tudo aqui é feito de forma limpa, quando os primeiros espantos ocorrem, notamos claramente o gore implementado, mas logo depois, em outras sequencias que envolve mortes, tudo se torna subjetivo e a direção obriga imaginarmos como um determinado personagem está sendo ceifado pelo gancho de Candyman.

Impressionante como algumas vezes temos a cidade de Chicago sendo filmada com um plano bem aberto,  isso torna perfeito para  quê a película seja assistida em uma tela grande, além disso, serve para buscarmos detalhes. Em uma cena essa técnica é usada de maneira eficaz quando a câmera se afasta lentamente da ação capturando tudo à distância. Literalmente o espectador tem que examinar muito bem o que ocorre em tela para identificar toda a hostilidade que sucede no quadro. Como foi dito no paragrafo acima, toda a violência retratada no filme é feita cuidadosamente.

O que é mais ousado em “A Lenda de Candyman” é o roteiro escrito pela própria Nia, Win Rosenfeld e claro, já que o projeto se trata de um terror que se dispõe de criticas sociais, não tem ninguém melhor do quê Jordan Peele para fazer isso como ele faz, então o nome dele não poderia ficar de fora. “Candyman” é sobre a luta racial. De maneira contida, mas ainda é, porquê o foco é desenvolver uma história de horror bem estruturada com inicio, meio e fim. A história contata para Anthony McCoy no começo da projeção é a mesma que já conhecemos, injustiças que a população afrodescendente sofre no decorrer dos anos. Todo o conto de terror passado em boca a boca acrescenta o drama que uma vida negra já viveu.

Mas nem tudo é perfeito nesse roteiro, essa tal história que é motivo para desencadear todos os acontecimentos acaba se tornando bastante pessoal para McCoy, que soa como uma forte coincidência desagradável. Pessoalmente falando, isso não me encanta, no entanto, não deixa de ser ousado. Outro ponto curioso é a não vilanização do objeto candyman apesar do personagem fazer coisas terríveis, há um momento que ocorre algo que humaniza o ser e faz a gente ter uma relação/sentimento diferente do que temos com alguns personagens como Jason, Freddy Krueger e Michael Myers.

“Os negros não precisam invocar merda nenhuma”, diz um personagem nos primeiros minutos de filme, mas quando Candyman atinge seu ápice mais violento, no final a diretora nos mostra que não apenas necessitamos invocar o que tememos, mas precisamos encontrar uma solução para enfrentar nossos maiores medos. Nia DaCosta é um daqueles nomes para ficarmos atentos, ainda mais quando o nome dela está vinculado para dirigir a nova versão de “Dormindo com o Inimigo”, um clássico dos anos noventa, e até mesmo  a sequência de “Capitã Marvel”, um projeto de grande orçamento do Disney Studios.

ARTIGOS RELACIONADOS