O intransponível afeto de Alfonso Cuarón em “Roma”

O novo longa-metragem de Alfonso Cuarón, “Roma“, que estreou na Netflix na última sexta-feira (14) e ainda contou com exibições em cinema nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, remarca o traquejo cinematográfico do cineasta mexicano em tratar dos afetos, das relações e da memória em um tortuoso e instável cenário

O ambiente do filme é 1971, um ano após a edição da Copa do Mundo no país fronteiriço aos Estados Unidos. O tri do Brasil, coroado pelo petardo cruzado de Carlos Alberto Torres. Na porta que separa os quartos de Paco e Toño, meninos da família abastada residente ao bairro alcunhado de “Roma”.

Passeando entre os cômodos, acordando Toño, Paco, Pepe e Sofi, a empregada Cléo. Jovem, a mesma permeia a casa com sua afeição aos filhos de um casal instável. O pai, médico, apresenta distância da mãe, a química e professora Sofia. Enquanto se torna longínquo o relacionamento dos patrões, Cleo e a outra empregada da família, Adela, falantes do dialeto mixteco, estendem as roupas no telhado do imóvel.

Pepe, o caçula dos meninos, deita em uma pequena plataforma de concreto. “Estou morto, não posso falar”, diz o menino, em uma poética manifestação de inocência. Cleo, cumprimenta sua juventude e abraça a ação infantil. Este é o ato primário que rege toda relação de carinho e sentimento que a empregada possui com os filhos do casal.

“Roma” também destrincha a personalidade de Cleo a partir de diversas pontuações; a irmandade com Adela é a principal, onde através dos diálogos, é contada a origem de ambas, um dos contextos sócio-políticos do México na década de 70, como o desenvolvimento rural e as consequências da reforma agrária, do começo do século.

Outro sentido na relação entre ambas é a irmandade, utilizada como artefato narrativo para cadenciar os problemas intersecionais que mulheres sofrem, independente de classe ou etnia. O maior deles, o abandono parental. Mesmo que a família ainda exerça esse papel dominante para com a empregada, ele fica mais cristalizado quando esse poder passa para a mulher da casa, Sofia.

Para observar como esse estigma afeta ambas, Cuarón racionaliza os efeitos individuais; enquanto o abandono da família por parte do patriarca inicia um ruído familiar, cria conflitos entre a mãe e os filhos e posiciona em estado frágil, para Cleo, esses sintomas são potencializados a partir de sua marginalização enquanto mulher, pobre e por conta de seu emprego, diminuta.

A cena em que a avó das crianças e mãe de Sofia a acompanha ao hospital e o mesmo pede informações sobre Cleo, as únicas passadas são os primeiros nomes e ocupação. A avó desconhece data de nascimento, informações clínicas, se há familiares vivas de sua empregada.

Após os eventos traumáticos de ambas, representadas por suas distâncias sociais enquanto exercícios de poder, “Roma” abstrai esse contexto e investe com maior finco na relação de Cleo com as crianças. O amor, a companhia, a querência da presença, o passeio com a família até a praia.

Todas são constatações afetivas da memória do cineasta com sua infância.  É importante validar que a observação de Cuarón em “Roma” sobre as relações empregatícias, principalmente pela informalidade e pela aproximação familiar, por mais debates que possam surgir, é importante considerar que se trata de um recorte da lembrança do diretor.

O filme não irrompe em ser um crítico das relações, partindo para uma justiça social, pois esse não é o foco. Há o debate, há a costura social nos principais momentos do filme, até mesmo em como finaliza o abandono sofrido por Cleo em meio às catarses das reformas estudantis à época, que sofreram gravíssima repressão policial e do governo recém iniciado de Luis Echeverria Alvarez.

São recortes que sempre existiram paralelamente com as relações dominantes e de poder. Enquanto Cleo se questiona os fins de sua família, da origem ameríndia, é ordenada a pegar chá e diversas outras coisas após receber declarações enormes de amor por parte dos filhos.

Impressiona como “Roma” observa um redor completo. Narra o afeto e o expõe como insólito, mas pratica a empatia. Ao mesmo tempo, identifica as questões sociais pertinentes sem santifica-las. Aliás, emaranhar a esse ponto e tratar o filme como desonesto em sua intenção é utilizar idealismos, cartilhas teóricas de ordem progressista.