“Nós”: Jordan Peele transforma o terror em crítica social

Depois de ter alcançado sucesso absoluto com “Corra!“, filme no qual lhe garantiu o Oscar na categoria de “Roteiro Original”, Jordan Peele se reafirma como diretor e nos proporciona seu mais novo longa-metragem, “Nós“. Um filme ainda mais aterrorizante do quê seu primeiro trabalho.

O longa tem seu início em 1986, onde na infância, Adelaide Wilson (Madison Curry) se depara com uma casa de espelhos abaixo de um píer em Santa Cruz, na Califórnia. A criança aparenta está encantada, mas em questão de segundos se aterroriza ao ver algo amedrontador no qual a deixa traumatizada. Cortando para os dias atuais, uma Adelaide já adulta (Lupita Nyong’o), mas tendo que conviver com o seu pânico, ela retorna para Santa Cruz nas férias de verão com sua família. Mas o que era para ser um momento tranquilo em família, se desmorona com o regresso da coisa que ela viu há 30 anos atrás.

 

Claramente Jordan Peele tem muito o quê dizer em seu segundo filme. A projeção está cheia de particularidades da cultura americana, características essas nas quais não são exclusividade deles, entretanto fica claro o tipo de chamado que o segundanista quer difundir. Há situações de cotidiano presente no filme em que Peele consegue transmitir bem. Em uma cena, Adelaide tenta explicar para seu marido, Gabe, vivido por Winston Duke, o quê ela viu na infância, mas ele não acredita nela, ou até mesmo em um momento posterior, onde sua lógica de sobrevivência é minada pela insistência dele em ser o único a dar a palavra final. Algo que está bem mascarado por conta do personagem de Duke ser o alívio cômico da trama. Um dos fatores positivos do longa, é que Peele consegue conceber um equilíbrio perfeito entre o terror e humor.

Há inúmeras cenas que seguem este ritmo, possuindo uma ideia amplamente relacionada à tese de Peele sobre divisão e o custo do que seria necessário para alcançar a harmonia. Ele consegue encontrar essa coesão em “Nós“, exemplo disso é a sequência na qual a família está reunida no carro e Zora Wilson (Shahadi Wright Joesph), filha mais velha, pergunta: “vamos ignorar os problemas do mundo?”, depois de ouvir uma manchete sobre flúor na água. Minutos depois o rádio toca “I Got 5 On It“, de Luniz. A família entra no clima e todos cantam juntos, nos mostrando que é mais interessante falar sobre assuntos descontraídos com a família do que discutir sobre política, racismo meio ambiente e entre outras causas sociais.

 

Seguindo nessa linha, Peele estava se encaminhando para a perfeição ao construir todos esses detalhes e discussões, mas ele trava isso ao fazer um de seus personagens dizer, “nós somos americanos“. Sabendo que o filme serve como crítica social, não era necessário deixar tão exposto dessa maneira, soando como autoexplicativo, tirando o poder do público interpretar a mensagem que ele quer passar.

O longa é um show à parte. Nele existem sequências memoráveis o tornando possível de confundir o filme de terror que ele é a um thriller de invasão domiciliar. Sim, a primeira coisa que vem na cabeça é “Violência Gratuita“, de Michael Haneke.

 

A cena da invasão é icônica, nela temos violência, terror, e como já dito, até humor da parte do personagem vivido por Duke. Falando dos atores, Shahadi Wright Joesph é um “achado”, a atriz têm um papel físico e até expressivo. Ficaremos atentos como ela vai desempenhar seu papel vocal como Nala na nova versão de “Rei Leão”.

Sem dúvidas Lupita Nyong’o ganha destaque aqui. Ao assistir “Nós“, parece que a atriz nasceu para o gênero de horror. Suas expressões faciais ajudam o espectador acreditar no pânico que sua personagem está vivendo e Jordan Peele consegue extrair tudo o que ela tem para oferecer. Evan Alex é solido em seu desempenho e Elisabeth Moss e Tim Heidecker são divertidos em seus breves aparições. 

A engrenagem do filme faz tudo funcionar de forma coerente. A fotografia escura de Mike Gioulakis casa com a trilha sonora pesada e marcante de Michael Abels, que também tem “Nós” como seu segundo trabalho como compositor. 

Dirigindo, roteirizando e até mesmo produzindo, temos Jordan Peele. Podemos definir que ele é um cineasta palpável. Peele construiu sua carreira inteira na comédia, e chega ser curioso como ele domina o gênero de horror tão bem, lembrando que “Nós” é apenas seu segundo trabalho como diretor.

Encerrar suas obras de forma categórica está se tornando uma característica peculiar do cineasta. Foi assim com “Corra!“, oferecendo um final alternativo para o seu público. Já em “Nós” ele consegue pegar todos de surpresa no final da projeção. Cabe a você decidir se é válido ou não.

Graças a esse cineasta que encontrou sua natureza particular dentro do terror, “Nós” se destoa de tudo que vem sendo feito no gênero. Em meio a um diálogo do filme, se debate as coincidências dos acontecimentos que vem ocorrendo, uma coisa podemos ter certeza, coincidência não é a palavra certa para definir a promissora carreira de Jordan Peele.

Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.

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