Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Vento Seco”

Olhar de Cinema 2020 | Crítica: “Vento Seco”

A forma de confrontar o monótono e o subemprego, instaurar um senso anárquico-socialista dentro do horário de trabalho ou até mesmo após bater o cartão pode ser qualquer uma. Vento Seco, filme de Daniel Nolasco constrói como aparato o sexo e a nudez.

O uso do sexo como narrativa no cinema brasileiro não é recente. Durante a repressão do regime militar, nos anos 60 e 70, o cinema da Boca do Lixo apresentava em seus filmes as cenas de sexo e nudez explícitas, com a denotação da moralidade conservadora. Era o corrimão que cineastas como Carlos Reichenbach viam de contar histórias de quem tinha seu corpo, seu sexo e seus desejos controlados sistematicamente.

Em Vento Seco, conhecemos a história de Sandro (Leandro Faria Lelo), um homem na faixa etária de 40 anos, operário há 12 anos em uma empresa de fertilizantes. Na natação antes do trabalho, os corpos masculinos ocupam tela e espaço na condução e construção dos planos de Nolasco, aliado ao diretor de fotografia Larry Machado.

As cenas alternam entre a figura de Sandro, com o rosto expressivamente ávido e excitado com os espaços (públicos ou privados) que norteiam um senso estético urbano, ativo e surrealista. A fotografia insere os tons fortes em luz neon não só para acentuar as características semelhantes do mesmo com Sandro, mas também para inspecionar na figura de linguagem a noção do que faz parte da realidade, do que é sonho e da conversão entre ambos.

Nolasco registra arquétipos que exemplificam o tem homoerótico de Vento Seco. Maicon (Rafael Teóphilo) é o louro, de corpo esbelto, motoqueiro que usa constantemente roupas de couro. Já Ricardo (Allan Jacinto Santana) é a antítese do fetiche de Sandro; mais jovem e também pertencente ao quadro de funcionários da firma, possuem uma relação mais casual. Ricardo é um acessório mais tangível no imaginário de Sandro.

Enquanto as cenas de sexo envolvendo Sandro e Ricardo possuem uma manipulação mais natural e afável, os sonhos de fetiche de Sandro apresentam um cenário mais performático e repleto de fetiches, ocasionando a constante fuga do protagonista de sua opaca realidade. Vento Seco também explora o sexo como catalisador anárquico do grupo LGBTQ+.

No longa-metragem de Nolasco, há um tecido político classista. As reuniões do sindicato do trabalho são sempre postergadas, o documento que solicita mais medidas de segurança é esquivado constantemente por Sandro. Estas ações do protagonista não são necessariamente justificadas, mas a sugestão narrativa ocorre por esse espaço árido, seco e tradicionalmente sertanejo da cidade de Catalão; um típico lugar que zoneia todas as características e toda a figura que Sandro representa.

Vento Seco irrompe convenções com o uso da nudez e do sexo homoerótico, para figurar um senso comum que une o espaço de todos os personagens do filme: a firma. Ao final, um abraço coletivo que une Sandro, Maicon e Ricardo é conduzida por uma consciência de classe que acentua a horizontalidade de todos eles.

O filme faz parte da cobertura do Festival Olhar de Cinema, pelo Orbe Zero.

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