Gênero literário que foi encorpando outros meios linguísticos e comunicativos, principalmente o audiovisual, percorreu uma trilha de confabulações e cenários imaginários da população. Marcos em mídia foram evidenciando a sensibilidade e o contextos políticos sociais presentes no gênero, mas sem perder esse costume narrativo e estético da crença popular.

Em “The Vast of Night”, primeiro longa-metragem de Andrew Patterson e com selo original dos estúdios da Amazon que está disponível no Amazon Prime Video, há esse conjunto de fatores supracitados, utilizando como local um pequeno condado no sul do Novo México, chamado de Cayuga. Uma noite especial para a unidade escolar, que se prepara para um jogo de basquete. Uma considerável parcela dos 500 moradores parece se atentar exclusivamente ao jogo, indo até o ginásio para acompanhar. Os que ficaram em casa, utilizam a TV ou o rádio como passatempo, antes de dormirem.

Do meio deste núcleo, pintam os protagonistas Fay (Sierra McCormick) e Everett (Jake Horowitz). Uma adolescente entusiasmada com o rádio e o poder da comunicação, trabalha de telefonista na central da cidadezinha. Já Everett, dono de carisma quase enjoativo, partilha do gosto de Fay pelo áudio; trabalha como DJ e locutor na rádio local. Por ser uma cidade minúscula, ambas linhas de comunicação são partilhadas, principalmente para fins de ouvir a população.

Sierra McCormick in The Vast of Night (2019)

Os dois são introduzidos em cena ao longo de uma contínua linha de diálogos, curiosidades, entusiasmos científicos e desdém juvenis. Caminham do ginásio até a central telefônica, em meio a cenas longas, de câmeras fixas e ângulos mais abertos, dando justamente um respiro às falas quase sem pausa de ambos. A noite é densa, um contraste mais forte irrompe entre eles, dando pouco espaço de visualização para seus rostos, focando mais no mapeamento dos trajetos e da cidade, além dos inícios dos contextos sociais e políticos.

Década de 50, onde a Guerra Fria – conflitos e troca de serviços de espionagem e investigação feitos por Estados Unidos e União Soviética um contra o outro – não só alimentava as crenças populares, como também assustava, seja pela ansiedade e premonição de um conflito nuclear ou pela “guerra da informação”. Informação que circulava bastante pelo rádio, com supostas linhas clandestinas de frequências. Fay chega ao posto, troca de lugar com a telefonista do turno anterior e se prepara o trabalho.

Nesse momento, a câmera de Patterson toma mais ação. Os cortes são mais rápidos, evidenciando o trabalho dinâmico, porém sistemático da adolescente. O plug em determinado receptor, o aperto do botão, a fala. Cenas de meio segundo que mostram cada sequência programática dessa ação, até que ao ouvir o boletim de notícias dado por Everett na rádio, Fay ouve um som esquisito. O principal objeto de conflitos, contextos e adesões a outros personagens inicia um filme mais especulativo e circunstancial.

A quantidade de informações que chegam sobre o determinado som circula estes contextos históricos, dispostos não como muletas narrativas e adornos, mas possuem um intuito de criar o senso da dúvida e da verossimilhança. O que aumenta generosamente esse tom de fábula, de algo oculto e incerto, mas que há poderes maiores que sabem dos eventos. O palanque alienígena do filme ascende a uma curva mais dramática em determinado tempo, mas nada que tira de rota o senso estético do imaginário. O que se sabe em geral é o que se ouviu de outras pessoas, são seus passados e suas histórias reprimidas, apontadas para si mesmos como desprendidas da realidade. Seja pelo que elas representam ou pelo que as próprias pessoas são. A conversa entre Everett e o personagem que inicia todo o enredo investigativo tem um “mini pico” de forte contextualização.

Nas opções estéticas de enquadramentos e tempos de movimentação de suas câmeras, Andrew cria alguns acenos referenciais aos mestres do cinema que configuraram a ficção científica nessa mídia, como o próprio Spielberg, mas a naturalidade que se absorve a relação dos personagens principais com essa curva do final, tem menos charme e menos senso de encantamento. No entanto, pontua o poder da especulação, das histórias dos moradores locais que recorriam às rádios para os relatos, pois também eram sinônimos de vida e deslumbramento.


Publicado por Adolfo Molina Neto

Jornalista, redator freelancer e social media