Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Nardjes A.”

Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Nardjes A.”

Karim Ainouz (A Vida Invisível, Madame Satã) possui descendência franco-argelina. Cineasta nascido no Brasil, voou até a Argélia em fevereiro de 2019 para rodar Nardjes A., documentário que mostra a ebulição dos movimentos, revoltas e protestos contra a herança política pós-independência do país da França, que durou de 1954 a 1962.

Com a ótica exclusiva pairada em “Nardjes”, a ativista e militante foco do documentário, Karim inicia a obra com uma contextualização tradicional: letreiros sobrepostos a imagens da Argélia de hoje e da Argélia de ontem, conectadas pelas reivindicações. O parecer histórico imerge a narrativa na linha do tempo do país, até nos ser apresentada Nardjes.

Em fevereiro de 2019, as manifestações que reivindicam a saída do então presidente Abdelaziz Buteflika, que estava há 4 mandatos na presidência argelina e iria disputar a reeleição pela 5ª vez. Marcado por um governo corrupto, as manifestações tomaram forma e ocuparam toda a capital Argel, além de províncias próximas. O resultado foi a retirada da candidatura de Bouteflika.

A organização que realizava as manifestações, à época ainda sem o nome de “Hirak”, centralizava gerações sobreviventes da Guerra de Independência e os filhos e netos destes remanescentes. Nardjes A. fala sobre uma delas, utilizada como catalisadora desta identidade juvenil de luta e movimentação política. Através da documentada, Ainouz cria uma permissividade na construção da militante com os espectadores.

Construído em um intervalo de 1 dia, o documentário busca ampliar as discussões que desenvolveram o anseio pelas manifestações, mas a ótica unilateral não permite que “Nardjes A.” saia do escopo de sua porta-voz. A herança imperialista francesa reside na arquitetura das cidades argelianas, na estética das lojas e no idioma, que tanto Nardjes quanto outros residentes conversam, mas a imposição disto pelo colonizador não se ata.

A força do documentário está na perseverança da luta do Hirak. Todas as sextas-feiras, desde o dia 22 de fevereiro, até o começo de 2020, os militantes foram às ruas reivindicar pela total saída do partido de situação do poder, além de diminuir a ocupação militar em espaços públicos.

Nardjes A inicia um contato com os documentos históricos, mas não os afunila, justamente pela câmera focada na figura de Nardjes, em quase totalidade, gritando e marchando pelas ruas de Argel. A narrativa limita-se a uma figura e a mesma, por mais consciente de todas as questões e eventos históricos da Argélia, não é o vernáculo.

Em matéria de fulgor e pela busca da identidade do próprio Karim, Nardjes A. é um pequeno testemunho desse encontro hereditário. O foco aparenta emanar para fora destes argumentos, mas apresenta uma narrativa jornalística irregular.

O filme faz parte do Festival Olhar de Cinema de Curitiba e o texto faz parte da cobertura do Orbe Zero.

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