“O Homem do Norte”, de Robert Eggers é um conto nórdico ousado e brutal

“O Homem do Norte”, de Robert Eggers é um conto nórdico ousado e brutal

Podemos afirmar que a mitologia nórdica é bem servida no audiovisual em termos de quantidade. É fácil listar conteúdos sobre o tema: As séries “Vikings” e “Ragnarok”, e os filmes “Valhalla – A Lenda de Thor” e “Thor”, esse que estamos acompanhando desde de 2011 no universo cinematográfico da Marvel. Todos possuem suas peculiaridades e agrada seu público de alguma maneira. Entretanto, Robert Eggers, famoso por ter uma ambivalência estética pessoal em seus filmes, dirige “O Homem do Norte“, o novo conto nórdico que pode ser considerado um clássico no mundo viking por se diferenciar das obras citadas. A nova produção do cineasta é capaz agradar o fã do universo nórdico e principalmente aquele expectador que não entende nada da mitologia, mas está ali para uma boa produção que envolve ação, sangue e suor.

O jovem príncipe Amleth (Oscar Novak) está prestes a se tornar um homem quando seu pai, o rei Aurvandil (Ethan Hawke) é brutalmente assassinado por seu tio, Fjölnir (Claes Bang), que sequestra a mãe do garoto, a rainha Gudrún (Nicole Kidman). Fugindo de seu reino de barco, a criança jura vingança. Duas décadas depois, Amleth (Alexander Skarsgård) tornou-se um guerreiro viking furioso, um autêntico berserker, invadindo aldeias eslavas impiedosamente. Numa delas, uma vidente o faz relembrar seu juramento: vingar seu pai, salvar sua mãe, matar seu tio. A bordo de um navio de escravos rumo à Islândia, Amleth se infiltra na fazenda do tio com a ajuda de Olga (Anya Taylor-Joy), uma escrava eslava, e coloca em ação o plano para honrar seu juramento.

Apesar de parecer com qualquer material viking já visto, e digo isso na questão da violência, “O Homem do Norte” segue possuindo fielmente às sensibilidades excêntricas de Eggers, que faz um contraste das imagens de corpos brutalmente abatidos após uma batalha com o misticismo nórdico, premonições alarmantes ou divindades antigas. Robert soube aproveitar bem alguns contos da mitologia e usar a favor do seu novo trabalho.

A originalidade estética torna “O Homem do Norte” em uma produção de um grande orçamento que reinterpreta contos antigos e que acaba semelhando esse filme com “O Cavaleiro Verde“, de David Lowery. Ambos os filmes aproveitam seu design de produção grandioso, cenários imenso e elencos repletos de estrelas para moldar experiências que transcendem o que o público espera de um enorme espetáculo. O parceiro de longa datas de Eggers, o diretor de fotografia Jarin Blaschke, que fotografou todos os três filmes do cineasta ilumina esse longa-metragem propositalmente com o brilho das chamas contra a escuridão da noite, fazendo disso uma técnica recorrente. O exemplo disso podemos notar em uma cena que mostra um grupo de guerreiros expondo suas selvageria ao redor de uma fogueira, ou então na cena de uma batalha em meio a rios de lava que acaba transformando os atores envolvidos em silhuetas.

Além dos múltiplos planos abertos que registram a imensidão do terreno que a história se passa, a fotografia de Blaschke também é notável por sua abordagem com a luz do luar. Fica a exemplo das poucas cenas amorosas que a produção possui. O filme é separado em capítulos que divide muito bem cada acontecimento. Para ilustrar ainda mais a divisão de capítulos, é possível notar a evolução da trilha sonora na batida de tambores que nos prepara para uma guerra. A música composta por Robin Carolan e Sebastian Gainsborough é imponente, marcante e gera um sentimento de suspense dando a impressão de que ela nos guia para algo maior.

O roteiro escrito por Eggers e co-escrito por Sigurjón Birgir Sigurðsson (que também escreveu “Lamb“) é muito direto e simples com as funções de cada personagem da trama. O traidor trai e toma o reinado, a escrava ajuda o protagonista, a vidente vivida pela estrela da música islandesa Bjork faz Amleth lembrar do seu destino, e ele vai atrás de vingança. No geral, parece uma simples história sobre vingança como qualquer outra, porém existe uma reviravolta nesse roteiro que consegue surpreender de maneira positiva. Esse plot twist envolve a personagem de Kidman. Em algum momento quando a estrela maior do filme se coloca na posição de escravo disfarçado, parece que a história vai se tratar sobre escravidão e o arrependimento de escravizar pessoas, porém, Amleth não ganha essa lição.

Particularmente falando, acho que Alexander Skarsgård está longe de ser um ator primordial, porém, acompanhado de um bom diretor e um bom roteiro, “O Homem do Norte” chega para ser o melhor papel da carreira do ator até o momento. Ele está literalmente irreconhecível, sua atuação física está surpreendente e seus músculos parecem uma armadura. Além disso, Amleth é um ser selvagem, e Skarsgård conseguiu entregar toda a selvageria de um viking.

Se tratando dos outros atores. Anya Taylor-Joy consegue mostrar o motivo de ser uma das melhores atrizes dessa geração com pouco tempo de tela e com um papel inferior. Claes Bang surpreende positivamente tanto no físico quanto no emocional quando Fjölnir é golpeado de maneira direta e indiretamente. Acho que não é preciso fazer nenhum comentário sobre Willem Dafoe, sabendo que esse ser é capaz de interpretar qualquer objeto que não possui vida. Com isso, Eggers já deixou evidente que tem um núcleo favorito de atores e atrizes que ele gosta de trabalhar.

O Homem do Norte” é um feito incrível para o cinema. Robert Eggers se mostrou versátil e capaz de dirigir qualquer filme independente do gênero. Se “A Bruxa” foi um terror e “O Farol” foi um drama, podemos considerar que seu terceiro trabalho é um filme de ação capaz de agradar a todos, justamente por ter também um pouco de misticismo, entretanto, o mais importante é saber que Eggers segue com seu estilho irreverente que nos proporciona bons filmes.

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