Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Canto dos Ossos”

Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Canto dos Ossos”

Ao vencer a “Mostra Aurora” da Mostra Tiradentes 2020, no começo do ano, o longa-metragem cearense Canto dos Ossos, de Petrus de Bairros e Jorge Polo, o júri que premiou o filme, disse que ele “aposta na imaginação como potência gestada coletivamente e acolhe seu caráter disjuntivo”.

O flerte que essa obra tem justamente com o slasher, com o horror cósmico, acrescenta uma experimentação singular ao audiovisual brasileiro nos últimos anos. Canto dos Ossos é um dispositivo sensorial da migração em um país de terceiro mundo, onde os subempregos são ferramentas do terror.Evidencia mais os terrenos baldios, as casas de palafita e a dominação da classe dominante, do que as belezas exuberantes do eixo Ceará-Rio de Janeiro.

Em intercalações na linha do tempo, o tom do filme explica a história de uma monstruosidade inerte no ser humano. A despedida entre duas amigas após o fim do ensino médio, mostra uma delas, Naiana (Rosalina Tamiza) trabalhando como professora do mesmo nível educacional. Descendo os Estados do Brasil, chega-se até Búzios, cidade litorânea do Rio de Janeiro, onde Diego (Maricota), um fotógrafo nômade de empregos investiga um hotel na cidade.

Canto dos Ossos apropria-se desse empreendimento como uma espécie de núcleo maléfico: uma caricatura do avanço das classes dominantes, dos ricos donos e das mansões que pipocam nas encostas da cidade. Mas a escolha de fotografia é mais taciturna, densa. A opção é para acentuar essa sensação predatória do local que Diego – um jovem negro, gay e de classe social menor – se encontra.

A obra de Petrus e Jorge possui assinaturas que marcam o tecido metafórico das personagens, junto do exercício de gênero do terror. Mas ambos são válidos independentes um do outro, porque um filme de horror tem sua própria narrativa e estilização, mesmo que utilize um contorno arquetípico (como os vampiros nesse caso) para caracterizar as personagens queers da obra.

É importante destacar que Canto dos Ossos tem uma simbologia política, ao mostrar que os vampiros não são os “monstros”, em mera classificação romancista. Aqui, sua sede por sangue e carne é pelo desvio das opressões coletivas que sofrem.

A migração não ocorre só pela busca de trabalhos em um mercado de maior demanda, ela também é necessária pela identificação desses seres em pares por seu propósito. Canto dos Ossos é uma passagem de vida instável, porém singular, dessas personagens.

Filme visto na Mostra Olhar de Cinema 2020, que vai de 07 a 15 de Outubro de 2020.

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