Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Para Onde Voam as Feiticeiras”

Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Para Onde Voam as Feiticeiras”

Assim em “Era o Hotel Cambridge”, as irmãs Carla e Eliane Caffé, junto de Beto Amaral, constroem um motivo em que espaços e lugares se ocupam e possuem um relacionamento tão intrínseco, que “Para Onde Voam as Feiticeiras” aponta em semelhantes narrativas sociais.

Juntando um grupo de 8 a 10 pessoas, que incluem mulheres negras, mulheres trans, homens negros, homens trans, bissexuais, militantes de movimentos sem-teto, ocupam como principal espaço a região central da cidade de São Paulo, entre as regiões da República e Sé.

Na ativação espacial, todos os integrantes do grupo são conduzidos em uma forma de acasos dirigidos, para discutir questões que envolvem preconceitos, gentrificação, patologia do sexo, colonização e imperialismo de cada parte integrante dos seres ativos do filme.

Aos poucos, cada pessoa focalizada transpõe as marginalidades que o processo histórico-social do Brasil gerou. Os três diretores arqueiam entre o documentário de campo (a locação no cimento batido das ruas que entrecortam o centro de São Paulo) e o documentário laboratorial (compreensão e exposição individual de cada integrante do núcleo do filme), onde residem momentos interessantes dessa motivação do filme.

Para complementar as informações quando entrepostas e entrecortadas, surgem a colagem de filmagens caseiras, fotos e áudios de manifestações, gravações de agressão e outros tipos, em uma intenção de organizar a leitura dessas informações. O espaço externo, aos poucos, serve de núcleo fomentador e debatedor desses tópicos: a instigação de cada personagem serve como uma fagulha. Seja o objetivo era de concatenar opiniões dos transeuntes que passavam por ali, ou somente de centraliza-las para agitar o motivo do filme.

As filmagens que Carla, Eliane e Beto optam em “Para Onde Voam as Feiticeiras” convergem em eventos dispostos através de outros meios audiovisuais. Distantes de todo senso revolucionário, mas ainda assim político, há um aceno aos focos do movimento cinematográfico Cinema Marginal, enraizado na produtora Boca do Lixo.

Boca do Lixo possuía este nome, pois homenageava marginalmente, o apelido que a região central de São Paulo tinha nos anos 50 e 60. Condições paupérrimas de vida transformam os becos, baixios de ponte e esquinas em moradias insalubres para marginalizados, pobres que viam a ascensão industrial gentrificar o espaço ao redor, restando apenas o centro. 70 anos depois, a continuidade dessa história é apresentada aqui.

Outra intersecção documental que existe em “Para Onde Voam as Feiticeiras”, vai desbocar nas vírgulas imagéticas que o programa “Provocações”, da TV Cultura, apresentada no começo do século 2000 por Antônio Abujamra. A pauta do programa dividia entre o que estava em set (duas pessoas conversando sob esmeros particulares) para entrevistas com moradores de rua e pessoas marginalizadas deste mesmo centro de São Paulo.

Através deles, os cantos sobre a pobreza e a vida dura, sobre o martírio que o negro vive, sobre a curta vida que mulheres trans têm. A intenção era de conflitar a percepção que o espectador tinha do “marginal”, do “irreal”, identificando nesses entrevistados a carga excessiva de realidade.

Para Onde Voam as Feiticeiras” abraça este contrassenso, de forma mais ativa, porém mais teatral às vezes, comprimindo o espaço natural do documentário. Enquanto dispositivo de denúncia, ruma para um cenário de alianças e compreensões, mas destaca ruídos em grande parte de seu tempo.

Há de perceber, também, no argumento da obra, uma auto-crítica e da percepção dos realizadores, que são todos brancos cis gêneros, pertencentes a classes sociais mais altas que os justa postados em seu filme. Por mais que haja a explicitação desse fato, a fuga da mea-culpa é suavizada.

Filme visto no Festival Olhar de Cinema de Curitiba 2020.

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